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v5a10| A (re)apropriação da categoria “grupos de risco” – da Aids ao COVID-19 –

Atualizado: Jul 30

e a permanência do estigma sobre sujeitos em contextos pandêmicos


Por Ricardo Andrade Coitinho Filho. Doutorando em Antropologia pelo PPGA/UFF, com bolsa CAPES; desenvolve pesquisas nas áreas de gênero e(m) interseccionalidade, biociência, políticas públicas, Direitos Humanos e etnografia. Vinculado ao grupo de pesquisa CULTIS/UFRRJ e ao laboratório de estudos Conectividades.


Photo by Amin Moshrefi on Unsplash


Com muita preocupação, mas também atenção às orientações preventivas globais, temos sido assolados por notícias de óbitos cada vez mais alarmantes, ocasionados pelo COVID-19. Ao longo de poucas semanas, notícias que se referiam ao epicentro na China, passaram a tratar sobre os países da Europa e, ainda que sob à espreita de uma concepção incrédula, também noticiavam o efeito drástico sobre os Estados Unidos. No contexto nacional, as sensações de medo e insegurança aos avanços e efeitos do vírus eram atravessadas por um modo de governo da “ignorância, da irresponsabilidade e da má-fé”, como descreveu Carrara (2020: s/p).

Como sujeito social que experiencia as mesmas sensações emotivas que as demais pessoas, trago para reflexão uma situação vivenciada, entrelaçada ao meu dia-a-dia de isolamento e preocupação neste momento de prevenção contra o COVID-19. Ao prestar ajuda ao Caio, um dos interlocutores da minha pesquisa de doutoramento, tivemos oportunidade de refletir sobre questões relevantes ao cenário social referentes à categoria “grupos de risco”. Entendo esta experiência, como parte do fazer antropológico, estar inerente às vivências cotidianas sem, necessariamente, precisar estar em um campo delimitado geográfica e/ou temporalmente (FONSECA, 2017).

Na segunda semana de abril, fui surpreendido por uma série de mensagens de texto pelo aplicativo WhatsApp. O quantitativo somado no contato da pessoa – 41 mensagens não lidas – evidenciava a urgência de que fosse o mais rapidamente atendido e aventava a possibilidade de que algo pudesse ter acontecido. Ao abrir prontamente o perfil, pude verificar que se referia a uma série de menções a sintomas e à expressão de medo de que tivesse sido acometido pelo coronavírus. Por morar sozinho e distante de familiares, tendo a mim como uma pessoa “chegada”, decidiu por me solicitar ajuda. Importante destacar que moramos no interior do estado do Rio de Janeiro, onde existem poucas opções de escolha para unidades de saúde pública ou privadas e menor vigilância sobre a garantia de acesso a um pronto atendimento, pelas instituições responsáveis. Ele, com febre próxima aos 38ºC, dores no corpo e sintomas de gripe, desesperava-se, ao me informar que tem asma.

O acesso complexo a algum sistema de saúde, por meio da menor circulação de transporte público e da diminuição de atendimentos médicos não considerados visivelmente “graves”, fez com que decidíssemos por checar, mais racionalmente, que sintomas ele apresentava e as possibilidades de realização de alguma consulta. No âmbito privado, também operando de forma mais restrita, mas com maior possibilidade de acesso, por meio de pagamento, foram realizados a consulta e um exame de sangue, solicitado sob a suspeita de que os sintomas pudessem se tratar de Dengue, Chikungunya ou Zika. O resultado que sairia, em poucas horas, revelava a angústia sobre viver com HIV/Aids e ser acometido por uma nova doença viral, sob a qual só se reconhecia a maior propensão de letalidade em pessoas com alguma comorbidade, como lhe parecia ser o caso.

Devido à necessidade de poupar os gastos financeiros, decidimos por aguardar ali mesmo o resultado laboratorial, numa área reservada para esta finalidade, que, em razão do cenário pandêmico, estava totalmente esvaziada. Higienizamo-nos e fizemos uso de máscaras, passando a conversar questões que nos angustiavam, utilizando o tempo entre a coleta do sangue e o retorno ao consultório. Considero que este tempo de espera se revelou oportuno para reflexões que talvez não fossem estabelecidas fora desse contexto.

A categorização sobre “grupos de risco”, ainda presente no imaginário social da Aids, voltou a ser utilizada no contexto do COVID-19. A menção desta categoria, agora relacionada aos idosos e às pessoas com problemas respiratórios, reportada de forma “pouco preocupada” com estes sujeitos identificáveis, fez-nos problematizar sobre a permanência do estigma que ainda assola pessoas vivendo com HIV/Aids e seu possível alcance atual.

Para tanto, relativizamos o grupo de pessoas pertencentes a um contexto e outro. O primeiro, visibilizado entre as décadas de 1980 e 1990, referia-se a gays, a travestis, a profissionais do sexo e a hemofílicos. Atualmente, na segunda década dos anos 2000, essa categorização está sendo reutilizada, mas em referência a idosos e a portadores de doenças crônicas respiratórias. Quais são as permanências e as mudanças entre esses dois contextos?

Os estudos sobre HIV/Aids atentam que a utilização desta categoria, à época, denotava o estigma sobre os grupos referidos a ela. Contribuía, somada a este advento, para a manutenção da marginalização sobre a qual já lhes incidia, por meio de uma moral sexual. Não à toa que o movimento social, nos seus diversos segmentos e pautas relativas às experienciações sorológicas de Pessoas Vivendo e Convivendo com HIV/Aids, por meio de estratégias de ação política, demandou pela substituição deste conceito epidemiológico para o de “vulnerabilidade”.

Concordados sobre isso, nossa conversa se enveredou pela busca da compreensão sobre os efeitos desta categoria para o “novo” público. Não diferente da época, ainda que por meio de novas tecnologias de acusação, como memes e frases de efeito moral que viralizavam na internet, direcionam-se aos contemporâneos, principalmente em relação a suas condutas – por meio da ridicularização da autonomia da pessoa idosa, como uma ida ao supermercado ou a feitura do pagamento de uma conta, por exemplo –, sob modos de regulação moral.

Além disso, há que se mencionar as concepções errôneas e/ou mal-intencionadas que visavam, no contexto brasileiro, sobrepor a manutenção da economia à preservação das vidas dos trabalhadores. Nitidamente, denotava-se quais vidas são precárias (BUTLER, 2015). Por meio do senso comum, produziam-se narrativas que faziam acreditar que as pessoas estariam sendo prejudicadas. A saída pelo “direito a trabalhar” tomou conta das ruas – na medida em que sujeitos viam-se distantes do alvo do vírus e diferentes daqueles indicados como “grupos de risco”.

Não se está aqui questionando a necessidade do isolamento social, principalmente, por aqueles mais diretamente afetados pelo coronavírus. Nosso “aproveitamento” visava à reflexão na forma como tal conceito, ainda utilizado epidemiologicamente, (i) não favorece à mudança de comportamento social; mas, ao contrário, (ii) corrobora a manifestação de estigmatização, por meio do acionamento de novas e sofisticadas tecnologias. E, principalmente, (iii) pela diferenciação social, na criação de um “outro” não passível de “empatia”, apenas alguém a ser evitado.

O resultado do diagnóstico, por fim, informou apenas que ele já havia tido dengue, em algum momento anterior, e, portanto, a prescrição se resumia a fazer repouso absoluto e isolamento domiciliar. Ao retornarmos, ele confessou que, mesmo estando HIV indetectável – o que garante cientificamente o não adoecimento por aids – “dá sim um certo medo”, principalmente, por ser duplamente tido como “grupo de risco” e por estar vivenciando esta emoção, num cenário que despreza orientações de saúde, não tem projeção de governo e tampouco considera pessoas como ele, como alguém vivível.

Referências:

BUTLER, J. 2015. Quadros de Guerra, quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. CARRARA, S. L. As Ciências Sociais e a Saúde Coletiva frente a atual epidemia de ignorância, irresponsabilidade e má-fé. Boletim n.3 – Ciências Sociais e o coronavírus. Disponível em: http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2309-boletim-n-3-as-ciencias-sociais-e-a-saude-coletiva-frente-a-atual-epidemia-de-ignorancia-irresponsabilidade-e-ma-fe. FONSECA, C. 2017. Lá onde, cara pálida? Pensando as glórias e os limites do campo etnográfico. Revista Mundaú, n.2, p. 96-118.



Texto originalmente publicado na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

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