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v4a20| A sabedoria da pureza

Atualizado: Jul 30

Por Aline Ribeiro Nascimento. Pós-doutora em Psicologia Social (UERJ), doutora em Memória Social (UNIRIO), mestre em Psicologia (UFF).


Photo by Rod Long on Unsplash


Uma menina de 6 anos, chamada Luana, faz uma caverna embaixo da mesa durante a quarentena. Pede uma coberta grande para a mãe e também solicita que ela a jogue sobre a mesa para criar uma atmosfera de isolamento. Enquanto isso vai ao quarto e pega alguns objetos que lhe dão segurança. Um ursinho, uma joaninha, um travesseiro, uma pedra mágica que ganhou da avó, um caderninho de colorir e canetinhas, uma lanterna que ganhou do pai, uma máscara e álcool gel, além, é claro, de seu cachorrinho. Entra na caverna. Brinca ali construindo um mundo de sonhos e pesadelos que ela vai gerenciando, governando junto a inúmeros heterônimos que vão surgindo. Alguns abrigos, outros monstros. Fala com eles. Dá bronca, dá gargalhadas, diz para o ursinho Pum pum passar álcool gel quando lhe pede ajuda para levar o lixo na lixeira, lembra que precisa limpar as maçanetas, de usar a máscara e depois lavá-la. Diz para a joaninha Sofia ligar para a farmácia e pedir comprimido para adormecer, porque eles precisam sonhar e para não esquecer também de pedir mais álcool gel porque estava acabando. Dá bronca em Pum pum por ter esquecido de colocar a máscara ao sair para a aventura na lixeira e diz que já já chegará a entrega da farmácia e que ele precisa ter mais atenção. Pega a joaninha, simula que ela está voando e a coloca para dizer: Pum pum está com cara de pum. Os três, Pum pum, Sofia e Luana caem na gargalhada. Luana pega a pedra mágica, a levanta acima de sua cabeça e olha para ela, dizendo: Senhora pedra, proteja essa casa. Não deixe nenhum monstro entrar. Converse com suas amigas e peça para que fiquem todas juntas na minha porta. No mesmo instante, sua mãe está com a Tv ligada e o presidente chamado na casa de pandemônio, está dando um pronunciamento e os repórteres comentam os horrores de sua fala. Sua mãe diz: Fora pandemônio! Deixe-nos em paz! O cachorrinho chamado moleque que estava na caverna, de repente, sai correndo, atravessa o pano e Luana sai de seu universo para trazer o moleque de volta. Vê sua mãe olhando pela janela compenetrada. Não percebe que ela tinha os olhos cheios d’água. Mas, por estar ali parada e em silêncio, aquele estado de quietude chama mais a atenção da menina do que o moleque fujão. Ela olha o que a mãe olhava. Percebe que, do outro lado da rua, ao lado da ponte, na lateral do supermercado, havia uma escada que dava para a proximidade do telhado do supermercado e que começava a ser usada por alguém que, de forma improvisada, criava ali um espaço, um outro espaço. Havia um pano pendurado no corrimão da escada, havia uns tapumes de papelão que criavam uma porta e um telhado e uma parede para criar um isolamento embaixo da escada e, de repente, um homem saiu dali. A menina sorri e diz: olha, mãe, ele também fez uma caverna! Posso levar para ele uns brinquedos para lhe fazer companhia? Será que tem máscara e álcool gel? Olha mãe, saiu mais um moço. Mas aquele espaço não é pequeno demais para eles dois? Mãe, ele não saiu com máscara! Os olhos da mãe se encheram de lágrimas. Nesse momento, apareceram dois homens enormes que começaram a destruir aquele espaço improvisado. Luana foi tomada de pânico, correu para sua caverna, pegou sua pedra mágica e pediu: Senhora pedra, mãe de todas as pedras, murem essa caverna e não deixem esses homens maus assoprarem ela até ela cair. Mas a casa era de papelão, e se desmontou no chão. A mãe soluçava e a menina correu e pegou a joaninha Sofia, que disse: Calma, os moços vão voltar e conseguir a ajuda da mãe pedra que virá a noite, ela me sussurrou isso. Aí os homens maus não vão conseguir mais destruírem essa casa. A mãe abraçou a filha por um longo tempo. Luana foi para sua caverna, com Sofia e a senhora pedra e o moleque. Adormeceu e sonhou com a lua. Quando acordou, já era noite, ela pegou sua lanterna e foi para a janela. Viu, então, os moços refazendo sua caverna. Voltou para seu cantinho mágico e beijou a senhora pedra.


Outono, 22 de maio de 2020.



Foto: acervo pessoal da autora.



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