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Carta do pretérito: Porto Alegre

Texto da série “Cartas do futuro do presente para o futuro do pretérito: apontamentos sobre o que a epidemia do HIV pode ensinar a pandemia da COVID-19, agenciada a três mãos por Adriano Henrique Caetano, sociólogo, consultor em HIV/AIDS e pesquisador do Departamento de Saúde Coletiva (UFRGS), André Luis Leite, psicólogo, mestre e doutor em Psicologia, pesquisador visitante no Programa de Educação Urbana da Universidade da Cidade de Nova Iorque e Mathew Rodrigues, jornalista-ativista-queer, editor associado da plataforma TheBody/TheBodyPro.



Porto Alegre, 30 de junho de 2020.


Foto: Parada pela Diversidade Sexual do Ceará 2012. Acervo GRAB


André,


Fiquei bem feliz em receber sua carta e peço desculpas pela minha ausência nos últimos dias. Na verdade, ainda estou aprendendo a trabalhar de home office, mas como diz a música do Chico, a gente vai levando... a gente vai levando…


Adorei saber notícias tuas e dessa Marcha de Liberação Queer(!) até porque como você sabe iniciei minha trajetória na saúde a partir da inserção do movimento LGBT em Fortaleza, na ONG Grupo de Resistência Asa Branca, que entre várias ações de prevenção ao HIV/aids e as lutas contra a LGBTfobias, também, organizam a Parada pela Diversidade do Ceará. Mesmo longe do Ceará há 08 anos é forte a lembrança das edições das Paradas que participei na organização, sempre no último domingo de junho, esse ano não vai ocorrer devido a pandemia, as cores do arco-íris invadem a avenida beira mar cartão postal da capital alencarina.


Foto: Parada pela Diversidade Sexual do Ceará 2012. Acervo GRAB


Então, essa relação saúde, direitos humanos e LGTBQI+ sempre foi uma constante na minha vida. Na sua carta você falou do papel do mercado na parada de Nova Iorque, aqui durante muitos anos o grande parceiro do movimento LGBTQI+ foi o Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde. Vou contar um pouco de história para contextualizar o que estou falando o Programa Nacional de HIV/Aids era uma agência governamental responsável por ações relativas à Aids (educação e prevenção, assistência à saúde, distribuição de medicamentos, tratamento às pessoas vivendo com Aids, pesquisa e vigilância epidemiológica). Desde 1996 disponibiliza tratamento gratuito para pessoas vivendo com HIV/ Aids através do Sistema Único de Saúde (SUS). A participação de militantes, muitos dos quais vinculados às ONGs, foi fundamental para a formulação, desde o início, de políticas públicas pautadas pelo referencial democrático, não discriminatório e de defesa dos direitos das pessoas vivendo com HIV/Aids.


Foi nesse diálogo entre gestores, militantes e pesquisadores que fez o Brasil ser reconhecido como modelo de enfrentamento ao HIV/Aids e, também, compreender que o combate para uma epidemia como a Aids envolve mais do que ciência e financiamento. Ela nos ensinou que precisamos incluir a pauta de direitos humanos e vulnerabilidades individuais, sociais e programáticas pois somente dessa forma vamos conseguir enfrentar a epidemia.


Um dos marcos simbólicos que não podemos negar é que a Aids possibilitou incluir nos discursos oficiais os diversos sujeitos sociais que constroem a luta diária das pessoas vivendo e convivendo HIV/AIDS, população LGBT, negras e negros, mulheres, pessoas trans, profissionais do sexo, jovens e usuários de álcool e outras drogas. Esses sujeitos foram visibilizados a partir da construção democrática da política de combate ao HIV/Aids e nos ensinaram que hoje ninguém morre mais de Aids, mas pode morrer de estigma e discriminação que, ainda, afeta as pessoas vivendo e convivendo com HIV/Aids. Nesse sentido, os grupos organizados em torno da luta contra a Aids foi fundamental para a resposta à epidemia, no caso da CONVID 19, ainda não vimos grupo organizados em torno desse combate.


Foto: Parada Livre de Porto Alegre 2017 – Parque da Redenção (foto acervo pessoal)


No entanto, a Aids está entrando na sua quarta década e muita coisa mudou nesse período, como você tem escrito por aí as formas de resistências e lutas estão em transformação no mundo todo e aqui no Brasil não seria diferente. As resistências que estamos vendo, as lutas antifascistas e antiracistas, a princípio não estão atreladas a nenhuma organização ou associação específica. Na maioria são jovens que estão unidos pela luta “vidas negras importam” - um debate importantíssimo no país que não resolveu os séculos de escravização que tem pelas costas, apenas colocou debaixo do tapete....


Contudo, como você disse na sua última carta que a amizade seja uma das grandes armas contra o fascismo. Concordo com essa colocação e digo mais, atualmente ando acreditando mais nas nossas redes, nos micros espaços. Não é o caso de voltarmos para o armário, mas vamos precisar ressignificar os afetos e estarmos próximos de quem realmente nos afeta. Aqui quero trazer minha amiga e colega de luta do GRAB, Dediane Souza, travestis, negra e nordestina para a conversa:


Por muito tempo, os espaços de socialibilidade LGBT foram vistos apenas como “guetos” de exclusão, mas, embora sejam resultado direto da LGBTfobia, são também espaços de acolhimento, de construção de relações de afinidade, solidariedade e organização de redes. Não se trata, aqui, de um coro à ideia homogeneizante de comunidade, mas de entendermos que as mudanças políticas necessárias para este tempo demandarão olharmos de um modo diferente para o principal propulsor das lutas pelo fim do preconceito e da discriminação, a saber, as pessoas e suas aspirações por felicidade.


Ando começando a concordar contigo, e com o tal (jorn)anlista do presente que você tanto fala, não é mesmo preciso ser triste para ser militante, Esses dias vi um vídeo lindo do Emicida falando que somos os únicos representantes do nosso sonho na terra, e que, por isso precisaremos encontrar formas de lutas que façam o tempo presente algo pelo qual vale a pena acordar.


Sei que você anda preocupado com o efeito que tudo que temos vivido sobre o seu projeto/desejo/sonho de ser um pesquisador que conta histórias de luta para construção do futuro; por isso, quero te mando essa foto que eu fiz em uma exposição que vi em São Paulo em 2017.



É isso meu amigo, obrigado pela parceria e por juntos acreditarmos, num outro mundo possível - tarefa urgente e necessária.


Evoé!


Bjs,


Adriano Caetano



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