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v2a3| A conspiração dos perdedores

Atualizado: Jul 29

Por Paul B. Preciado. Professor na Universidade Paris VIII, doutor em Teoria da Arquitetura em Princeton, mestre em Filosofia Contemporânea e Teoria de gênero na New School for Social Research de Nova Iorque. É filósofo e escritor transfeminista com importantes contribuições para o pensamento político contemporâneo.

Tradução por Luiza Ferreira Lima. Doutorandx em Antropologia Social - USP.


Adoeci em Paris na quarta-feira, 11 de março, antes de o governo francês ordenar o confinamento da população, e quando me recuperei em 19 de março, um pouco mais de uma semana depois, o mundo havia mudado. Quando me deitei na cama, o mundo era próximo, coletivo, viscoso e sujo. Quando me levantei da cama, ele havia se tornado distante, individual, seco e higiênico. Durante o adoecimento, não tive condições de avaliar o que estava ocorrendo de um ponto de vista político ou econômico porque a febre e o desconforto tomaram conta da minha energia vital. Ninguém é filósofo com a cabeça explodindo. De tempos em tempos, eu assistia às notícias, o que apenas aumentava meu descontentamento. A realidade se tornou indissociável de um sonho ruim, e a capa dos jornais era mais desconcertante do que qualquer pesadelo trazido pelas minhas ilusões febris. Por dois dias inteiros, como uma prescrição médica contra a ansiedade, decidi não acessar qualquer site. Atribuo minha cura a isso e a óleo essencial de orégano. Não tive dificuldade para respirar, mas foi difícil acreditar que continuaria respirando. Não tive medo de morrer. Tive medo de morrer sozinho.


Entre a febre e a ansiedade, pensei comigo mesmo que os parâmetros do comportamento social organizado haviam mudado para sempre e não poderiam mais ser modificados. Senti isso com uma convicção tal que perfurou meu peito, ainda que minha respiração fosse ficando mais fácil. Tudo irá reter para sempre a nova forma que as coisas tomaram. De agora em diante, nós teríamos acesso a formas ainda mais excessivas de consumo digital, mas nossos corpos, nossos organismos físicos, seriam privados de qualquer contato e vitalidade. A mutação assumiria a forma de uma cristalização da vida orgânica, de uma digitalização do trabalho e do consumo e de uma desmaterialização do desejo.


Os casados estavam agora condenados a viver 24 horas por dia confinados com a pessoa que haviam esposado, não importa se a amavam ou a odiavam, ou ambos ao mesmo tempo – o que, a propósito, é o caso mais comum. Casais são regidos por uma lei da física quântica segundo a qual não há oposição entre termos contrários, mas sim uma simultaneidade de fatos dialéticos. Nessa nova realidade, aqueles entre nós que perderam o amor ou não o encontraram a tempo – isto é, antes da grande mutação do COVID-19 – estávamos condenados a passar o resto de nossas vidas completamente sós. Nós sobreviveríamos, mas sem o toque, sem a pele. Aqueles que não ousaram dizer à pessoa amada que a amavam não podiam mais contatá-las, mesmo que pudessem expressar seu amor, e agora lhes restava viver para sempre com a expectativa impossível de um encontro físico que nunca ocorreria. Aqueles que escolheram viajar ficarão para sempre do outro lado da fronteira, e os ricos que foram à praia ou ao interior para passar o período de confinamento nas suas segundas casas tão agradáveis (coitados!) nunca mais poderão voltar para a cidade. Suas casas seriam requisitadas para acomodar os sem-teto, que, de fato, diferentemente dos ricos, vivem na cidade em período integral. Sob essa nova e imprevisível forma que as coisas assumiram depois do vírus, tudo seria definido rigidamente. O que parecia um confinamento temporário continuaria pelo resto de nossas vidas. Talvez as coisas mudem de novo, mas não para aqueles de nós que já passamos dos 40 anos. Essa era a nova realidade. A vida após a grande mutação. Eu então me perguntei se vale à pena continuar vivendo assim.


A primeira coisa que fiz quando saí da cama, depois de ter estado doente com o vírus por uma semana que foi tão vasta e estranha quanto um novo continente, foi me fazer a seguinte pergunta: sob quais condições e de que modo vale a pena continuar vivendo? A segunda coisa que fiz, antes de encontrar uma resposta a essa questão, foi escrever uma carta de amor. De todas as teorias conspiratórias que li, a que me mais me seduziu é a que diz que o vírus foi criado em um laboratório para que todos os perdedores do planeta pudessem recuperar seus ex – sem serem realmente obrigados a juntar-se a eles.


Explodindo com o lirismo e ansiedade acumulados durante uma semana de doença, temores e incertezas, a carta a meu ex era não apenas uma declaração de amor poética e desesperada, mas acima de tudo um documento vergonhoso para aquele que a assinou. Mas se as coisas não podiam mais mudar, se aqueles que estavam distantes não poderiam nunca mais se tocar de novo, qual importância podia ter de ser ridículo desse modo? Qual importância havia agora de se declarar à pessoa que você ama, sabendo que muito provavelmente ela já o esqueceu ou o substituiu, se você nunca mais poderia vê-la de qualquer modo? O novo estado de coisas, em sua imobilidade escultural, conferiu um novo grau de mas que merda, mesmo em seu próprio ridículo.


Escrevi à mão aquela carta tão bela e horrivelmente patética, coloquei-a em um envelope branquíssimo e nele, em minha melhor caligrafia, escrevi o nome e endereço do meu ex. Me vesti, pus a máscara, pus as luvas e sapatos que havia deixado à porta, e desci à entrada do prédio. Lá, de acordo com as regras de confinamento, não saí à rua; em vez disso, dirigi-me à área do lixo. Abri a lixeira amarela e lá pus a carta a meu ex – afinal o papel era reciclável. Lentamente voltei a meu apartamento. Deixei meus sapatos à porta. Entrei, tirei minhas calças e as coloquei em um saco plástico. Tirei minha máscara e a coloquei na varanda para arejar; tirei minhas luvas e as joguei na lata do lixo e lavei minhas mãos por dois minutos intermináveis. Tudo, absolutamente tudo, foi ajustado de acordo com a configuração definida após a grande mutação. Voltei a meu computador e abri meu e-mail: e lá estava, uma mensagem do meu ex intitulada “penso em você durante a crise do vírus.”



Publicado originalmente em https://www.artforum.com/slant/the-losers-conspiracy-82586

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