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v2a10| A fome como argumento para flexibilização do isolamento social no Brasil

Atualizado: Jul 29

Por Aluísio Ferreira de Lima. Psicólogo e doutor em Psicologia (PUCSP). Professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará – UFC. Contato: aluisiolima@hotmail.com



De todas as argumentações em disputa nesses tempos de pandemia, a que sustenta o discurso de empresários brasileiros e do governo federal é a da fome. O presidente Jair Bolsonaro sempre que possível reforça em seus pronunciamentos que a fome será inevitável com o isolamento social horizontal. A fome é uma argumentação que revelaria a preocupação de uma classe privilegiada com as camadas mais pobres de nossa sociedade, com os grupos de risco e trabalhadores que, em sua compreensão, deveriam sair de suas casas em tempos de pandemia para garantir seus empregos e estabilidade da economia.


Todavia, é importante lembrar que fome no Brasil não é um problema resultante do isolamento por conta do coronavírus. A fome é um problema estrutural, assim como são o racismo, o sexismo, a LGBTQ+fobia e tantas outras desigualdades que revelam nosso mal de origem. Aliás, em 1932, no estado do Ceará, a criação dos campos de concentração voltados ao aprisionamento dos sertanejos retirantes da seca é exemplar para assinalar como a fome se tornou um problema para o governo apenas em momentos históricos em que os famintos começaram a lutar por alimentos. O Programa Bolsa Família é outro exemplo que evidencia a falta de interesse no enfrentamento da fome no Brasil, uma vez que esse programa foi extremamente criticado pelo atual governo e seus apoiadores durantes as eleições presidenciais e sofreu duros cortes após a posse do presidente. Redução de recursos em grande medida nos estados da região Norte e Nordeste do país, onde a fome e escassez de trabalho é maior do que em outros estados da federação, que não foram motivo de nenhuma mobilização por parte de empresários. Antes da pandemia, como vemos, a preocupação com a fome da população, por parte daqueles que se mostram tão preocupados nesse momento, não existia.


A fome, enquanto argumento forte por parte de pessoas que nunca passaram e nunca passarão fome, por indivíduos que a desconhece enquanto experiência, mais do que uma preocupação com a população, revela a face mais sinistra do cinismo e a falência da crítica. A argumentação é de fato uma cortina de fumaça sobre o desprezo pelos trabalhadores e pobres por parte de muitos empresários que sequer deixaram terminar o primeiro mês de isolamento para demitir centenas de funcionários e não ter que lidar com “prejuízos” financeiros. Empresários e governantes que não tiveram pudor de defender em diferentes meios de comunicação que a morte é algo menor frente aos perigos de um colapso econômico. Como se antes da pandemia já não vivêssemos em crise econômica em crescimento. A argumentação da fome contra o isolamento horizontal se apresenta, ainda, de forma perversa, porque lança o dilema “ficar em casa ou lançar-se ao mundo com chances de contaminação” como se fosse uma questão moral individual, sem deixar claro que essa escolha ocorre de forma diferenciada, de acordo com a classe social a qual cada pessoa pertence.


Para uma parcela da população que está em isolamento social em casa e vive uma vida privilegiada frente a grande maioria pobre do nosso país, a argumentação da fome aparece como uma convocação para salvar uma economia pela via do consumo. A situação experienciada tende a se parecer a cada dia mais com a de uma prisão domiciliar, uma vez que o isolamento se dá de uma forma mediada pela interação tecnológica. Não há quem abraçar. Ninguém pode abraçá-los. São obrigados a conviver 24 horas com filhos e pais que descobrem serem estranhos em suas vidas. Não podem abraçar sequer a si mesmos. Para elas, o alimento que sentem mais falta está relacionado as relações que tinham com outras pessoas. Alimento que está cada dia mais escasso. Na medida em que tudo o que era próximo vislumbra-se como esgotado, aniquilado; que cada vez mais a existência de um outro corpo com o qual se possa apoiar deixa de existir. Não por acaso, a rotina de interação com a academia, a escola, o escritório, os restaurantes, continuam sem cessar, em postagens vertiginosas nas redes sociais. A fome vivida por essa classe é da ordem dos afetos. E, uma vez que a fome do corpo não aparece como uma questão diária, a busca por alimentos afetivos não cessa um só dia, mesmo que isso coloque pessoas que nunca tiveram a opção de ficar em casa em risco. Os shows em lives de alguns artistas, para oferecer qualidade e garantir o conforto do expectador, estão cada dia mais comuns e para funcionar dependem de garçons, equipe técnica, pessoas que montam os palcos, pessoas da limpeza etc., que apesar de invisíveis são expostos involuntariamente a contaminação pelo coronavírus.


Para esses trabalhadores, invisíveis durante os shows e atuação nas esteiras de produção, que representam a maioria dos brasileiros, o argumento da fome chega de outro modo. Posto para eles fome é sinônimo de morte. Embora alguma dessas pessoas sequer tenham casas, elas confrontam a fome e a morte diariamente. O isolamento fora do ambiente de trabalho existe desde sempre, antes de qualquer pandemia. O desemprego é a maior doença que enfrentam e quando são acometidos dela a fome e a morte são suas primeiras visitas. Assim, o trabalho como luta contra a fome e a morte faz parte de seus modos de existência. O alimento afetivo, principalmente nos espaços em que são explorados, é vedado desde sempre em suas vidas. Seu corpo somente é reconhecido como o corpo máquina que faz a economia funcionar, mesmo que a riqueza produzida nunca chegue em suas mãos. É um corpo que fica sozinho entre as pessoas e, em grande medida, se torna invisível. Um corpo que não pode, em dias comuns, ficar na rua, realizar protestos, sendo somente suportado na condição de explorado que circula em trânsito de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Os argumentos sobre a fome, que tanto humaniza a classe dos que podem se alimentar com os afetos em plena pandemia, no conforto de suas casas, chegam para essas pessoas esses brasileiros pobres como mais uma forma de violência que esgarça ainda mais suas relações sociais frente as pessoas próximas, que também são tratadas como descartáveis. Descartáveis como as máscaras utilizadas para sair de casa para alguma “emergência”.


O discurso da fome, como argumento para flexibilização do isolamento é covarde e produzirá muitas mortes durante os dias que virão pela frente nessa pandemia. Mesmo que a fome não seja um problema produzido pelo vírus. As pessoas acompanharam, sem ter nenhuma possibilidade de ação, a oscilação de humor do presidente Bolsonaro em 6 de abril de 2020 e testemunharam como sua autoridade pode ser mais fatal que qualquer pandemia. A incapacidade de lidar com críticas pessoais, proferidas por seu Ministro da Saúde, interferindo de forma radical na gestão da vida de milhares de brasileiros. O sofrimento proporcionado pela indeterminação gerada até a intervenção dos militares do congresso federal no final daquela tarde, anulando a demissão do Ministro da Saúde em plena pandemia, foi maior do que qualquer argumentação sobre os perigos da fome. O pronunciamento que veio dias depois, nas vésperas de um feriado religioso, reforçando novamente a importância da flexibilização do isolamento, poderá ter como efeito a retomada das movimentações nas ruas e um crescimento vertiginoso de novas contaminações. Para os sobreviventes da pandemia talvez fique a lição de que a maior dificuldade encontrada no enfrentamento do vírus não será a fome, mas lidar com o presidente, seus apoiadores e os interesses do mercado.



Photo byBen WhiteonUnsplash



Tradução do texto publicado em: https://www.hemisferioizquierdo.uy/single-post/2020/04/10/El-hambre-como-argumento-para-flexibilizar-el-distanciamiento-social-y-cuarentena-en-Brasil?fbclid=IwAR1A7rwv-hOTxu4O-nOu4qV3kBbgpD-SKqH0Xdr3AzZd-6tFWnhTezEiZj8

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