• antropoLÓGICAS

v3a31| Afecções virtuais e a lógica do mercado em tempos de Covid-19

Atualizado: Jul 30

Por Mário Fellipe Fernandes Vieira Vasconcelos. Doutorando em Sociologia. Mestre em Sociologia. Psicanalista em formação.



O sujeito fabricado pela COVID-19 não tem pele, é intocável, não tem mãos. Não troca bens físicos, nem troca moedas- paga com cartão de crédito. Não tem lábios nem língua. Não fala diretamente- deixa mensagem de voz. Não se reúne nem coletiviza. É indivíduo radicalmente. Não tem rosto- tem máscara. Seu corpo orgânico se oculta para poder existir por trás de uma série indefinida de mediações semiotécnicas, uma série de próteses cibernéticas que lhe servem de máscara: a máscara do e-mail, a máscara da conta no Instagram. Não é um agente físico, mas um consumidor digital, um teleprodutor, um código, um pixel, uma conta bancária, uma porta com um nome, um endereço ao qual a Amazon pode enviar seus pedidos (PRECIADO, 2020, p. 9).


Photo by Gilles LambertonUnsplash


Procuro com esse texto discorrer acerca dos estilos de vida analisados em um aplicativo de celular para encontros afetivos/sexuais entre homens. Esse app, como são chamados esses dispositivos que se encontram disponíveis para serem baixados nos smartphones, é um dos espaços que eu elegi para desenvolver analiticamente minhas questões de pesquisa sobre os estilos de vida que caracterizam o que conhecemos como sociedade contemporânea. O app funciona assim como uma espécie de quadro que nos permite enxergar como sujeitos produzidos pelo tempo presente constroem e colocam em disputa diferentes formas de vida profundamente sintonizadas com os valores que organizam a sociedade contemporânea. Esses valores centram-se em uma lógica individualista que produz um indivíduo radicalmente solipsista, “viciado em si mesmo” e reduzido a função de consumidor.


A necessidade de retomar o trabalho de campo emergiu em um momento pessoal marcado por uma grande incerteza coletiva e individual. Vivia-se no Brasil um momento da concretização de um projeto político neoliberal que se expressava no aumento do trabalho precarizado e no crescente índice de desemprego que, subjetivamente, produzia uma sensação de insegurança e perda de horizonte. Eu, como muitos brasileiros, vinha sendo afetado por essa modalidade de política centrada na absolutização do mercado. Mesmo com um alto nível de qualificação (duas graduações, mestrado e doutorado em andamento), sentia na pele os efeitos sociais e subjetivos da precarização. Esse cenário favoreceu o surgimento de uma lógica pautada no empreendedorismo onde, dada a ausência do Estado na implementação de políticas de bem estar social, as pessoas viam na adesão ao mercado informal a única alternativa para se manterem como indivíduos produtivos. Essa lógica social se disseminou pelas redes sociais digitais que, pouco a pouco, foram se tornando importantes plataformas de negócios, criando um novo tipo de relação comercial e porque não dizer de subjetividade.


Desde quando iniciei minhas primeiras observações em aplicativos de encontro para homens gays, percebi que havia no ar um clima de incerteza e insegurança muito grande por parte dos usuários acerca das relações que ali se constituíam. Quando questionados acerca do que os faziam permanecer nos aplicativos, a despeito das muitas queixas, muitos usuários devolviam respostas vagas e imprecisas. Diziam que não buscavam nada em específico, que estavam “de boa”, “vendo o que rola”. Embora outras pessoas explicitassem o que queriam em seus perfis, fui percebendo a partir da familiaridade com o espaço que essa indefinição acabava por criar um ambiente de insegurança nas relações com o outro, potencializada por uma atitude ansiosa de busca contínua fomentada pela lógica comercial dessas plataformas. O que me faz enxergar essas relações sobre o prisma da precarização é o fato de que elas instituem um novo estilo de vida entre as pessoas ausente de regras claras e definidas, onde o sucesso e o insucesso das relações são consequências direta das habilidades individuais desenvolvidas pelo usuário. A pesquisadora Larissa Pelúcio, em seu último livro Amor em tempos de aplicativos, apresenta-nos de forma sistemática em sua análise acerca das masculinidades heterossexuais nos Tinder, no Happn e no Adote um Cara como opera esse empreendedorismo afetivo nos circuitos digitais. Em nome de uma suposta liberdade individual, destituída de vínculos, cada indivíduo parece impor suas próprias regras, a despeito do desejo do outro da interação, que assume cada vez mais uma função acessória. O ambiente digital vem aprofundando e sofisticando esse tipo de relação onde o corpo aparece cada vez mais como um traço- uma imagem, um som, um movimento, uma palavra.


Retornei ao Scruff, aplicativo de encontros entre homens onde situo minha pesquisa de doutorado, no contexto de emergência do COVID-19 para saber como os usuários estavam se relacionando em um espaço que se propunha a ser um facilitador dos encontros em um contexto no qual esses homens não estão podendo se encontrar efetivamente. Criei um perfil de nome Sociólogo em campo e pus uma foto recém tirada em Barcelona. Na imagem, eu aparecia sentado, com roupas de frio e emitido um sorriso meio tímido. Era possível ver nas minhas costas a Igreja da Sagrada Família, monumento histórico da cidade. No meu perfil constava minha idade e uma descrição dos meus objetivos de pesquisa no aplicativo:


“Sou doutorando em Sociologia e estou desenvolvendo uma pesquisa em aplicativos para encontros entre homens. Meu interesse atual é compreender como os usuários desse app estão usando esse espaço para interagirem entre si e a natureza de suas interações, considerando o contexto de emergência do COVID-19. Quero deixar claro que a exposição do pesquisador no universo que ele pretende investigar e, sobretudo em um trabalho acadêmico na área de Ciências Humanas, é uma condição fundamental para que a pesquisa aconteça. Procuro pessoas interessadas em contribuir com o andamento da pesquisa sem desqualificar a pertinência do trabalho.

A crise atual do capitalismo deflagrada com o COVID-19 tem promovido uma ampliação das minhas questões de pesquisa que antes estavam centradas somente nas interações produzidas por esse espaço. Atualmente, estou tentando compreender a relação das interações produzidas nos aplicativos de encontros entre homens e o processo de precarização do trabalho. Será que estamos a vivenciar uma precarização no campo dos afetos? Meu interesse não é romantizar as relações entre homens antes dos apps, mas compreender seu surgimento e as mudanças que eles vêm promovendo nas formas de homens se relacionarem entre si e como essas novas formas de relação nos ajudam a compreender o contexto ultraneoliberal do capitalismo atual.”

Enquanto escrevia esse texto sentado na minha cadeira de trabalho e inquieto em compreender como os usuários do meu campo de pesquisa estavam lidando com o isolamento compulsório devido a rápida disseminação do COVID-19 no mundo, observava com atenção a interface do aplicativo, composta por uma variedade de perfis de homens que enchiam a tela do meu celular de peitos, músculos e pelos.

Entrei no aplicativo buscando compreender a partir da análise dos perfis e de conversas com alguns usuários como estavam interagindo em um período caracterizado pelo isolamento compulsório. Embora, antes da pandemia do COVID-19, já tivesse escutado de muitos usuários que o aplicativo era um espaço mais de pegação online do que de encontros presenciais, decidi retomar meu trabalho de campo nesse período a fim de investigar o que havia mudado na natureza das interações em um contexto de isolamento forçado. Iniciei uma análise dos perfis dos usuários a partir do conteúdo textual disponibilizado por eles na seção do perfil denominada O que procuro. Analisei cerca de 38 perfis, onde os usuários expunham motivações diversas que me deram pistas para compreender o que os mantinham no aplicativo e a descontruir as análises apressadas de quem afirmava que a maior parte dos usuários não sabiam muito bem o que queria. Fui percebendo, com o decorrer da análise, que esse compunha apenas um grupo de usuários.


O uso desenfreado de celulares e, consequentemente, de aplicativos que auxiliam na promoção de interações entre as pessoas é disparador de uma atitude a qual Preciado (2020) classifica de enclausuramento voluntário, acionada pelos indivíduos em um contexto de uma sociedade ultraneoliberal onde já não mais existe separação entre o espaço da produção e o da reprodução e onde o público e o privado se confundem. O filósofo, ao estudar a playboy como produtora de uma “silenciosa revolução micropolítica para além da transformação da pornografia heterossexual” (p. 11), mostra como ela “antecipou os discursos contemporâneos do teletrabalho e da produção imaterial” personificada no “novo operário multimídia” ligado às novas tecnologias da comunicação e que não precisa sair de casa para trabalhar nem para fazer sexo. O fundador e editor-chefe da mais famosa revista erótica do mundo, o empresário Hugh Hefner, chamou esse novo produtor social de “trabalhador horizontal”.


No Scruff, a partir da exibição do capital corporal dos usuários em seus perfis individuais e através do compartilhamento massivo de imagens pessoais, esses usuários fomentam um tipo de interação muito comum nos apps de encontros em que se verifica uma redução da alteridade no desenvolvimento do horizonte das interações afetivas/sexuais. O que se espera do outro é que ele funcione apenas como aquele que garantirá a manutenção de uma posição social de previlégio, conseguida à custa das constantes avaliações do grau de desejabilidade que os usuários acionam em suas fotos publicitárias e em seus textos enxutos e diretos. Esses usuários, que em geral imprimem em seus corpos os signos caraterísticos da masculinidade dominante, como músculos, pelos e que performatizam os ideais de discrição e virilidade largamente disseminados pela indústria pornográfica gay mainstream, são, em sua grande maioria, aqueles que expõem seus corpos ocultando seus rostos nas fotos dos perfis e que adotam uma linguagem mais imperativa na descrição dos mesmos: “SEM FOTO DE ROSTO SEM PAPO”. “Sejamos práticos, se eu não responder quer dizer que não tenho interesse, explicita Ativo! Sem foto sem papo!, em seu perfil.


Evidência do destaque dado a um tipo específico de público encontra-se na seção do app denominada Descobrir, onde os perfis dos usuários aparecem divididos nos seguintes grupos: “Global Crushs do mundo”, que mostra os perfis que eu, como usuário, poderia achar interessante; “Novos perfis pertos de você!” e “Os mais woffeados” que exibe os perfis de usuários do mundo todo que receberam mais woof, que é uma ferramenta utilizada para sinalizar interesse de um usuário por outro. Essa ferramenta criada pela plataforma e aperfeiçoada pelos usuários é um demonstrativo de como os interesses comerciais do aplicativo são modulados pelos códigos globalizados da internet e da indústria gay mainstream personificados em um perfil de homem gay: o branco, de classe média urbana, malhado e que exerce sua masculinidade por meio desapego , expresso na busca por sexo casual e sem compromisso. Como o sociólogo Machado Pais (2016) expõe em sua pesquisa em chats de encontros para casais heterossexuais, fui aprendendo que a sedução online implica ter dotes (p.179), exigindo uma expertise acionada pelos usuários em suas buscas. Seguem as pistas informadas pela experiência de campo do pesquisador (p.181):


-As conquistas são feitas com avanços e recuos estratégicos;

- As primeiras informações são importantes porque elas nos ajudam a definir a situação, facilitando a comunicação;

-Exploram–se, com pormenor, pistas identificatórias das personagens com quem se fala;

- Os primeiros contatos são frequentes os pedidos de rápidas descrições sobre aparência, caráter, modos de vida.


A cada vez que eu entrava no aplicativo, ficava aturdido com o fato de eu ter que interagir com várias pessoas ao mesmo tempo e que, em geral, não tinham muita paciência para aguardarem minhas respostas. A dificuldade de fazer um campo online encontra-se no volume de informações que são produzidas pelos usuários das redes e na rapidez com que as mesmas são atualizadas. Soma-se a isso, a dificuldade de desenvolver uma conversa com algum usuário realmente interessado em contribuir com a pesquisa. A maioria dos que entravam em contato comigo demonstrando interesse em colaborar, depois de trocar poucas palavras, desviavam o assunto, evidenciando o interesse deles pela pessoa do pesquisador e não na pesquisa. “Desculpa, mas vc é muito bonito. Fugindo um pouco do assunto rsrsrs. Você faz meu tipo. Inteligente, bom papo, barbudo. Idade boa e já tão dono de si. Sabendo exatamente o que quer. Uma pessoa altamente interessante.” ... “Desculpa, mas vc está solteiro?”. “Quer trocar whatsapp? Amigos já somos.”


Depois de um tempo de imersão nos apps e já tendo adotado posturas de diversas a fim de compreender a dinâmica do espaço, fui percebendo que o simples fato de estar lá já era algo visto com maus olhos por muitos usuários. A bem da verdade, poucos levavam a sério meus objetivos de pesquisa. Se eu adotasse uma postura distante me aconselhavam “relaxar” mais para conseguir colaboradores. Fiz um perfil durante um tempo sem foto em que eu me apresentava como pesquisador e falava sobre a pesquisa. Resultado: quase ninguém veio falar comigo. Já se eu adotasse uma postura considerada mais “relaxada”, como alguns me sugeriam, corria-se o risco comprometer os objetivos da pesquisa. Era um beco sem saída.


Depois de muita resistência, fui percebendo que era necessário eu me envolver com esses usuários, entrar no jogo de sedução deles, incorrendo o risco de não ser levado a sério com o objetivo de levar a cabo a pesquisa, pois como afirma também Machado Pais ( 2016 ) ,em sua pesquisa em chats de encontros ,é preciso se envolver para melhor entender. Tanto eu como os usuários embora assumíssemos posições diferentes no app, estávamos todos em certa medida imersos em um espaço profundamente desejante, onde por mais que o corpo não se faça presente “é reivindicado por meio de palavras, fotos, expressões, apelos e sugestões” (p. 197).


No tocante ao desejo em um espaço online para encontros entre homens o mesmo é mobilizado como se fossemos todos investidores que precisam constantemente investir e acumular ações (contatos). Os investidores emocionais não sabem muito bem o que fazer com suas “ações”, mas é importante tê-las para manter uma posição de prestígio. Não importa se é possível interagir com mais de dez pessoas ao mesmo tempo, mas é fundamental que essas interações sejam encetadas, incitadas por meio de uma lógica mercantil apropriada para o campo das intimidades, mesmo que isso custe estafa emocional e crises de ansiedade. Através das diversas insinuações do corpo dos usuários no aplicativo, a fantasia como elemento construtor de idealizações, é convocada no processo de construção do outro e do que imaginariamente se pode fazer com esse outro, em um espaço onde a falta de informação sobre o outro contribui com a idealização que é feita sobre este, retroalimentando uma tensão erótica gerada pela intenção do desejo (p.192).


Minha problemática de pesquisa atual é compreender a relação existente entre o processo de precarização do trabalho, marcado pela desregulamentação, com a constituição de afetos que tenho chamado de neoliberais, por se tratarem de vínculos centrados nas aspirações individuais e que não são orientados por regras precisas de interação. Essa lógica relacional é pautada em uma série de exigências que são dirigidas a um outro genérico sem, no entanto, oferecerem contrapartidas. Exigências que, em aplicativos para homens, vão desde a explicitação da self como condição para a continuidade das interações à obrigatoriedade da adoção de uma performance masculina discreta, o que revela a manutenção de uma lógica regulatória masculinista que orienta a maior parte dessas interações.


Centrando minhas observações nas páginas dos perfis dos usuários, precisamente na seção O que procuro, fui percebendo a existência de uma multiplicidade de motivações que justificavam ou orientavam de alguma maneira a permanência dos usuários no app. Embora alguns deles me afirmassem que o app era um espaço, somente, para sexo rápido e pegação, constatação que eu, em minha experiência como usuário, corroborava e desconfiava a um só tempo, fui percebendo, aos poucos, uma variedade de motivos que orientavam as buscas dos usuários. Nos textos disponíveis nos perfis, um usuário diz que procura fazer novas amizades, enquanto outro só explicita sua preferência: “Sarados, Nerds, Novinhos, Rapazes comuns”. Um outro perfil é mais direto: “Apenas curtição, nada sério!” Já outro mais específico: “Um cara atv versátil de conteúdo e atitude... que saiba o que quer e não exija o que não tem!... vamos tentar algo bom?” Os perfis dos usuários iam demonstrando uma pluralidade de interesses que são apresentados algumas vezes em linguagem imperativa: “Se não tiver foto, mande quando falar”. Há perfis também que buscam uma “boa companhia”, “relacionamento” ou até mesmo um “amor de verdade” capaz de “olhar nos olhos”. Há também um grupo de pessoas que não procuram nada em específico: “ainda não sei”. Há perfis que, em tempos de COVID-19, atualizaram suas buscas: “Que vc fique em casa! Nada de viçar, hein!??pfv!!! Depois vcs marcam até de reviver o “surubão de Noronha. E me convidem.”


O que me motivou a escrever esse texto foi a busca em compreender possíveis mudanças no meu campo partindo do contexto de emergência do COVID-19, que instituiu como medida preventiva de combate à disseminação do vírus na população mundial, o isolamento forçado da população. Logo, discorrer sobre a questão do isolamento me pareceu também uma via interessante de retomar a discussão sobre as interações entre homens, levando em consideração as queixas frequentes de alguns usuários que dizem que o app é um espaço onde “as pessoas só sabem enrolar”. Para muita gente que conversei ,os usos que a maioria dos usuários têm feito do app têm ido de encontro a finalidade do mesmo que é a de promover encontros entre homens.


O cenário do aplicativo não parecia ter sofrido grandes modificações. A plataforma introduziu na seção de eventos dicas de filmes e séries online para serem assistidas pelos usuários no período de quarentena bem como um festival online pago de shows de drag queens chamado Digital Drag Race. O aplicativo também disponibilizou uma seção chamada COVID-19 RECURSOS, onde traz diretrizes de saúde pública para os usuários do app.


Os aplicativos, em particular, e as redes sociais em geral, introduziram formas de interação social pautadas no isolamento corporal, onde cada indivíduo que possui um smartphone e uma rede social é instado ilusoriamente a acreditar que possui certo controle de suas relações. Esse efeito produzido pela disseminação em massa dos dispositivos móveis e pelo avanço considerável da tecnologia foi naturalizando uma atitude de isolamento social. Cada um de nós nos tornamos em certa medida produtores de conteúdo e trabalhadores em tempo integral a partir da inserção em massa dos celulares e dos efeitos que essa inserção produziu no campo do trabalho, dos relacionamentos, da política e da subjetividade.


A introdução dos smartphones na cultura aproximou tanto, a ponto de confundir, trabalho e lazer. Passamos a não saber diferenciar essas duas dimensões da vida humana, acabando por aceitar a condição de trabalhadores em tempo integral, sob a promessa de que nossa vida seria melhorada quando finalmente chegaríamos à posição de patrão. É inegável que as mudanças advindas da revolução informacional facilitaram em muitos aspectos as formas de nos relacionar, contudo também despistaram nossa atenção e nos ludibriaram em certa medida quando introduziram em atividades supostamente apenas de lazer uma dimensão comercial. Sob a promessa de nos tornarmos patrões, empreendedores de si, oferecemos aos donos dos meios de produção gratuitamente o nosso tempo, a nossa imagem, os nossos afetos, enquanto nos divertimos com as míseras moedas que contamos em cada like que recebemos.


Pensando os aplicativos como um mercado que organiza suas transações a partir de um modelo econômico neoliberal vigente na sociedade contemporânea, podemos dizer que tanto a interface é construída ressaltando uma forma de uso que está em consonância com o modelo econômico vigente, como os usuários, a partir de diferentes apropriações, vão conferindo sentidos diversos à plataforma, aprimorando o modo de funcionamento do app. Trata-se de um negócio perfeito: os próprios usuários não remunerados vão contribuindo para o aperfeiçoamento de um modelo de negócio, garantindo, assim, o aprimoramento e a lucratividade da empresa. Como exemplo desses usuários que personificam esse novo perfil de trabalhador está a figura do embaixador que é uma espécie de “funcionário” da empresa que trabalha sem remuneração fazendo a mediação entre os usuários e gestores da mesma. Eles fazem o trabalho de divulgar os eventos que acontecem em sua localidade, mediando a relação entre usuários e gestores da plataforma. A funcionalidade permite que os viajantes se conectem através do aplicativo antes mesmo de chegar em um destino. A ideia é conectar o viajante gay com pessoas dos lugares para onde eles viajam, as Bis locais. Elas podem trazer informações super frescas dos eventos que vão rolar.”


A atitude de recusa por parte de algumas pessoas perante à política de isolamento social pode ser comparada ao desejo, pensado aqui a partir de uma perspectiva psicanalítica, como algo que as pessoas sentem e que, por motivações diversas, procuram negar, dada a insuportabilidade de se conviver com algo desconhecido e que foge ao nosso suposto controle. O número de mortes de pessoas com a COVID-19 no mundo é uma prova cabal da crise sanitária global que estamos atravessando. Negar essa realidade tem a ver com a forma como nós fomos educados enquanto indivíduos e sociedade, onde a prerrogativa da liberdade de ir e vir passa a ser mobilizada a partir de interesses individuais como se cada um vivesse isolado, em uma bolha, desconsiderando o fato de que vivemos em relação ao outro por seres sociais e que isolar-se (para quem pode), configura-se, nesse momento, em uma atitude preventiva que leva em consideração a existência do outro, que considera o outro como fazendo parte do nosso horizonte de possibilidades. Segundo o psicanalista Cristian Dunker, a crise do coronavírus poderá ensejar questionamentos sobre o sistema capitalista e a possibilidade de seu reordenamento”, marcado pelo fortalecimento das políticas de bem-estar social, levando a uma revisão dos valores neoliberais. Se essa mudança for levada a cabo, podemos vislumbrar uma modificação na constituição dos laços sociais. Ainda não sabemos quais os destinos civilizatórios que resultarão dessa crise. O que tenho visto é que nos aplicativos, como fora dele, coexistem tanto pessoas que aderiram ao isolamento quanto outras que, minimizando seus efeitos, seguem suas vidas adotando os mesmos modelos de outrora. Quando atitudes neoliberais modulam nossa consciência, temos a tendência em confundir pessoas com objetos, colocando os interesses do mercado acima das necessidades sociais. A pressa por interações rápidas, a lógica acumulativa dos contatos e das trocas de imagens e mensagens bem como a minimização dos efeitos de uma crise planetária em função de interesses individuais pode ser comparado, em escala menor, a mesma pressa que os empresários e que o mercado financeiro têm para que a economia volte a circular mesmo que isso custe sacrificar vidas humanas.


REFERÊNCIAS

DUNKER, Christian. Corona vírus levará a revisão de valores neoliberais. Texto publicado na coluna Planeta azul do portal Rede Brasil Atual, em 30/03/2020.

PAIS, Machado. Nos rastos da solidão: deambulações sociológicas. Porto, Âmbar, 2016.

PRECIADO, Paul. Aprendendo com o vírus. Texto publicado no Jornal El País, em 28/03/2020.

219 visualizações

© 2023 por Design para Vida.

Criado orgulhosamente com Wix.com

CONTRA A PORTARIA 34 E AS MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES