• antropoLÓGICAS

Carta do futuro do presente: Nova Iorque

Texto da série “Cartas do futuro do presente para o futuro do pretérito: apontamentos sobre o que a epidemia do HIV pode ensinar a pandemia da COVID-19, agenciada a três mãos por Adriano Henrique Caetano, sociólogo, consultor em HIV/AIDS e pesquisador do Departamento de Saúde Coletiva (UFRGS), André Luis Leite, psicólogo, mestre e doutor em Psicologia, pesquisador visitante no Programa de Educação Urbana da Universidade da Cidade de Nova Iorque e Mathew Rodrigues, jornalista-ativista-queer, editor associado da plataforma TheBody/TheBodyPro.



Nova Iorque, 27 de junho de 2020.


Adri,


Foi estranho não ter recebido uma carta sua essa semana. Sei que uns dias são mais complicados do que outros, e que, alguns deles, servem para nos mostrar que há muito a explorar até chegarmos ao fundo do poço. Por aqui a semana foi da ordem do impossível. Escrevo atrasado por conta de uma crise de enxaqueca que durou quatro dias. Mesmo assim escrevo, pois como o seu Sigmundinho, aposto nas palavras como ferramenta de enfrentarmos a barbárie. Mais ainda, assim como Michel Foucault - um (jor)analista do presente cujo trabalho eu admiro muito - aposto na amizade como forma de enfrentar "o Jair que há em nós". Rafael Trindade explica isso bem melhor do que eu:


Talvez a amizade seja uma das grandes armas contra o fascismo. Na amizade encontramos os pré-requisitos básicos: potências que se somam (...); uma horizontalidade que se faz por ajuda mútua e não por poder ou hierarquia; uma das alegrias mais puras, que a simples presença do outro traz; uma criação que não se deixa capturar por representações e imagens. A amizade possui a bonita capacidade de ser generosa, ágil e recusar com criatividade uma vida assujeitada.


Essa semana, me peguei com muita saudade dos meus amigos. Aprendi com eles a pensar e a cancelar ideias e não pessoas. Tenho certeza de que se meus amigos não existissem, eu os inventaria.


Se bem me lembro, és bem mais irônico e semi cético do que eu. Como bom cearense que és, acho que segues mais aberto a rir dessa grande tragédia que é viver do que eu. Dia desses, lembrei de você respondendo às minhas grandes elucubrações sobre o fim do mundo com uma música do Pato Fu. Ainda acredita que "toda cura para todo o mal, está no hipoglós, no merthiolate, sorrisal"? Saudade de tu.


Foto: acervo pessoal do autor, feita em 23 de Fevereiro de 2017 em São Paulo


Falando em amigos, o Matthew me ligou e me disse para te pedir desculpas por não ter conseguido te escrever. Ele anda super ocupado acompanhando a transformação da marcha de protesto contra a Parada Gay que surgiu aqui ano passado, no evento público mais importante para celebração do orgulho gay na cidade neste ano. Sei que ele escreverá uma matéria ótima sobre isso, quiçá eu até traduzo e mando para você. Enquanto isso não acontece, deixa eu te falar o que está acontecendo pois nos ajuda a entender mais sobre os dilemas dos protestos.


Foto: New York Pride. Disponível aqui


Ano passado, para celebrar os 50 anos da revolta de Stonewall, Nova Iorque sediou a World Pride. O selo World Pride é uma espécie de VillaMix do mundo gay, e depois de ter passado por Roma (2000), Jerusalém (2004), Londres (2012), Toronto (2014) e Madri (2017), o evento badaladíssimo, e caríssimo, chegou a Nova Iorque. A proposta não podia ser mais interessante: "promover a busca universal por liberdade e direitos humanos". Contudo, associar as celebrações locais com a proposta do World Pride deixou tudo absurdamente caro e, na opinião de alguns, fez com que os eventos do mês do orgulho gay se tornassem comerciais e voltado quase exclusivamente para as gays brancas e ricas dessa cidade. Ter como patrocinadores a Uber, a MasterCard e a Coca Cola, não é algo sem custo. Para muitos os atos políticos pensados para celebrar e seguir na batalha começada com os atos de protesto de StoneWall, estavam sendo comercializados tal qual as camisetas I love NY que todo mundo que vem aqui insiste em comprar. Essa discussão não é nova aqui, mas ano passado uma resposta interessante foi dada a ela.


No dia 30 de Junho de 2019, no mesmo horário da Parada Gay Oficial, um grupo de pessoas participou da Marcha de Liberação Queer (tradução minha), na qual uma das palavras de ordem era: "Nós estamos aqui pela liberação Queer, e não por um capitalismo com as cores do arco-íris"


Você já me ouviu dizer trocentas vezes que na luta pela mudança nas normas que regem a nossa vida social, as palavras escolhidas são parte essencial das estratégias de luta. No caso dessa insurgência contra a Parada Gay Oficial da Cidade de Nova Iorque, os participantes escolheram o termo Queer para apresentar a sua forma de luta para si mesmos, e para aqueles que os assistiram. Na nota divulgada no ano passado, o grupo que desafiou o gay establishment local explicou o seguinte:


Nós escolhemos usar o termo Queer como uma categoria guarda-chuva para representar um amplo espectro de minorias sexuais, de gênero e foras da lei que têm sido histórica e atualmente oprimidos. "Queer" indica em nossa concepção um posicionamento político de rebelião e uma demanda por liberação indo muito além de uma simples categoria identitária. Nós somos trans, bissexuais, lésbicas, gays, intersex, assexuais, dois-espíritos, não-binários e indivíduos e comunidades não conformadas com seus gêneros.


A Parada Gay da cidade de Nova Iorque, prevista para acontecer hoje, foi cancelada pela primeira vez em 50 anos por conta da pandemia. Diante desse acontecimento, os organizadores da Queer March alinharam sua agenda anti-opressão com a onda de protesto pedindo diminuição dos investimentos com a polícia e em defesa da vida das populações negras. A coalizão Reclaim Pride e fará hoje, de forma ilegal e no melhor espírito do protestos em rede que têm acontecido por aqui, a Marcha de Liberação Queer pelas Vidas Negras e Contra a Brutalidade Policial.


Foto: divulgação Queer Liberation March for Black Lives and Against Police Brutality. Disponível aqui


O tom do movimento é o seguinte:

Enquanto toda a população negra está sujeita constantemente ao risco de sofrer brutalidade policial e assassinato, nós enquanto ativistas queer a trans, reconhecemos que pessoas Negra Trans, Não Conformadas em seu Gênero, e não binárias, especialmente Mulheres Negras Trans, deparam-se com a intersecção terrível de racismo estatal e social, transfobia, misoginia e classismo. Isso precisa parar agora.


Caso você queira conferir um pouco do babado, eles vão transmitir o evento o dia todo no Instagram e também no site https://reclaimpridenyc.org/ .


O ACT-UP Nova Iorque, aquele grupo que eu estou pesquisando, é uma das organizações apoiando a marcha desde o ano passado. Ainda há pouco, eles me mandaram a seguinte mensagem:


Eis alguns lembretes/dicas de protestos para amanhã:

1. Como a marcha é ilegal - os participantes não têm permissão da prefeitura para fazê-lo, lembre-se que há o risco de prisão;

2. Por favor, hidrate-se, amanhã será um dia quente! Nós teremos um número limitado de kits de protesto os quais incluem uma garrafa de água;

3. Deixe sua carteira em casa, traga apenas o essencial - identidade, dinheiro e cartão do metrô;

4. Pratique o distanciamento social tanto quanto possível, use máscara sempre e desinfete-se com frequência (nós teremos um número limitado de máscaras reusáveis do ACT UP conosco)

5. Como a marcha acontecerá faça chuva, ou faça sol, venha preparado para tudo (por exemplo, guarda chuva, poncho, protetor solar)

6. Se você está preocupado com COVID ou tem experienciado sintomas de COVID, por favor, fique em casa. Haverá transmissão ao vivo durante o dia todo em reclaimpridenyc.org


Estou muito animado com a ideia de participar desse protesto. Não poder ir aos protestos por conta do meu visto tem sido bem difícil, mas amanhã, escolherei o meus problema que quero lidar e vou lá jogar meu corpo no mundo para afirmar em ato que "não tem um, tem dois; não tem dois, tem três; não tem lei, tem leis; não tem vez, tem vezes; não tem deus, tem deuses, não há sol a sós".


Me deseja sorte, torce para não chover e reza para que eu não seja preso.


Bom domingo.


André Luis Leite


Veja posts anteriores da mesma série:

Carta do futuro do presente: Nova Iorque

Carta do futuro do pretérito: Porto Alegre

Cartas do futuro do presente para o futuro do pretérito: apresentação

© 2023 por Design para Vida.

Criado orgulhosamente com Wix.com

CONTRA A PORTARIA 34 E AS MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES