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A casa

Atualizado: Mai 16

Por Julio Silveira. Julio Silveira. Psiquiatra, psicoterapeuta. Mestre e doutor em Psicologia pela UFF. Professor de Saúde Mental da UFRJ/Macaé. Contato: extensaosmab@gmail.com


Photo by Harmen Jelle van Mourik on Unsplash

Subitamente ele percebeu que a barbárie se aproximava e desta vez estava muito perto. Depois da pandemia provocada pelo novo coronavírus ter-se mostrado muito mais mortal do que se imaginou e do caos no sistema de saúde, com mortes nas ruas, nas casas, hospitais e prefeituras apedrejados, a fome foi o estopim para o estouro das massas.

Ficou claro que a turba ia invadir as casas. Sempre foi simpático às causas da turba, mas a turba continuava a existir. Queriam com urgência água, cama, comida, banho. Não havia como fugir. Ficar. Mas como? Pegou roupas usadas, rasgou-as um pouco, despenteou o cabelo, se sujou de terra, colocou um chinelo que ia ser dado. Olhou tudo na casa. Gostou, vibrou com o momento. Apesar de tudo, era bom estar ali naqueles acontecimentos. Algo ia ocorrer. Mudanças. Queria estar presente. Medo.

Tomou o caminho da rua quase sem dinheiro, depois de jantar e beber um bom vinho.

Andou muito e parou ao longe de onde estava um grupo dos que moravam nas ruas. Depois chegou mais perto e tentou se enturmar. Olharam-no com alguma surpresa mas não disseram nada. Logo ouviu que eles estavam escolhendo casas para invadir, vazias ou com gente dentro. Saquear o supermercado e ocupar uma casa vazia era uma boa ideia. Mas entrar numa casa onde deveria haver comida e conforto também era atraente.

Começaram a andar. Iam como as hordas de filmes de mortos vivos ou semelhantes mas tranquilos, apesar de apreensivos. Nas casas, notava-se que os moradores nos portões estavam entre assustados e conformados. De fato estava ali o povo das ruas e dos becos e das favelas e das palafitas e das cabeças de porco e dos cômodos entupidos de gente. Estava ali a enorme ralé esquecida. Conforme iam andando, até se dirigiam a ele. Passavam pelas casas sendo ocupadas e não havia grande tumulto. Apenas um alvoroço.

Não queria entrar em nenhuma daquelas, claro. Chegaram então à frente da sua casa. Com ares de tímido, fez menção de querer entrar. Aí perguntaram quem ele era, de onde tinha vindo, qual seu ponto na rua, o porquê daquelas roupas tão boas e do ar descansado e sem fome. Disse que veio de longe, há pouco tempo. Essa e outras mentiras abriram-lhe as portas para entrar junto daquelas dez pessoas.

O que mais ele olhava era o olhar das pessoas para as coisas dele. Teve que disfarçar. Não olhava para as suas coisas. Ia entrando, seguindo-os como um subalterno. E era. Os dez resolveram uma distribuição pelos quartos e a ele coube o de empregada, no quintal, sozinho, na cama de solteiro. Como era uma casa de quatro quartos, todos com banheiros, ficaram bem instalados e ele vibrou com a sorte que teve, mesmo que o banheiro estivesse situado lá fora, no fundo do quintal. No meio desta confusão conseguir um quarto, na própria casa, distante de humanos, não esperava tanto. Porque o problema é a proximidade com os humanos: nojo. A massa adormecida acordou e não está para brincadeira. Como eles se comportarão dentro da minha casa? Quebrarão coisas? Vão comer tudo de uma só vez?

Não conseguia dormir. Aquele homem de 64 anos, aposentado, situação boa, tinha visto muita coisa na vida, mas caos social, forças armadas se recusando a reprimir o povo e este sentindo-se sem lei e explodindo em saques e ocupações, nunca viu nem tinha notícia de algo tão grandioso. No fundo vibrava com a situação, queria vive-la até o fim, a todo custo, custasse o que custasse. Foi dormir com uma sensação que estranhou: achou ótimo não ter mais nada para fazer, achou ótimo ter que conviver com a turba, achou ótimo se desobrigar das tarefas de manter a casa arrumada.

Dormiu bem e acordou com fome. Teria que ia lá dentro. Chegou a hora de conviver.

Apareceu muito de leve na porta da cozinha e olhou tudo devagar. Estavam ali, as dez pessoas, em volta da mesa da copa. Comiam sem pressa. Percebeu que elas riam e lembravam do quanto tinham comido na véspera! Olharam para ele e chamaram: “pode entrar, estranho”. Quieto, meio de cabeça baixa, foi se chegando. Pegaram um banco para ele. Comeu em silêncio, surpreso com vários detalhes: a ausência de perguntas para ele, a organização da mesa, a harmonia e a suavidade. As conversas giravam em torno de como andariam as atividades de ocupação. Não sabiam muita coisa, internet e telefone não funcionavam e não ligaram a televisão. Falavam que não acreditam em nada que passa na TV.

Soube que durante a noite houve um revezamento no portão, para avisar os passantes à procura de uma casa para entrar que esta já estava cheia. As conversas nesses encontros eram muito rápidas, por que havia pressa. Souberam de novidades: quase todos habitantes dos bairros pobres estavam na cidade à procura de comida e casa. Organizavam-se em grupos de cerca de vinte pessoas e estavam bem objetivos. Até as invasões de mercados e farmácias eram organizadas e calmas. Aos poucos começaram a fazer perguntas mais diretas a ele, mostrando mais curiosidade. Tentou ser evasivo, mas quando disseram que aquelas roupas quase limpas não pareciam as de quem vive nas ruas, sentiu que o momento era sério. Disse que tinha conseguido há pouco tempo. Porque não tem uma bolsa? Me roubaram. Os olhares eram meio incrédulos, mas não lhe apertaram mais.

Achou melhor se recolher ao seu quarto, representando o papel que criou: distante, esquisitão. Antes do almoço chegou perto para ajudar. A casa estava muito bem servida de gêneros, que ele tinha estocado com medo dos distúrbios. Os novos habitantes fizeram um pouco de comida e utilizaram também a que já estava pronta. Aceitou um prato cheio que fizeram para ele.

Durante o jantar alguém surgiu com um vinho e falou que onde achou tinha muito mais. Mas não sabiam onde estava o saca-rolhas. Muitas opiniões a respeito do que fazer até que ele se levantou e andou na direção da terceira gaveta do móvel da cozinha. Quando abriu a gaveta gelou de medo. E agora? Recuar? Não dá mais, olhavam. Pegou o saca-rolhas e colocou na mesa. Como você sabe que o saca-rolhas estava lá, perguntou a mulher que parecia ser uma liderança. É que eu trabalhei nessa casa muito tempo. Foi depois que eu saí daqui que caí nas ruas. Abriram o vinho se entreolhando. Depois disso tornou-se mais raro no convívio. Ficava sossegado.

Dois dias depois, ao entrar para o café da manhã, os habitantes estavam diferentes. Meio agitados, uma certa alegria, uma excitação. Novamente teve medo. Olhavam para ele com insistência, sem disfarçar como antes. Quando todos estavam em meio à refeição, a mulher liderança falou. Meu amigo, descobrimos quem você é. O sangue fugiu-lhe da face. Achamos uns documentos seus muito bem escondidos. Você é o antigo dono da casa. Porque você está vestido assim e está entre nós vamos saber aos poucos. O que queremos dizer é que você é muito bem-vindo ao nosso grupo. Vamos voltar ao café.

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