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v3a18| Arquivos em suspenso

Atualizado: Jul 30

Por Luiza Ferreira Lima. Doutorandx em Antropologia Social na Universidade de São Paulo (USP).


Foto: Luiza Ferreira Lima, arquivo pessoal. Publicada pela Revista Pesquisa Fapesp em: https://revistapesquisa.fapesp.br/2020/04/30/a-maioria-dos-moradores-retirados-do-meu-predio-era-de-chineses-e-coreanos-e-as-fronteiras-com-esses-paises-ja-estavam-fechadas/


Eu estudo, em perspectiva comparada, processos de subjetivação e suas implicações estéticas e políticas em biografias e autobiografias de pessoas trans publicadas no Brasil e Estados Unidos. Em maio do ano passado, com uma bolsa de estágio de pesquisa no exterior fornecida pela FAPESP, iniciei meu doutorado sanduíche na Universidade da Pensilvânia (Filadélfia - Estados Unidos). O estágio estava previsto para durar até o fim de abril de 2020.


Lá, durante estes meses, estava pesquisando os condicionantes socio-históricos que marcaram ao longo das décadas a publicação de autobiografias de pessoas trans e seus impactos na sociedade a partir de análise da historiografia trans e da recepção das obras pela imprensa. Minha ideia era mapear arquivos da costa leste – em especial os da Biblioteca Pública de Nova York [NYPL], que reúne um acervo robusto de periódicos LGBTQIA+. Diferentemente de pesquisadores que trabalham com a temática LGBTQIA+ e usualmente realizam pesquisa de campo, minha investigação se baseia eminentemente em fontes documentais.


Como forma de organização do campo, tenho dividido a história de publicação de biografias e autobiografias de pessoas trans em três fases. Nos Estados Unidos, a primeira teve início em 1967, com a publicação da autobiografia de Christine Jorgensen [1926-1989]. Ela iniciou o processo popularmente conhecido como de mudança de sexo em 1952, e um vazamento de sua história para a imprensa norte-americana desencadeou intenso debate público sobre sentidos de sexo, limites e possibilidades da ciência médica e padrões de gênero. A segunda fase da publicação desses livros começa na década de 1990, bastante afetada pela luta por direitos civis empreendida pelo movimento negro, pela segunda onda do feminismo, e pela emergência do que hoje se entende como movimento LGBTQIA+ - bem como todas as suas tensões. Já a terceira onda começa em 2010 e prossegue até hoje, marcada por uma inédita visibilidade de pessoas trans na mídia e na indústria cultural, pela consolidação do campo de estudos trans na academia e pela crescente reivindicação e conquista de voz e em disputas políticas. Quando tive de sair às pressas dos Estados Unidos, estava mapeando as obras da segunda fase e começaria a pesquisa para entender como se deu a recepção dessas obras na imprensa norte-americana.


O avanço da epidemia aconteceu com uma rapidez assustadora. No dia 8 de março, agendei minha primeira visita ao arquivo da NYPL para o final de semana. Tinha conversado com um amigo doutorando na Universidade Columbia alguns dias antes e ele me falou sobre a preocupação que se espalhava pela cidade.


As pessoas estavam cumprindo o isolamento social como podiam, mas não havia nada mais além disso. Na véspera da minha viagem, o mesmo amigo me mandou uma mensagem, assustado, recomendando vigorosamente que eu não saísse da Filadélfia de modo algum. Isso me pegou de surpresa. No mesmo dia, recebi mensagens da UPenn. Os alunos de graduação estavam em spring break (recesso de primavera) de uma semana e a universidade dizia para não voltarem ao campus. Também orientava os estudantes que estivessem na Universidade a não realizar viagens e, se o fizessem, não voltar à moradia estudantil. Como vivia em um prédio para alunos de pós-graduação e pesquisadores visitantes estrangeiros, entrei em contato com o arquivo da NYPL e me desculpei, pedindo o adiamento da visita. Me surpreendi ainda mais quando a funcionária me respondeu afirmando ser essa a melhor decisão a se tomar, já que a biblioteca havia decidido, de última hora, fechar as portas para o público naquele fim de semana mesmo por período indefinido.

A partir daí, as mensagens da UPenn passaram a ficar cada vez mais alarmantes. Inicialmente pediam a residentes de moradia estudantil para voltarem a seus respectivos estados e países de origem. Depois, passaram a enviar mensagens dizendo que os alunos de graduação precisariam necessariamente deixar o campus– a menos que não tivessem condições financeiras de fazê-lo. Aos alunos de pós-graduação e pesquisadores visitantes recomendaram que estocássemos alimentos e evitássemos sair do prédio. A situação se agravou quando, em 17 de março, recebi um e-mail informando que eu precisaria deixar o prédio em três dias, porque ele seria fechado.

Entrei em contato com minha orientadora, Silvana Nascimento, do Departamento de Antropologia da USP, para discutir a situação – ela mesma estava realizando pesquisa na Espanha e em situação muito similar de medo e incerteza quanto à possibilidade de prosseguimento de seu prosseguimento no contexto de uma pandemia ainda difícil de entender. Precisei encontrar formas de entregar a uma amiga que ainda estava na cidade os livros que havia emprestado de bibliotecas. Tratei também de distribuir, entre conhecidos, os alimentos que havia comprado para as duas semanas de isolamento e me vi obrigada a arrumar malas e encontrar um voo de volta para o Brasil com uma urgência que nunca havia enfrentado antes na vida. Alguns estudantes estrangeiros do meu prédio não tinham para onde ir e estavam desesperados. Comprei minha passagem para 18 de março e cheguei em São Paulo um dia antes da suspensão de serviços não essenciais na cidade – o que também trouxe um certo senso de urgência em organizar o mínimo necessário para entrar em quarentena aqui e conseguir trabalhar.


A expansão da Covid-19 na costa leste dos Estados Unidos foi tão rápida e, de certa forma, imprevisível, que ainda não consegui estabelecer um plano de reorganização do cronograma dessa etapa final da pesquisa. Quando a UPenn comunicou que seu serviço de bibliotecas seria suspenso até 31 de março, fui à biblioteca central e emprestei livros, para ter material de trabalho até a data de reabertura – que, pensei, não demoraria muito. Então, eventos e reuniões de grupos de pesquisa começaram a ser cancelados. Imaginei tratar-se de medida preventiva, nada além disso. Não poderia supor que em pouquíssimos dias o semestre inteiro seria cancelado e o campus ficaria vazio. Tampouco imaginei que certas etapas de minha investigação não seriam adiadas, mas inteiramente inviabilizadas.


Um aspecto fundamental da pesquisa, a recepção das obras norte-americanas na imprensa, foi prejudicado. A funcionária do arquivo da NYPL tinha me comunicado que alguns jornais poderiam ser acessados virtualmente, mas minha pesquisa previa também consultas a periódicos antigos, dos anos 1960, 1970 e 1980, e uma boa parte desse material não está digitalizada. Ademais, edições antigas de jornais da grande imprensa, como The New York Times ou Washington Post, estão disponíveis on-line e poderão ser acessadas do Brasil; mas a NYPL tem um acervo imenso de periódicos LGBTQIA+ do país que alcança desde publicações da década de 1940 que não conseguirei pesquisar. Um trabalho é analisar a repercussão das biografias e autobiografias de pessoas trans na grande imprensa e outro é entender como elas foram recebidas na própria comunidade LGBTQIA+. Fico triste em saber que essa última parte não poderá ser feita, que esse fragmento da história da literatura trans não poderá ser visibilizado na tese.


Perdi um mês e meio que seria dedicado a essa coleta de documentos e à escrita da tese, que preciso depositar até junho de 2021. Mas é inegável que estou em situação privilegiada: já estava na fase final do sanduíche, diferentemente daqueles que haviam acabado de chegar nas instituições estrangeiras em que realizariam estágio e talvez nem sequer tenham tido a chance de começar suas pesquisas. Mesmo sem suporte institucional algum da UPenn (em verdade, sob sua ordem de despejo), com a reserva técnica da bolsa da FAPESP pude arcar com os custos de uma passagem aérea de última hora. Os voos para o Brasil ainda não haviam sido severamente limitados. Fico pensando o que pode ter ocorrido com os demais moradores do meu prédio. Eles eram, em sua imensa maioria, chineses e sul-coreanos, e Donald Trump já havia decretado o fechamento de fronteiras para voos com destino à China, Coreia do Sul e Irã.



Depoimento originalmente concedido a Christina Queiroz para a Revista Pesquisa Fapesp - publicado em: https://revistapesquisa.fapesp.br/2020/04/30/a-maioria-dos-moradores-retirados-do-meu-predio-era-de-chineses-e-coreanos-e-as-fronteiras-com-esses-paises-ja-estavam-fechadas/

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