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v3a4|As taxas de letalidade da COVID-19 e o afrouxamento das quarentenas

Atualizado: Jul 30

Por Everson Fernandes Pereira. Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


Ilustração de Nathalie Lees. Disponível em: https://www.economist.com/international/2020/02/22/experts-predict-that-covid-19-will-spread-more-widely


Assim que alguns casos de COVID-19 começaram a ser notificados fora da China, diversos líderes políticos ao redor do mundo passaram a fazer comparações da doença causada pelo coronavírus SARS-CoV-2 com uma “gripezinha”, “um resfriado”. Em alguns casos, alguns líderes caracterizaram as notícias sobre a pandemia (até então classificada como epidemia) como “histeria da mídia”, “fantasia” e uma série de comentários que tinham como objetivo atenuar a gravidade da situação. Várias vezes houve quem assumisse que algumas pessoas iriam, sim, morrer, mas que morrer era parte da vida.

Deixando de lado, por ora, o que se poderia discutir em termos de biopolítica ou necropolítica a partir das decisões sobre controle, vida e morte de partes da população, esses comentários demarcam não só uma ignorância - talvez estratégica (MCGOEY, 2012) - como também mobilizam atores políticos em tomadas de decisões econômicas e de saúde pública. Parte dessa retórica usa, principalmente, uma suposta taxa de letalidade baixa da COVID-19, no sentido de questionar a necessidade de medidas de contenção do vírus, como o distanciamento - ou isolamento - social.

Alain Desrosières (1998, p.82) aponta que epidemias (e pandemias) são problemas coletivos que clamam por soluções gerais. Para combatê-las ou mitigá-las, constroem-se cálculos de taxas de mortalidade de segmentos da população, classificados de acordo com diferentes critérios e que produzem dados para políticas de prevenções. Para o autor, esse tipo de “estatística médica” é facilmente aceito pela comunidade médica, e eu acrescentaria que é também bem recepcionada fora da comunidade médica, porque permite intervir oficialmente nos debates públicos e na organização da sociedade.

A primeira estimativa da taxa de letalidade da COVID-19 veio da China, obviamente, por ter sido a primeira a ter dados disponíveis para esse cálculo. Lá, a taxa se manteve em torno de 4%. Foi a partir desses dados que se criou a métrica para pensar em taxas de letalidades altas ou baixas, ao redor do mundo. Conforme o número de casos foi aumentando e novos países foram notificando suas primeiras infecções de COVID-19, foram ficando evidentes as disparidades nas dinâmicas da epidemia em diferentes países, ao menos até o momento.

As taxas de letalidade são definidas pelo cálculo do número de mortes de uma determinada doença dividido pelo número de casos confirmados da doença no mesmo período, e o resultado é multiplicado por cem (Bonita, Beaglehole & Kjellstrom , 2010). Essas taxas dependem de classificações de casos confirmados, que durante o período de pandemia é sempre um número incerto, geralmente subnotificado. Os casos confirmados dependem de critérios de classificação e da capacidade dos sistemas de saúde de diagnosticarem os casos. Diagnosticar depende de protocolos de testagens, da capacidade de prover atendimento e realizar as testagens laboratoriais ou exames clínicos, ou seja, de um sistema de saúde com estrutura ampla e bem equipada para tal.

Na China, a alteração dos critérios de classificação e definição de casos confirmados foi justificada pela necessidade de dar atenção aos casos sintomáticos antes mesmo de fazerem os testes de laboratório. Essa mudança ocorreu porque havia maior demanda de diagnóstico do que a capacidade de testagem e disponibilidade de equipamentos adequados para esse fim. Ou seja, não apenas decisões políticas, burocráticas, econômicas e morais fazem parte da criação de categorias de classificação, como também o aparato tecnológico e clínico precisa ter capacidade para acompanhar as demandas.

Dentro dessa classificação, no caso da COVID-19, há ainda uma subdivisão de categorias “de risco” por idade e condições de saúde que variam contextualmente de acordo também com características demográficas de cada país. Mesmo assim, as taxas deixam de lado outras questões como o período de início da manifestação dos sintomas até o início do tratamento, que pode causar uma diferença significativa na experiência do adoecimento e no prognóstico da doença. Mais do que uma capacidade intrínseca ao vírus, não é ele quem define a taxa de letalidade, mas uma combinação com uma série de corpos humanos, condições materiais, e questões políticas e sociais, isto é, os contextos locais.

Outras perguntas que ainda podem ser feitas são: quanto há de subnotificação de casos? A resposta à epidemia tem sido mais demorada em um lugar em comparação a outro com diferentes taxas? Faltam estruturas de tratamentos desses pacientes? Quais dados demográficos podem interferir no contágio e mortes? As pandemias, como eventos sociais e coletivos, também deixam de fora da métrica da taxa de letalidade aquelas mortes causadas pela sobrecarga do sistema de saúde. Uma pandemia como a de COVID-19, que tem uma grande capacidade de contágio e infecção, causa um grande número de pessoas dependente de atendimento dos serviços de saúde em curto intervalo de tempo. Como se tem visto em diversos países, boa parte dos serviços de saúde não estão preparados para atender a demanda e, muitos, entram em colapso. Soma-se a esse quadro crítico a preocupante e frequente infecção dos trabalhadores de saúde. Mesmo a Alemanha, que tem conseguido manter uma taxa de letalidade oficial baixa em comparação com a média, vê esse marcador subindo vagarosamente conforme o número de casos aumenta e os serviços de saúde sofrem com a sobrecarga.

A saturação dos serviços de saúde, e o colapso que deve acontecer também no Brasil em breve, segundo o ex-Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, provavelmente dificultará dar atendimento às pessoas que precisam de cuidados para outras doenças e condições de saúde que não a COVID-19. Nessas condições, o número de mortos em decorrência da pandemia deve aumentar ainda mais. Talvez seja o caso de se registrar de maneiras distintas o número de mortos por COVID-19 e o número de mortes pela pandemia – ainda que se compreenda a dificuldade desse tipo de notificação. Com o que se tem testemunhado em outros países e o que o ex-Ministro da Saúde cogita acontecer no Brasil, conhecer esses dados é importante para atribuir as responsabilidades por um cenário que se encaminha para ser bastante difícil.

O uso da taxa de letalidade para defender uma série de posturas que colocam em risco a população serve também à naturalização de milhares de mortes como se fossem inevitáveis. Ao colocar a população em risco e incentivar um contágio em massa, os defensores da flexibilização da quarentena deixam de lado o impacto no SUS e o número de mortes que podem resultar desse processo. Por fim, focar nos números da taxa de letalidade como argumento para um relaxamento das medidas de combate à propagação do vírus e de controle da epidemia é deixar de lado uma realidade que esses números não dão conta de explicitar.

Referências:

BONITA, R; BEAGLEHOLE, R; KJELLSTROM, T. Epidemiologia Básica. 2ª ed. São Paulo: Livraria Santos Editora. 2010.

DESROSIÈRES, A. The politics of large numbers. London: Harvard University Press. 1998.

MCGOEY, L. The logic of strategic ignorance. The British Journal of Sociology, v.63, n.3. p. 533-576. Setembro, 2012.



Texto originalmente publicado em: www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2344-boletim-n-30-cientistas-sociais-e-o-coronavirus

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