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v2a44| As perguntas são mais importantes do que as respostas

Atualizado: Jul 29

Por Stephanie Caroline Ferreira de Lima. Cientista social, doutoranda e mestre em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará – UFC. E-mail: stephaniecarolinelima@hotmail.com


Photo byEvan DennisonUnsplash


“Desejo que você continue aprendendo a perguntar, que é mais importante do que responder.” Eis a primeira frase que leio sempre que abro o livro A Garota das Laranjas, de Jostein Gaarder. Apesar disso, vocês não encontrarão esta frase no livro impresso, porque foi parte da dedicatória escrita pelo meu pai, para o livro que ganhei de presente aos 10 anos. Na época meu pai ainda fazia seu doutorado e sobrevivíamos com o que ele recebia da bolsa de pesquisa, sempre incerta em sua continuidade. Não existia dinheiro para que pudéssemos consumir muitas coisas e raramente conseguíamos sair de casa para passear. A dedicatória do livro reforçava minha insistência na produção de perguntas, que eram sempre respondidas por ele com outras. Perguntas sempre fizeram parte do meu dia a dia.


Desde o início da pandemia, uma delas tem sido recorrente e me atormentado: os diferentes efeitos da pandemia fomentarão a reflexão da sociedade brasileira e ensinará que sua forma de racionalidade capitalista instrumental não é sustentável? Claro que essa é uma daquelas perguntas sugestivas, cheias de ideias entranhadas implicitamente. Uma pergunta que me sugeriu escrever sobre sua complexidade, a proposição de um novo modo de pensar, a partir do que sabemos sobre a sociedade brasileira, elaborando uma abstração poética imaginativa em torno de tantas questões políticas, sociais e econômicas com as quais nos deparamos ao longo destes anos.


Tenho compartilhado, com colegas do grupo de pesquisa[1] que faço parte e têm se reunido semanalmente durante a pandemia, por videoconferência, nossa esperança de uma sociedade que priorize as múltiplas formas de vida e de existência de uma maneira que redirecionasse as prioridades sociopolíticas e de consumo atuais. Trata-se de uma esperança misturada com pesar, pelos milhões de pessoas que, por estatísticas diariamente divulgadas, sabemos não terem sequer tempo para vislumbrar esta esperança compartilhada, em que as condições materiais de existência estivessem em profunda aliança com regimes democráticos antiautoritários.


Em meio a tudo isso, muitos suspiros. Para além dessas nossas conversas, o que eu tenho imaginado, primeiramente, é como seria viver sem os imperativos de uma racionalidade capitalista instrumental à nossa volta. Não me refiro aqui a uma reflexão de gabinete, na torre de marfim das universidades e centros de pesquisa mundo afora. Não falo do monstro abstrato, o Sr. Capitalismo, mas dos vários problemas sociais que o modo de pensar capitalista nos apresenta e que não se tornam pauta das discussões deste governo e da própria sociedade, a não ser como forma de entretenimento das diferentes mídias sensacionalistas. Refiro-me às famílias perdendo suas casas em enchentes causadas por chuvas e falta de saneamento básico. Mulheres sofrendo violência em suas casas, nas mãos de maridos e familiares abusivos. Pessoas sem água encanada, em diversas cidades do interior do Ceará e de outros estados. Milhões de pessoas indo trabalhar em meio à pandemia, em ônibus lotados, sob ameaças de perder o emprego. Os grandes empresários e gestores de bancos alegando que a Economia – outra abstração, uma virtualidade – necessita manter sua circulação de capital, para não “quebrar”. Desemprego em massa. Pobreza e miséria sem precedentes. Saúde e Educação públicas sucateadas. Líderes políticos descredibilizando a Ciência e exaltando a religião. Em meio a tanta fome e doenças no País, um presidente em rede nacional reforçando a necessidade de jejum para uma população que, em sua maioria, passará fome.


Tudo isso ocorrendo e as pessoas vivendo convencidas a pensar que as coisas são assim apenas porque são, e que não há possibilidade de outra coisa. Que nossa única escolha nesse momento é ficar em casa e deixar a economia ser destruída ou, então, sair de casa e viver como se nada estivesse acontecendo, apostando com a fé de que não seremos contaminados. É incrível acompanhar isso e não vislumbrar a compreensão da população de que tudo ao nosso redor é história, que “não existe história que não seja história do presente”, como nos ensinou Walter Benjamin. Sem perceber que a construção da supremacia branca, a eugenia que se tornou racismo estrutural e internalizado, e a hegemonia da branquitude, para citar alguns exemplos, já foram consideradas naturais e hoje são combatidas por nós.


Esta pandemia, a meu ver, evidencia as possibilidades de enxergar as contradições que acontecem, há bastante tempo, em decorrência da forma capitalista de existência. É apenas mais um momento crítico resultante da nossa maneira de lidar com a economia e com o mundo, aproximando-nos do desespero experienciado pelos ursos polares famintos e à deriva em pedaços derretidos de geleiras, sendo que o aquecimento global e o efeito estufa ocorrem também por conta de nosso modo de vida capitalista, dependente de recursos não renováveis, como combustíveis fósseis.


O pior erro seria acreditarmos, em meio a tudo isso, que os problemas ainda serão ajustados e que o capitalismo tem como melhorar, amparando-nos em uma noção antiquada de progresso, conforme criticado por Amy Allen. O capitalismo, em sua forma neoliberal atual, tem se provado flexível o bastante para sustentar uma imagem de inclusão de mais pessoas na atualidade do que outros regimes político-econômicos conseguiram, mas isto não passa de uma imagem que não se sustenta nos bastidores da vida. Essa imagem, reconstruída principalmente pelas diferentes mídias, transmite a públicos diferentes ideais de mundo que destoam das realidades com as quais temos nos deparado. Prevenir-se ficando em casa ou ir trabalhar “com cuidado” são ideias díspares, e implícita nelas está: muitos devem morrer para que alguns sobrevivam protegidos da contaminação pelo Covid-19.


Entre minhas maiores preocupações durante a pandemia está a percepção de que o Estado de exceção tem se intensificado, culminando no desamparo e na retirada de direitos conquistados com tanta luta dos movimentos sociais e políticos. Em meio a isso, as pessoas se abstendo de falar e de pensar sobre política e uma massiva desresponsabilização destas quanto os políticos eleitos, sem cobrá-los de suas promessas de campanha eleitoral. Será que elas têm sido tomadas pela mesma sensação de fracasso que nós? Será que sentem não estar ajudando o suficiente a quem deveriam ajudar?


Sei que muitos querem que o mundo volte ao normal o mais rápido possível. Eu, por outro lado, quero que o mundo lá fora não volte a ser o mesmo que era antes nem para os que ficaram em casa, nem aos que foram obrigados a sair. E trago outra pergunta: seria possível imaginar um mundo novo que houvesse aprendido com a experiência? Não tenho uma resposta, só mais perguntas. E escrever sobre esta e tantas outras tem me parecido melhor do que qualquer resposta apresentada como receita de bolo, porque acredito que escrever sobre a potência das perguntas que podemos fazer durante os dias atuais e os que se seguirem após a pandemia para a construção de um novo mundo, antes que o nosso termine em ruínas, é perseguir um horizonte, inventar um novo mundo possível. As respostas? Essas não cabem a mim, mas a toda coletividade que fazemos parte. Para que possamos criar outra narrativa, ancorada na possibilidade e no processo de experimentar outras formas de vida, outros laços sociais que não sejam mediados pela razão instrumental capitalista que nos transforma em números estatísticos. E espero sinceramente que, mesmo com toda tentação e inclinação para essas respostas, vocês também continuem a perguntar para si e às pessoas ao seu redor.

[1] Refiro-me ao Paralaxe: Grupo de Estudos, Pesquisas e Intervenções em Psicologia Social Crítica, coordenado pelo prof. Dr. Aluísio Lima, no Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC).


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