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v4a2| A aparência na qual caímos é como um espelho, cuja imagem estilhaça na pandemia

Atualizado: Jul 30

Por Aluísio Ferreira de Lima. Professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará. E-mail: aluisiolima@hotmail.com


Photo byDaniel TafjordonUnsplash



Entre os acontecimentos mais comentados nas redes sociais durante a pandemia estão as críticas voltadas para influenciadores digitais, celebridades e políticos que têm adotado posturas contrárias às medidas recomendadas pelos órgãos de saúde para o controle da pandemia ou, ainda, que apresentam comportamentos questionáveis no que se refere à sensibilidade e à empatia com relação ao próximo. A crítica se materializa, sobretudo, pela viralização de mensagens de desaprovação pública, de ódio e pedidos de boicote das contas destas figuras públicas. A mais recente polêmica envolveu Gabriela Pugliesi, blogueira que tinha mais de 4 milhões de seguidores no Instagram e recentemente realizou uma festa em sua residência para os amigos e proferiu publicamente a frase “fod*-se a vida”, entre diversas outras, o que culminou na desativação de sua conta na referida rede social.


Um dos motivos que tornou sua postura ainda mais inaceitável foi o fato da própria fitness influencer já ter sido diagnosticada com o COVID-19. Antes ainda da suspensão da conta, as principais marcas que patrocinavam Pugliesi rapidamente responderam às críticas dos seguidores retirando a vinculação de suas marcas ao seu perfil, assim como outros digitais influencers aproveitaram a deixa para fomentar o linchamento virtual e promover suas contas.


Longe de amenizar a atitude de Pugliesi, cabe destacar que ela é apenas um exemplo entre os vários perfis em redes sociais, que vão desde cantores caindo embriagados em suas lives até o pronunciamento do Presidente que responde: “e daí?”, ao ser questionado pela imprensa sobre o que ele pensava do aumento exponencial das mortes registradas em 24 horas, no dia 28 abril, o qual nos coloca em pior situação do que a China, em termos de proporção populacional. Refiro-me ao fenômeno resultante dos problemas provocados pela impossibilidade de gerenciar as aparências em meio à pandemia, por parte dos digitais influencers, assim como à desilusão por parte dos seus seguidores, ao perceber que direcionavam seu desejo para conteúdos vazios, de sentido, de valor.


Para essa discussão, eu gostaria de apresentar o conto da cidade de Messing, que está presente nas narrativas “d’As mil e uma noites”[i]. Essa cidade era cercada por muralhas e portões que impediam qualquer possibilidade de acesso ao seu interior. Era localizada no meio do deserto, com cofres cheios de tesouros e artigos luxuosos. Em certa ocasião, com o objetivo de acessar essas riquezas, o Califa enviou vários exploradores, que ao chegarem em Messing fizeram uma escada por conta da impossibilidade de encontrar alguma brecha nos portões da cidade. Conta-se que a primeira pessoa a subir a escada, apoiou-se no muro, olhou atentamente, bateu palmas e gritou o mais alto que conseguiu: - como é linda! E jogou-se sem hesitar para o interior da cidade. Todavia, os gritos escutados após a sua ação assinalaram que havia sido triturado até os ossos. O Emir Müsa, diante da situação chegou a dizer: “Se um homem sensato age assim, o que fariam, então, um louco?!” O acesso à cidade parecia impossível. Mesmo assim, as tentativas seguiram, até que fossem perdidos 12 exploradores. Nesse momento, a próxima pessoa a subir foi um ancião bastante debilitado pela passagem dos anos, o único conhecedor do caminho de volta para casa. Existia a preocupação de que se ele cedesse ao encanto todo o restante da tropa estaria condenada.


Ele subiu a escada invocando o nome de Alá, rezando versos de salvação, até chegar em cima do muro. Nesse instante, tal como os demais, bateu palmas e olhou fixamente para a frente. Seus companheiros gritavam desesperados: “Oh, sheik Abd es-Samad, não faça isso! Não se jogue para dentro da cidade!” Até que escutaram as risadas que iam se tornando cada vez mais altas. Ao descer da escada, o ancião explicou que havia descoberto a superficialidade da aparência a qual haviam cedido os outros exploradores. “De cima do muro vi dez virgens despidas acenando para mim com as mãos pedindo para eu descer; pareceu-me que havia um local cheio de água logo abaixo”. E continuou, “certamente, é um encanto pérfido inventado pelos habitantes da cidade para afastar quem quisesse olhá-la ou invadi-la”. Em outras palavras, o sheik Abd es-Samad descobrira que a perdição da cidade estava ligada a uma magia de ordem sexual, um encantamento que funcionava pela identificação e desejo dos exploradores em uma cultura na qual as mulheres eram cobertas com seus véus. Esta ilusão que se desfez em razão da idade e devoção do sheik.

Desfeita a ilusão, percebeu-se que a cidade era povoada apenas por cadáveres enrugados, devido à prisão a que os habitantes de Messing foram submetidos pelo ímpeto em garantir a manutenção das riquezas, e os longos 7 anos sem chuva, que acabaram com a vegetação e mataram as pessoas de fome. Os exploradores que caiam e iam sendo destroçados não acessavam a crueza da realidade da cidade de Messing, pois ficavam encantados pelas virgens e o oásis que eram miragens ligadas aos seus desejos. A lição do conto é que a aparência na qual caímos é como um espelho, onde o desejo pode ser visto e ser reconhecido como objetivo.


As várias manifestações de desaprovação pública, de ódio e as reivindicações de cancelamento de contas nesse momento que estamos vivendo, sobretudo pautadas pelos próprios seguidores, estão intimamente relacionadas à impossibilidade de manutenção da imagem que esses digitais influencers re(a)presentavam antes da pandemia. A aparência é o principal produto vendido e consumido em seus perfis. O vínculo dos seguidores aos perfis está intimamente relacionado com a correspondência entre a imagem e a representação social do poder e do sucesso (e nesse caso, quem é pobre não se identifica, mas projeta nestas imagens um estilo de vida e felicidade idealizados). Já que não se vive da mesma forma, acompanha-se o influencer. A insatisfação com a própria vida, mundana, comum, parece ter menos importância do que a vida do outro, em constante ostentação e aparência de satisfação. Principalmente em perfis como o de Pugliesi, de pessoas que ganham dinheiro tornando públicas as suas rotinas e provocando desejo, os seguidores - tal como os exploradores da cidade de Messging - depositam seu desejo naquilo que é representado.


O problema é que durante a pandemia percebe-se que as imagens e vídeos de glamour que influencers eram instados a postar com a mesma velocidade e frequência em que eram desvalorizadas, se tornam cada vez mais difíceis de serem apresentadas. O COVID-19 chega como a escassez de chuva na cidade isolada, deixando expostas a pobreza de suas experiências, o vazio de seus conteúdos e o individualismo de suas vidas. Se não bastasse suas vidas deixarem de ser desinteressantes sem a possibilidade dos registros de circulação, usufruindo e fazendo parte do estilo de vida capitalista, posando com roupas de grife, se alimentando em restaurantes caros, viajando para lugares exóticos, apresentando um corpo e relacionamentos pretensamente perfeitos, estas figuras públicas se sentem cobradas a exibir algum tipo de imagem de suas vidas reais, que em muitos casos é apenas um deserto de pessoas pouco preocupadas com o mundo ao seu redor. A aparência na qual caímos é como um espelho. Quando ele se despedaça, o que ainda conseguimos ver de nós mesmos?

Referências:

[i] Die Erzählungen aus den tausendundein Nächten. Übersetzt von Enno Littmann. Band IV, Wiesbaden 1953, S. 233-255.

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