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v3a38| Afinal, qual o sentido da metrópole em tempos de epidemias?

Atualizado: Jul 30

Por Marina Bordin Barbosa. Mestranda em Antropologia Social na UFRGS.

Photo by sergio souza on Unsplash


Em um domingo de quarentena, dia 26 de abril, assistindo as notícias no programa Fantástico, me deparei com uma reportagem sobre um casal de mulheres que haviam abdicado de seu apartamento alugado em Nova Iorque para viverem em uma cidade no interior. Visto que, com o início da quarentena, sem poder desfrutar das vantagens da metrópole, não haviam motivos para ficar em um apartamento pequeno em uma cidade cujos aluguéis possuem uma média de custos de 20 mil reais.

A reportagem me chamou a atenção porque há semanas vinha pensando em como as minhas áreas de estudos, no caso a Antropologia Urbana e Patrimônio Histórico, se inserem nesse contexto atual de epidemia do Covid19. Evidente que a disciplina tem diversas interfaces nesse contexto, mas pensei a partir da minha vivência atual, em um apartamento de fundos no meio da selva de pedra do Centro Histórico de Porto Alegre, com pouca luz natural e sem vista para a rua, ainda que privilegiado de poder seguir em quarentena.

Em diferentes momentos da história, epidemias interferiram nos meios de viver o espaço urbano. Não foram poucas as vezes nos quais elas foram motivos para justificar intervenções de infraestrutura social urbana, como a higienização do Centro Histórico do Rio de Janeiro durante o surto de Febre Amarela, no qual o prefeito Pereira Passos botou abaixo prédios, casebres e cortiços afim de se modernizar a cidade (SEGATA, 2016). Higienizar era sinônimo de construir grandes avenidas para circular os ventos e diminuir a concentração de indivíduos por metro quadrado.

A Gripe Espanhola, moléstia frequentemente associada ao momento no qual estamos vivendo, também alterou a estética comum das cidades em que há fluxo intenso de pessoas pelas ruas. A quarentena durante a Gripe Espanhola, ainda que não tenha sido formalmente imposta como lei, como tem acontecido agora, causou um esvaziamento natural dos centros urbanos. Houve um êxodo para fora de metrópole de muitas famílias que viviam nas grandes cidades. O Centro de Porto Alegre, como o de muitas capitais, foi deixado às traças, sem comércio ou pedestres nas ruas (ALVES, 2007).

O anonimato e o estranhamento, frequentemente caracterizados por Simmel (1979) para definir a vida nas grandes metrópoles, se acentua perante a um vírus invisível. O Centro Histórico, como o próprio nome corresponde, associa-se ao perímetro urbano mais antigo da cidade, onde a maior parte das construções são antigas e, portanto, frequentemente associado às impurezas. A própria a ideia de “velho” contrapõe-se ao novo, higienizado, esterilizado. Zonas aglomeradas, construções antigas e favelas costumam ser denunciadas em tempos de epidemias.


O italiano Giorgio Lombardi (1991), ao refletir sobre os centros históricos considerados patrimônio da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), traz uma distinção entre as construções urbanas de diferentes épocas. Durante o Império Romano, o sistema de construções de moradas era baseado na ordem e na hierarquia, e no qual a vida era para ser vivida no interior das residências, que contavam com pátios internos. Foi a partir das invasões bárbaras, povos nômades que possuíam um sistema político mais igualitário e democrático, trouxeram a ideia de que a vida coletiva se vive nas ruas, no espaço público. A casa era apenas para dormir. Essa ideologia não hierarquizada refletiu nas construções urbanas a partir de divisórias e compartimentos criados no interior das antigas grandes residências. O “embelezamento” das casas, da mesma forma, era voltado para a fachada das casas, e não para os seus interiores. É esse esqueleto urbano das fachadas das casas que têm sido considerado patrimônio em cidades como Ouro Preto e Paraty.


Durante à Idade Média, período marcado pela Peste Negra, as elites feudais buscaram o conforto e a segurança em castelos no campo, longe das cidades. Logo surgiram as novas elites urbanas, buscando meios de diferenciação nas suas moradas. O Renascimento foi marcado pela volta da casa latina, voltada para os interiores e pátios internos. É nesse período que o estilo gótico trazido pelas invasões bárbaras e as construções latinas do império romano passam a se sobrepor nas cidades (LOMBARDI, 1991).


A cidade moderna rompeu com esses dois modelos arquitetônicos tradicionais e, desde então, passou a se pensar em cidade como um conjunto de habitações individuais diferentes entre si, sem um modelo comum. Esse período da modernidade que abrange boa parte do século XX, cujo êxodo para as grandes cidades é um episódio registrado em todos os livros de história, foi também um período de grandes epidemias, como essas anteriormente comentadas.


Um dos registros marcantes em relação a políticas de saúde que influenciaram políticas urbanas, de que tenho conhecimento, ocorreu durante o período da ditadura de Getúlio Vargas (1930-1945). As “cidades hospitais” ou “hospitais colônias”, como eram chamadas, foram criadas em boa parte das regiões metropolitanas das capitais do Brasil em função do surto de Hanseníase. A doença, associada a más condições de saneamento e desnutrição, levou a uma busca de soluções físico/espaciais para problemas sanitários (AMORA, 2009).


Essas cidades hospitais foram projetadas a partir de um modelo criado pelo médico Erniani Agrícola, inspirado no modelo utópico de cidade renascentista, perfeito, isolado, próximos à natureza, longe dos centros urbanos industriais doentes e sujos. Os indivíduos identificados com a doença eram prontamente retirados de suas casas e levados para as colônias, que contavam com moradas, hospitais, igrejas e espaços de socialização dentro dos muros das colônias. Uma solução cirúrgica aplicada a um problema sanitário (AMORA, 2009).


Essas ondas epidêmicas tem em comum um emblema da sociedade brasileira: a desigualdade. As populações mais vulneráveis são sempre as mais castigadas pelas epidemias, seja pela falta de saneamento, pela fome, pelos transportes públicos lotados, e pelos cortes de investimentos em saúde e educação. Problemas que poderiam, talvez, ser amenizados por meio do trabalho conjunto dos órgãos públicos, privados, universidades e organismos de coletividade internacional, estes últimos frequentemente rechaçados por aqueles que não querem ver que não há muros de condomínios fechados ou fronteiras internacionais que os isolem dos problemas coletivos.


Coletividade e sociabilidade são conceitos frequentemente utilizados para caracterizar o viver urbano. Cinemas, cafés, museus, bares, teatros, parques e centros comerciais diferenciam o modo de vida nas metrópoles das zonas rurais. Desfrutar da metrópole permite desfrutar ainda mais do cosmopolitismo, que para Gilberto Velho (2010) significa desempenhar o papel de mediador: um interprete e um reinventor da cultura, como exercem os livros, os museus e instituições culturais e educacionais. Menos associado à uma ideia de senso comum, hierárquica, de cosmopolitismo como privilégios de viajar e conhecer, e mais ao aprofundamento da experiência de democracia, cidadania e diversidade.


Enquanto permeio essas questões que levam ao tema da alteridade como uma forma de experienciar o viver urbano, sigo em um pequeno apartamento no Centro Histórico em uma jornada etnográfica “da e na casa”, em contraponto ao “da e na cidade” das autoras Cornelia Eckert e Ana Luiza Carvalho da Rocha (2013), em devaneios de um dia retomarmos nossas saídas de campo e vivências compartilhadas pela cidade.



Referências:


AMORA, Ana Albano. Utopia ao avesso nas cidades muradas da hanseníase: apontamentos para a documentação arquitetônica e urbanística das colônias de leprosos no Brasil. Cadernos de História da Ciência, v. 5, n. 1, p. 23-53, 2009.


LOMBARDI, Giorgio. A cidade histórica como suporte da memória. In: Congresso Internacional Patrimônio Histórico e Cidadania. 1992.


ROCHA, A. L. C. ; ECKERT, Cornelia . Antropologia na e da cidade: interpretações sobre as formas de vida urbana. 1a. ed. Porto Alegre: Marcavisual, 2013.


SEGATA, Jean. A doença socialista e o mosquito dos pobres. Iluminuras, v. 17, n. 42, 2016.


SIMMEL, Georg et al. A metrópole e a vida mental. O fenômeno urbano, v. 4, p. 11-25, 1979.


VELHO, Gilberto. Metrópole, cosmopolitismo e mediação. Horizontes Antropológicos, v. 16, n. 33, p. 15-23, 2010.

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