• antropoLÓGICAS

v2a50| A Constelação Corona Sul e a gestão simbólica da peste

Atualizado: Jul 29

Texto de Yuri Patrick Oliveira Marrocos. Estudante do curso de Psicologia da Universidade Federal do Ceará e bolsista de Iniciação Científica pelo CNPq.

E-mail: yurimarrocos@outlook.com.br


Foto: Corona Australis - detalhe do Atlas Celestial de Alexander Jamieson (1822).

Disponível em: http://www.peoplesguidetothecosmos.com/constellations/coronaaustralis.htm



Para a compreensão do seguinte texto de minha autoria, é preciso que você viva em uma época onde Descartes está morto e sepultado, e sua metodologia científica esteja superada, que um patogênico semivivo ameace nossa permanência na vida e que minha viadagem sudaka e minha devoção aos oráculos milenares tenham seu devido valor (subversivo) acadêmico. Eu, simplesmente, não sou uma certeza e não busco ser.


Há uma constelação no hemisfério celestial sul, avizinhada pelas constelações de Sagitário e Escorpião, chamada Corona Australis (CrA), a Coroa do Sul ou mesmo Coroa Austral. Os mitos que a envolvem são um mistério, porém crê-se que são ligados aos de Baco, deus do vinho, nos quais narra-se que uma coroa de flores foi posta no céu em homenagem à Sêmele, mãe do deus. Outra versão relata que é um monumento à vitória de Corina de Tângra num concurso de poesia. Por vezes também é considerada a mítica coroa perdida do Sagitário.

A peste descrita em Épido Rei possui relação direta com o sistema político e arquitetura social de Tebas. É preciso entender o coronavírus não como um agente externo, mas insurgente de nosso desequilíbrio planetário.

A ineficácia da epistemologia médica contemporânea em compreender a relação simbólica da peste com a vida política e manejo das cidades nos remete a um passado colonial em que nossos oráculos foram todos traídos e julgados pela Inquisição. Os sobreviventes desse trauma conseguem conceber que a peste mantém sua causa divina consoante o mito do qual é veículo, uso e expressão. Esse extrato simbólico na compreensão da crise sanitária, pública e social do novo coronavírus nos remete ao questionamento supostamente incomensurável que o psiquiatra transcultural Vitor Pordeus levanta: afinal, qual a relação entre biologia, psicopatologia, cultura, linguagem e símbolo?


Certamente, a apreensão da Covid-19 precisa ser feita a partir de uma leitura de natureza coletiva sobre o adoecimento. Na entrevista cedida a Nelson Monteiro, o psiquiatra responde que a crise é derivada de uma narrativa médica equivocada sobre Imunologia e Psiquiatria, desvinculada de determinantes sociais:

“A cognição não reside no sistema nervoso, aquilo que identificamos como “mental”, não está na cabeça, mas surge na conduta, nas ações do organismo em relação aos elementos do meio. Ao aplicar essa maneira de ver ao sistema imune, surge uma visão diferente da atividade imunológica: embora sem dispor de conexões intercelulares como a exibida por neurônios, os linfócitos se organizam em malha”[i].


A atual arquitetura corporal da medicina territorializa a atividade imunopsiquiátrica em locus específicos de atuação. A organicização do corpo em torno de sua funcionalidade constrói uma experimentação da existência humana de si para consigo mesma. O ser humano enquanto totalidade se fundamenta a partir da destruição e aniquilamento daquilo que não é humano. O problema é que a unidade “humano” nunca existiu. E estamos em um frequente processo de autoextermínio a partir da proclamação compulsória de que alguns corpos são desprovidos de humanidade. Epidemias imunológicas são o espelho do fracasso do atual paradigma médico-científico.

A compreensão vigente da imunologia é, antes de tudo, um projeto de hierarquização social: a noção de quadros imunológicos é erguida através de rigorosos parâmetros sociais que produzem o saudável ou o doente, garantem o acesso à cidade ou a exclusão social, fundamenta a biopolítica ou a necropolítica. Essas narrativas sociopolíticas acerca da Covid-19 nos remetem a processos de aniquilamento das diferenças que são historicamente revisitados. A epidemia global evidencia as lógicas binárias e cartesianas nas quais erguemos nossas cidades e nossa política: condizente com lógicas coloniais, racistas e higienizantes. O Sars-CoV-2 atua como retrato fiel do pacto imunológico no qual os regimes neoliberais se fundamentam: a gestão simbólica e espacial de corpos racializados, sexo-dissidentes, loucos, etc.

Paul B. Preciado, no texto “Aprendendo com o Vírus”, pensa que


“O que está sendo ensaiado em escala planetária por meio da gestão do vírus é um novo modo de entender a soberania em um contexto em que a identidade sexual e racial (eixos da segmentação política do mundo patriarcal e colonial até agora) está sendo desarticulado. A Covid-19 deslocou as políticas de fronteira que estavam ocorrendo no território nacional ou no super-território europeu para o nível de cada corpo individual. O corpo, seu corpo individual, como espaço vivo e como trama de poder, como centro de produção e consumo de energia, tornou-se o novo território no qual as políticas de fronteira agressivas que projetamos e testamos durante anos são expressas agora sob a forma de uma barreira e guerra contra o vírus. A nova fronteira necropolítica mudou das costas da Grécia até a porta do domicílio privado. Lesbos começa agora na sua porta de sua casa. E a fronteira não para de te cercar, ela empurra até ficar cada vez mais perto do seu corpo. Calais explode agora na sua cara. A nova fronteira é a máscara. O ar que você respira deve ser apenas seu. A nova fronteira é a sua epiderme. O novo Lampedusa é a sua pele”[ii].


Nessa análise, a epidemia global do coronavírus representa o fim do Ocidente Cristão enquanto estrutura, a transição da Era de Peixes para a Era de Aquário. O vírus talvez seja o Jesus Cristo desse novo mundo: em sua versão zumbicyberpunk. O panóptico de Bentham, descrito por Michel Foucault, agora está no espaço doméstico, a predação mercadológica da política compreendeu que estar respaldado por um regime fascista pode ser igualmente lucrativo e a gestão global da pandemia do coronavírus se mostra cada vez mais empenhada em usar os povos do Sul como laboratório humano de ingestão de medicamentos para o controle imunológico contra a Covid-19, assim como a compreensão médica predatória do corpo e do organismo.


[i] VAZ, Nelson Monteiro; PORDEUS, Vitor. Visita à imunologia. Arq. Bras. Cardiol., São Paulo, v. 85, n. 5, p. 350-362, nov. 2005. p. 352. [ii] PRECIADO, Paul B. Aprendiendo del virus. In, AMADEO, Pablo (Org.). Sopa de Wuhan. Editorial: ASPO (Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio), 2020. p. 174.

522 visualizações1 comentário

© 2023 por Design para Vida.

Criado orgulhosamente com Wix.com

CONTRA A PORTARIA 34 E AS MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES