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v3a2| A casa de máquinas das epidemias

Atualizado: Jul 30

Por

Bernardo Lewgoy. Professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS.

Caetano Sordi. Doutor em Antropologia Social pela UFRGS.


Ilustração de Olaf Hajek para o New York Times - Sunday Review.

Disponível em: https://mronline.org/2020/03/12/capitalism-is-a-disease-hotspot/



Em que pesem as mirabolantes teorias da conspiração ligadas ao Laboratório de Virologia da cidade chinesa de Wuhan, tudo leva a crer que origem do vírus causador da presente pandemia deva ser procurada em um local bem mais prosaico. A saber, em um dos muitos “mercados úmidos” daquela cidade, onde, em condições propícias, o patógeno teria efetuado o salto evolutivo que caracteriza a emergência de doenças compartilhadas entre animais e humanos (zoonoses). Repetindo um conhecido enredo, acredita-se que algum animal silvestre ou doméstico, entre os vários oferecidos à venda no mercado de Wuhan, teria servido de ponte para o agente infeccioso passar de morcegos a humanos, cabendo ao pangolim - bicho parecido com o tatu sul-americano - o protagonismo da história, na hipótese mais conhecida.


Em janeiro, a mão forte do Estado chinês foi rápida em decretar o fechamento do local, assim como a proibição do comércio de animais selvagens em todo o país. Desde então, diversas vozes no debate internacional têm defendido a abolição completa dos mercados úmidos, de modo a estancar o que se entende ser a casa de máquinas de múltiplas pandemias. Todavia, se estas exortações manifestam preocupações genuínas com a saúde e o bem-estar de humanos e animais, por outro lado, também carregam o risco de reproduzir estereótipos e preconceitos contra os modos de vida asiáticos, especialmente em relação aos chineses. Com efeito, há tempos que os mercados úmidos – assim chamados em oposição aos mercados “secos”, de produtos não-vivos e manufaturados - habitam certo imaginário exotizante sobre o Leste Asiático como lugar das inversões mais radicais dos tabus alimentares ocidentais, seja pelo consumo do excessivamente selvagem e longínquo (morcegos), seja pelo demasiadamente doméstico e próximo (cães). No entanto, o foco exclusivo sobre essas excentricidades ignora que a dieta proteica média destas populações é mais semelhante à nossa do que se imagina, sendo o uso alimentar e medicinal de animais selvagens, no mais das vezes, uma questão de nicho.


Não há dúvidas de que o cotidiano dos mercados úmidos envolva encontros humano-animais propícios para o surgimento de zoonoses. No entanto, o mesmo pode ser dito de outros lugares do mundo globalizado, em que a supressão de habitats naturais e a industrialização da produção animal engendra condições ainda mais favoráveis para o aparecimento de doenças emergentes. Basta recordar que o surto de H1N1 de 2009 partiu de uma granja industrial de porcos no México, e que as crises da Vaca Louca, nos anos 1980 e 1990, ocorreram nas altamente tecnificadas criações bovinas europeias.


Em artigo recentemente publicado no jornal inglês The Guardian, Jonathan Safran Foer e Aaron Gross puseram o dedo na ferida da pandemia que enfrentamos: ao liberar patógenos mortais em nosso frágil meio ambiente, o modo como criamos e comemos animais ameaça nossa sobrevivência. Não se trata do terrível aquecimento global ou da extinção em massa de espécies: de origem antrópica fartamente documentada, esses problemas são já matéria de consenso na comunidade científica internacional. Por serem fenômenos de efeito lento e progressivo nos acostumamos a minimizar sua importância, para alegria de negacionistas climáticos, governos extremistas, desmatadores, mineradores e grandes corporações petroleiras. O drama do coronavírus é o completo oposto deste cenário, e talvez por isso nos auxilie a tomar a consciência necessária para que desenvolvamos o que o sociólogo Ulrich Beck chamou de “catastrofismo emancipatório”. Seus efeitos são dramáticos e imediatos, convocando um sentido de urgência e reflexão profunda no modo como nos relacionamos com o meio ambiente e os animais.


Nesse sentido, os combalidos animais selvagens vendidos nos mercados úmidos são apenas o sintoma mais visível de um problema muito maior. Se não desarmarmos o coquetel explosivo das relações predatórias que mantemos com os demais seres que habitam a Terra, só nos resta esperar a próxima pandemia - quiçá ainda mais mortal.



Texto originalmente publicado em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/saude/noticia/2020/04/modo-como-criamos-e-comemos-animais-pode-causar-estragos-ainda-piores-do-que-o-coronavirus-alertam-pesquisadores-ck9mt7tzy000x015nnyjkeh1d.html



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