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Cartas de um puerpério em quarentena (s/ número),

Por Rosa Carneiro. Departamento de Saúde Coletiva UnB. Contato: rosagiatti@yahoo.com.br



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Cartas de um puerpério em quarentena (s/ número),

Engraçado. Isso será um bilhete. Uma nota mental. Quem sabe com tempo (artigo em excesso e extinção, paradoxalmente), um dia logo mais volto para esse debate. Nunca se falou tanto. Nunca se legitimou tanto o que acontece no doméstico. No interior de nossas casas. Nunca, como agora. Antes o doméstico era algo a ser escondido. Tapado. Quase vergonhoso. Imagina dizer ... preciso fazer almoço, vou desligar! Vou ficar com meus filhos, preciso sair mais cedo! Preciso cuidar da casa, já volto! Precisamos viver uma pandemia e a morte iminente a todo momento para que o vivido por nós mulheres e mães todos os dias passasse a ser pronunciado com legitimidade e no status de trabalho. Agora o doméstico é trabalho? Sempre foi, minha gente. Será afinal o "ponto zero da revolução" à lá Silvia Federici? A ver, minhas caras. A ver. Confesso que tenho minhas dúvidas. Somos muitas mulheres. Desiguais em nossas necessidades e oportunidades. De minha parte, tem gente pedindo comida, engatinhando na sala, chorando, com fralda suja para trocar e pela primeira vez sinto uma certa autorização coletiva para falarmos sobre isso. Ou não, para que outras pessoas falem por nós. Intimidade? Domesticidade? A internet hoje é a porta que une ainda mais o doméstico e o público. Pelo zoom vemos pijamas nas reuniões, casas com brinquedos jogados no chão, pedidos de comida e de peito. Cadernos e notas de uma reunião. Tudo junto e misturado. Algo tão nosso, mulheres mães que trabalham dentro e fora de casa. Estamos todos sobrecarregados. Homens dizem isso. Mas nós sempre estivemos .. As mulheres mães. Sempre estivemos. Preciso ir. Alguém me diz: Mamãe, fala comigo!



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