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v5a21| As mulheres negras e a pandemia do coronavírus

Atualizado: Jul 30

Por Viviane Gonçalves Freitas. Pós-doutora em Ciência Política (UFMG), doutora em Ciência Política (UnB) e integrante da Rede de Pesquisas em Feminismos e Política e do Margem – Grupo de Pesquisa em Democracia e Justiça.


Foto: Simone Freire e Pedro Borges - Yahoo! Notícias. Disponível em aqui


No dia 11 de março, a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou a pandemia do novo coronavírus. Onze dias depois, a primeira mulher vítima da Covid-19 morria no Brasil: era uma trabalhadora doméstica, de 63 anos, negra, hipertensa, diabética, trabalhava no Leblon e morava em Miguel Pereira, no Rio de Janeiro. A quarentena para toda a população carioca foi decretada pelo prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) no mesmo dia e começaria a valer na terça-feira seguinte, 24 de março. Naquele momento, havia a informação de que os casos de contágio notificados no país ainda eram importados e os viajantes deveriam ficar em quarentena, mas Cleonice Gonçalves estava cozinhando na casa da empregadora, quando esta retornou da Itália, trazendo na bagagem muito mais do que boas recordações da viagem. Infelizmente, este não é um caso isolado e se repetiu em vários noticiários, a ponto de muitos acreditarem que a Covid-19 fosse apenas uma “doença de ricos, que viajaram para o exterior”. 

A pandemia do novo coronavírus, com desigualdades ressaltadas e privilégios escancarados, pode ser mais uma das diversas concretizações para o conceito de necropolítica, do teórico político camaronês Achille Mbembe. Necropolítica seria a reverberação de tomadas de decisão sobre a soberania da morte, de decidir quem deve viver e quem pode morrer; sendo a morte a condição de invisibilidade, de negação, de não-existência.

Com as recomendações para isolamento social em vigor, as desigualdades de raça, classe e gênero apresentaram-se gritantemente diante de nós. Quem pode fazer home office? Quem pode comprar o básico que seja para se manter em meio a uma crise econômica que se aprofunda a cada dia? Quem pode seguir as regras de higienização constantes com água e sabão, uso de álcool gel e distanciamento dentro e entre moradias? Quem consegue atendimento adequado e a tempo de evitar uma piora no quadro ou até a morte? A quem cabe a maior parcela dos cuidados com a casa e com idosos e crianças em meio à pandemia?

Entre as atividades com maior concentração de mulheres no Brasil, o trabalho doméstico é uma das mais significativas. As mulheres representam 90% dos mais de 6 milhões de indivíduos nessa atividade, sendo que 60% são negras. A ausência de direitos básicos para muitas trabalhadoras informais é uma constante no cotidiano daquelas que dependem do transporte público para chegar às casas e às empresas onde fazem as faxinas e recebem pelo dia de serviço. Muitas vezes consideradas invisíveis, sua falta é sentida quando roupas se acumulam sem lavar ou passar, a comida não está pronta na geladeira, a criança atrapalha uma reunião de trabalho ou a poeira é percebida na estante da sala. Também é importante destacar que muitas das trabalhadoras domésticas, em meio à atual situação, estão voltando a pernoitar nos empregos, o que coloca em risco os vários direitos adquiridos com a PEC das Domésticas (Lei Complementar 150/2015).

Somente depois de 15 semanas de boletins epidemiológicos diários, o Ministério da Saúde, ainda sob a gestão de Luiz Henrique Mandetta (DEM), divulgou, pela primeira vez, dados quanto ao número de pessoas infectadas e mortas pela Covid-19, com a identificação de raça/cor. Segundo as informações apresentadas no dia 10 de abril, pretas/os e pardas/os representavam 23,1% das internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por Covid-19 e 32,8% dos óbitos registrados em razão da doença. Já entre a população branca, os percentuais ficaram em 73,9%, para hospitalizações, e 64,5% de óbitos. Especialistas ressaltaram à época que ainda havia muita influência da primeira onda de contaminação, quando os casos eram, em sua maioria, de pessoas que voltavam de viagens ao exterior, além da possibilidade de subnotificação, já que algumas cidades e estados estavam submetendo aos testes, na rede pública, apenas os casos mais graves. É importante destacar também que tais informações excluíam quase 2 mil casos de hospitalizações e cerca de 340 óbitos, cuja variável raça/cor não havia sido informada.

Dois meses após estes primeiros dados, o Ministério da Saúde, na ocasião coordenado por Nelson Teich, divulgou, no dia 8 de maio, que as hospitalizações em decorrência de SRAG por Covid-19 apresentavam os seguintes percentuais, segundo raça/cor: brancas/os (54,7%), pardas/os (36,3%) e pretas/os (6,8%), excluindo-se aproximadamente 10,4 mil casos cuja variável raça/cor foi ignorada. Quanto aos óbitos, 47,7% são brancas/os; 42,7%, pretas/os e 7,4%, pardas/os, também com a ressalva de que em quase 2,9 mil óbitos a variável raça/cor foi ignorada, sendo, portanto, excluídos da análise.

Como ainda não há evidências científicas de que a mortalidade em razão da infecção por Covid-19 estaria associada à raça/cor, especialistas acreditam que outros fatores vinculados a desigualdades socioeconômicas e raciais, como falta de saneamento básico, condições precárias de moradia e alimentação deficiente, poderiam agravar a letalidade entre a população negra. O menor acesso ao tratamento e a maior incidência de comorbidades (hipertensão, diabetes, tuberculose, entre outras) poderiam contribuir significativamente para isso.


Tais dados apenas foram compilados e divulgados dessa maneira porque a Coalizão Negra por Direitos, composta por 150 entidades representativas do movimento negro e das periferias brasileiras, e o Grupo de Trabalho de Saúde da População Negra da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) protocolaram pedidos junto ao Ministério da Saúde e às secretarias estaduais de Saúde para que as informações fossem desmembradas por etnia, raça, gênero e território (cidade e bairro). O objetivo era traçar um perfil das pessoas mais atingidas e poder cobrar políticas públicas que as contemplem de fato. Segundo o Ministério da Saúde, quase 80% dos usuários do SUS são negras/os. 

Mais uma vez, a Covid-19 nos lembra de que as desigualdades se reeditam em volta do mundo. Em Nova York, a cidade epicentro da doença nos Estados Unidos, um levantamento realizado no início de abril apontava que o novo coronavírus era duas vezes mais letal entre a população latina e negra do que entre brancas/os. Para o prefeito da cidade, Bill de Blasio, a disparidade refletia as longínquas e persistentes desigualdades econômicas e as diferenças de acesso à saúde. Outro exemplo estadunidense: em Louisiana, um dos estados mais atingidos, em 9 de abril, 70% dos mortos eram negros/as, mesmo essa parcela da população representando um terço dos habitantes do estado.

Em todo continente africano, segundo a Universidade Johns Hopkins e OMS, até o dia 8 de abril, havia 10.655 casos registrados de contaminação e 532 mortes, não se descartando a possibilidade de subnotificação. Em uma semana, os casos confirmados de Covid-19 mais que dobraram (em 30/03, eram 4.718 contaminações) e quase quadruplicou o número de mortos (em 30/03, 152 mortos). A título de comparação, após o primeiro mês, a Itália contabilizava 1.694 casos confirmados e 29 mortes; no Brasil, os números chegaram a 1.468 infectados e quatro mortes, nos primeiros trinta dias. Em estudo divulgado pela OMS, um mês depois (07/05), se as medidas de confinamento fracassarem nos 47 países do continente africano contemplados pela pesquisa, de 83 mil a 190 mil pessoas podem morrer de Covid-19, e entre 29 milhões e 44 milhões podem ser infectadas durante o primeiro ano da pandemia.

Links para as referências:

48% dos casos de Covid-19 no primeiro mês da doença no Brasil foram entre pessoas de 20 a 39 anos, aponta pesquisa

1 mês de coronavírus no Brasil: compare a situação do país com China, Itália, EUA e Coreia do Sul no mesmo período da epidemia

África tem mais de 500 mortos por coronavírus, alerta OMS

Boletim Epidemiológico Diário – Coronavírus COVID-19, 10 de abril

Boletim Epidemiológico Especial 15 – COE-COVID-19 – Semana Epidemiológica 19 (03 a 09/05)

Coronavírus e as desigualdades de raça e classe

Coronavírus é mais letal entre negros no Brasil, apontam dados do Ministério da Saúde

Coronavírus: 92% das mães nas favelas dizem que faltará comida após um mês de isolamento aponta pesquisa

Covid-19: Depois de internados, negros têm mais chance de morrer do que brancos

Movimento negro pede que governo informe raça e gênero de mortos e infectados por coronavírus

Necropolítica, Achille Mbembe

Negros, com menos acesso à Saúde, são maioria dos infectados e mortos nos EUA

OMS prevê até 190.000 mortes por COVID-19 na África em um ano

Trabalhadoras domésticas fazem campanha por direitos durante a pandemia Covid-19 e articulam apoio da cooperação internacional

Trabalho Doméstico – Organização Internacional do Trabalho

'Uma pessoa muito batalhadora', diz sobrinho de empregada doméstica que morreu de coronavírus

Virus is twice as deadly for black and latino people than whites in N.Y.C.



Texto originalmente publicado na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

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