• antropoLÓGICAS

Bolsonaro e as inesperadas virtudes do camaleão

Por Gabriel Torelly. Doutor em Educação pela UFRGS, membro do grupo de pesquisa ARCOE (Arte, Corpo, EnSigno). Contato: gabrieltorelly@gmail.com

Photo byBalaji MalliswamyonUnsplash

O objetivo desse texto é realçar as qualidades de Jair Bolsonaro, presidente do Brasil. Embora a maior parte das abordagens que conheço, quase todas de origem acadêmica, compreendam Bolsonaro como uma espécie nativa de estúpido (ou idiota) cognitivo, amante da falsidade e inimigo da razão, procurarei afirmar precisamente o contrário. Não pretendo polemizar com meus colegas de humanidades, todos já suficientemente cansados diante das diversas tensões atravessadas nos últimos anos. No entanto, devo referir apenas de passagem que essa visão que tipifica o outro (no caso, Bolsonaro), por meio de suas supostas ausências e incompletudes, compartilha da mesma baixa retórica que ajudou a produzir o etnocídio americano e a escravidão atlântica.

A mestria de nosso presidente é de natureza múltipla. É preciso estar usando lentes quebradas para não notar sua inteligência aguda e seu invejável senso de moral social. Quero dizer que alguém que chega a se tornar presidente de uma nação e consegue introduzir todo o seu clã familiar no paraíso da venalidade e do conforto que é a alta política brasileira precisa ser melhor observado. Bolsonaro soube levar todo seu clã ao paraíso terreal e lá encontrou lugar para todos, garantindo certamente até o fim da vida a subsistência material do bando. Somente por isso, já precisaríamos considerar sua inteligência como algo acima da média. Mas isso ainda seria pouco. Bolsonaro é sutil, elegante (como o elefante do circo, talvez), compreende as delicadezas que fazem parte do jogo social mais arcaico e do mais contemporâneo. Sua mestria se exerce também na capacidade de autodomínio que demonstra, na verdadeira pragmática de si mesmo que é capaz de promover a cada novo movimento. O cínico e o estoico se revezam em suas mãos agitadas.

Bolsonaro é capaz de expurgar-se de intencionalidades, livrar-se de idiossincrasias. Seu faro não faz concessões a particularismos identitários, pois visa direta e imediatamente ao real. Suas palavras e gestos são sempre o espelho reflexo de uma atmosfera pré-individual que não formula ideias precisas, apenas fervilha imagens difusas. Bolsonaro não chega a se comportar com a presunção de um indivíduo. Ele não chega a ter uma opinião (o que caberia a um indivíduo que faz uso de uma faculdade intelectual reflexiva, algo, todavia, criador de limites e separações). Por isso, poderíamos, de certo modo, atribuir a Bolsonaro uma alcunha notável, como “o ilimitado”. Bolsonaro passa-se por um intestino, um estômago ou, no melhor dos casos, por uma molécula que busca melhor acomodar-se aos pontos de adesão. Entenda-se que nada disso é utilizado aqui para diminuir suas qualidades, pelo contrário. Trata-se de procurar compreender a pluralidade de habilidades de um ser que percebe de modo bastante ágil e elástico as relações, muitas vezes inconfessáveis, entre o que costumamos chamar de “sociedade” e “natureza” ou, ainda, o “moral” e o “animal”. Mestre em hibridismos, cada novo pronunciamento de Bolsonaro é uma oportunidade para mostrar-se como igual, para inserir-se, insinuar-se no homogêneo, até mesmo diminuir-se. Seu estilo é criar uma ausência de estilo e deixar-se preencher pelas imagens do espontâneo.

Ao falar, Bolsonaro fala como um igual, pois não se manifesta como alguém que identifica as irracionalidades, a ingenuidade ou a árida estupidez do outro. Bolsonaro, ao contrário de muitos, é capaz de enxergar como os seus gestos produzem e modificam a noção que os outros possuem dele. Bolsonaro é um mestre do pertencimento, domina seu auditório telemático pela infalível combinação dos sentimentos de medo e familiaridade. Sabe manipular e canalizar a poderosa energia do medo, atribuir-lhe rostos variados e, em seguida, tranquilizar a todos com a lógica da esquina e a conversa de bar. Ao manipular os pólos do ser e do não-ser, seu discurso é nutrido por um sentido profundo do pertencimento de todos à generalidade de um “homem comum”. Com Bolsonaro, somos todos um, farinha do mesmo saco, gente da gente. Não há margem para o mínimo gradiente de diferenciação ou para qualquer nível de atrito que produza a tensão do movimento e da diferença. Bolsonaro não precisou ler Parmênides para encarnar a própria esfericidade do Ser fixo e imóvel. Ele porta uma compreensão instintiva e imediata sobre as vigas clássicas de sustentação do edifício de nossa ciência e conhecimento. Sabe apropriar-se do acordo tácito e do ponto arquimediano arquitetados, pelo menos desde Platão e Aristóteles, entre o discurso e a figura de um homem médio (aquele que tende naturalmente ao bom senso e ao senso comum). O que intriga a respeito de Bolsonaro é que ele verdadeiramente comunica, ele é capaz de comunicar diretamente com o que há de mais universal. Portanto, Bolsonaro não é o arauto do caos, como muitos também gostam de dizer. Seu pensamento não tem nada de extremo e vertiginoso. Na realidade, sua inteligência se volta diariamente para o cultivo das flores pálidas do senso comum.

Sem temer os hibridismos, Bolsonaro também possui a argúcia e a astúcia da raposa. Assim como os animais mais hábeis, sabe se dissimular e dominar para escapar (lembrem-se da fuga dos debates, coisa da política “tradicional”). Enquanto cria imagens de aparentes negociações e paradoxos (Bolsonaro não chega a saber o que é um paradoxo, daí sua viscosidade), sua rapidez, como uma lebre, tonteia os perseguidores. Bolsonaro domina o uso das funções mimética e cromática, a inesperada virtude do camaleão, pois sabe adequar suas cores ao ambiente (vide os usos feitos do verde-amarelismo). Bolsonaro, assim como muitos animais, entre eles os simpáticos cachorros, sabe fingir-se de morto (vide o episódio da facada). Bolsonaro é capaz, ainda, de assumir as formas de outros animais, conforme isso possa lhe trazer vantagens eventuais (vide a relação fantasmática que ele mantém, por exemplo, com Donald Trump).

Tais exemplos indicam que Bolsonaro sabe dominar os tremores da linha tênue existente entre a moralidade e a animalidade. Se o artifício clássico do discurso foi criar uma fronteira e uma separação, a partir das quais atribui-se ao “humano” a especificidade de um gênero (nosso narcisismo), a inesperada virtude de Bolsonaro é saber ler o artifício, ler e habitá-lo, a ponto de mostrar a todos, repetidamente, as múltiplas faces de um fato bruto – aquele que diz que a moral e a sociedade são apenas as imagens sofisticadas de um animal camuflado. Bolsonaro é o epifenômeno de uma situação, o escracho do intercâmbio, poucas vezes reconhecido pela inteligência crítica, entre as esferas mutuamente contaminantes da vida social e natural. No futuro, poderemos chegar a dizer que ele foi o primeiro presidente a mostrar-nos as qualidades do ciborgue, sem escondê-las hipocritamente sob o verniz empoado da civilidade. Ele anuncia a implosão das categorias lentas com as quais vinha operando a séculos o narcisismo da mente analítica – seu maior mérito é dar forma, bem diante de nossos olhos, à podridão do Antropoceno. Para falar em termos mais atuais, diríamos, por fim, que Bolsonaro é a explicitação zoonótica, o que aponta, não para a separação entre vida nua e vida política, mas para o fervilhar nada ontológico de uma zona de zoonose. Assim, a raiva, o nojo ou o desprezo que sentimos em relação à sua figura se explica, pois ela dá rosto ao nexo que sempre tratamos de fazer desaparecer. Bolsonaro, não um mito, nem um fenômeno, mas um vetor no qual veio se alojar uma farta carga de transferência viral.


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