• antropoLÓGICAS

Autonomia não se confunde com teimosia! Discriminação por idade em tempos de COVID-19

Por Jane Felipe Beltrão. Professora titular da Universidade Federal do Pará (UFPA). Bolsista de produtividade em pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) nível 1B.

E-mail: janebeltrao@gmail.com


Photo by National Cancer Institute on Unsplash



Em tempos de pandemia, vejo com preocupação as posições discriminatórias ganharem força. E penso que a luta antidiscriminatória/antirracista precisa entrar em ação!

Afinal discriminação racista se manifesta usando muitas fórmulas e traz consigo subterfúgios que impõem aos demais uma História que nega os direitos políticos e sociais e mantêm as hierarquias semeadas com a diáspora africana.

Se enganam os que pensam que a discriminação e o racismo só se manifestam contra os povos negros, ou contra pessoas pretas, ele é insidioso e corrói as estruturas sociais por dentro, como se fosse uma broca que penetra a madeira para deixá-la oca, frágil. A discriminação racista se associa a outros marcadores sociais da diferença que são usados não para mostrar a beleza da pluralidade do ser diverso, mas para apontar as diferenças como desigualdades.

Temos que reagir e devemos fazê-lo veementemente, pois muitas vezes o racismo associado às discriminações de gênero, ao “etarismo” que afasta tanto as/os mais velhas/os, como as crianças e os jovens, fazendo com que o “adultocentrismo” desautorize e desrespeite as/os mais velhas/os porque teriam perdido a capacidade de serem ouvidas/os e as crianças e as/os jovens por não terem maturidade.


Afinal, o que é o etarismo, etaísmo ou idadismo? Estas palavras são pouco frequentes no português usual, mas elas se referem a uma categoria que indica estar relacionada à discriminação por idade, ou de caráter geracional, voltada contra pessoas ou grupos, fundamentada na idade, não importa se as pessoas alvo do preconceito que discrimina são crianças, jovens ou pessoas velhas. É uma poderosa forma de afastar as pessoas, desautorizando seus atos, impedindo-as/os de exercer seus direitos, fato que em si sugere violações inomináveis de direitos humanos. Ponha-se no lugar das pessoas!

No mais das vezes, o idadismo chega a nós por intermédio de brincadeiras, piadas e mesmo de “encarnação”, como dizemos nós, as/os paraenses, – ações que hoje se conhece pelo anglicismo bullyings – e, nós mesmos, discriminadas/os pelas expressões desrespeitosas, não nos damos conta do racismo recreativo, como ensina, Adilson Moreira (2019). Pensem comigo, quando recebemos em nossas caixas de mensagens, agora durante a Pandemia do COVID-19, imagens prendendo pessoas velhas em gaiolas; substituindo a placa de idosa/o pela inscrição teimosa/o, é de se revoltar. Afinal o que os preconceituosos traduzem como teimosia é a expressão de nossa autonomia e da possibilidade de preservá-la.

Mas pasmem, alguns de nós ainda reproduzem as imagens, rindo de nós mesmas/os. Situações semelhantes são reproduzidas pelas pessoas adultas em relação às crianças e às/aos jovens.

Há algum tempo, vi uma imagem que considerei aviltante, um homem que, creio eu, não dando conta de acarinhar uma criança pequena, deixou-se fotografar deitado e tendo ao lado a criança presa por uma bacia larga e furada, dessas que se coloca roupas para arejar. Fiquei horrorizada! Os exemplos são descritos para que vocês pensem o quanto estamos de olhos vendados para o racismo. Faz-se necessário acordar.

Voltando à pandemia que nos atormenta e pesem os efeitos de tais atitudes, são muitas. As pessoas alvo da “encarnação” – crianças, jovens ou idosas – podem se sentir melindradas, desprezadas, inferiorizadas. Evitar atitudes preconceituosas e discriminatórias é ato de cidadania, especialmente quando todas/os estão fragilizadas/os pela interrupção da rotina.

Nosso cotidiano apresenta-se difícil pelo receio de ser alcançado/a pelo coronavírus, especialmente porque todos os dias se ouve falar em “grupos de risco” e dentro da perspectiva se colocam pessoas velhas, povos indígenas, mas as autoridades esquecem de informar que nós idosas/os e os povos indígenas não somos pessoas perigosas e, sim, pessoas que ao contrair o tal vírus devastador temos maiores chances de ter o quadro de adoecimento complexificado. E, talvez por isso, na hora das difíceis escolhas, de saber quem ocupa o leito com possibilidades de cura, como vêm referindo as/os médicas/os, não vale a pena ocupar um leito com uma pessoa velha, afinal ela vai morrer mais rápido que uma pessoa jovem.

É verdade, a chance de alguém com mais de 60 anos morrer, antes de alguém de 40 anos é plausível, mas pensem na crueldade, no massacre, no extermínio que hoje é chamado genocídio. É preciso refletir sobre esta forma racista de tratar pessoas e povos que são socialmente importantes. O que antes se chamava limpeza étnica, podemos hoje chamar de limpeza etária, ou para ser tão cruel como os que discriminam, trata-se de faxina etária.

Das crianças e de jovens se diz que eles são assintomáticos/as, e as questões relativas ao distanciamento social não são referidas de forma drástica em relação a este grupo etário. A falta de atenção em relação ao tesouro representado por crianças e jovens, não é também uma forma de racismo? Evidentemente, respondo sim. Porque o distanciamento social que, em alguns lugares, pode ser denominado abandono, está atingindo abrigos de crianças e jovens que podem estar sendo açoitados pelo coronavírus. E o mundo não se deu conta, ou essas vidas precárias não carecem de luto, como ensina Judith Butler (2017).

Ao precarizar a existência humana estamos praticando o racismo. Pensem que a lista, dos poucos casos citados, pode ser exponencialmente aumentada. Sugiro que pensem na situação dos presídios, dos jovens negros, dos moradores/as de rua e tantas outras pessoas que podem ser trazidas a lume para demonstrar que as vidas desses seres humanos vulnerabilizados pouco importam ao Estado, visto que não são dignos de ficar ou vestir luto por elas/es. E as/os parentes destas pessoas, muitas vezes, não possuem sequer a possibilidade de enterrar e chorar seus entes queridos, tal é a brutalidade com que o Estado lhes arrebata esta possibilidade. E, ainda, não chegamos no momento mais drástico da pandemia.

Sejamos antidiscriminatórios/antirracistas e, em coro, se diga, como Zélia Amador de Deus (2020), “... precisamos consertar o mundo!” O mundo não está de ponta cabeça apenas pela pandemia, ele vinha desacertado de muito tempo. A COVID-19 atinge a todas as pessoas e a única resposta possível, para amenizar os efeitos da Pandemia, é o distanciamento social, porque estamos respondendo pela falta de cobro das autoridades que, no Brasil, decretaram a falência do Sistema Único de Saúde (SUS) e, ao mesmo tempo, temos que contar com o SUS, pois a rede privada também não responde às demandas do tempo de coronavírus. Percebem o paradoxo.

Mesmo que você duvide do que digo, “te aquieta em casa”! A ordem é evitar o pior! Mas, atenção, não são só as/os mais velhas/os que precisam estar em casa, é indispensável que a sociedade - e aqui não se inclui somente as pessoas, mas as instituições e as empresas - o esforço é social e ele implica em direitos e obrigações, especialmente porque não se sabe como, nem de que tamanho será a incidência do vírus no Brasil.

Para ler mais sobre o antirracismo:

Amador de Deus, Zélia. 2020. Caminhos trilhados na luta antirracista. Belo Horizonte: Autêntica. (Coleção Cultura Negra e Identidades)

Butler, Judith. 2015. Quadros de Guerra, quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Moreira, Adilson. 2019. Racismo Recreativo. São Paulo: Sueli Carneiro/Pólen.



Texto originalmente publicado em: http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2340-boletim-n-26-cientistas-sociais-e-o-coronavirus?idU=1&acm=_270

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