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Carta do futuro do pretérito: Porto Alegre

Atualizado: Jun 28

Texto da série “Cartas do futuro do presente para o futuro do pretérito: apontamentos sobre o que a epidemia do HIV pode ensinar a pandemia da COVID-19, agenciada a três mãos por Adriano Henrique Caetano, sociólogo, consultor em HIV/AIDS e pesquisador do Departamento de Saúde Coletiva (UFRGS), André Luis Leite, psicólogo, mestre e doutor em Psicologia, pesquisador visitante no Programa de Educação Urbana da Universidade da Cidade de Nova Iorque e Mathew Rodrigues, jornalista-ativista-queer, editor associado da plataforma TheBody/TheBodyPro.

Foto: "Jogos perigosos" (1990), de José Leonilson Bezerra Dias



Porto Alegre, 14 de junho de 2020.


Queridos amigos da outra américa, gostaria de ser o porta voz de notícias felizes, mas assim como aí, por aqui, também vivemos “estes tempos estranhos”. A principal diferença que vejo entre nós – dada a similaridade entre aqueles que nos desgovernam - é que vocês estão algumas semana a nossa frente com a pandemia. E com isso, sinto como se vocês estivessem habitando um futuro rumo ao qual nós aqui provavelmente iremos alcançar.


Devido aos meus anos de experiência na luta contra a AIDS, sei que respostas para catástrofes como essa causada pela COVID-19 são construídas em conjunto por ativistas, militantes e pesquisadores. Sendo assim, tenho olhado muito para a história da epidemia de AIDS em busca de lições. Estou certo de que há nesse passado recente pistas importantes sobre como sobreviver a esses dias cinzas marcados por mortes maciças, histeria e medo. As bichas mais novas podem até não saber, e as mais velhas não lembrar, mas Nova Iorque foi uma cidade crucial na construção da resposta global ao HIV. Por isso, estou convencido de que é muito útil trocarmos experiências e trabalharmos juntos no enfrentamento da primeira grande pandemia deste século. A propósito, Mathew, você ainda escreve para The Body? Desde 1995, uso esse site como um porto seguro de informações - coisa rara e necessária em tempos de fake news, anti-ciência e guerra de informação. André, você continua estudando as estratégias que as pessoas usam para tentar fazer do mundo um lugar que elas consideram melhor?


Todas as vezes em que eu trago a comparação entre HIV e COVID-19, pelo menos um militante aguerrido LGBTQI+ se apressa em me dizer: a pandemia não está afetando exclusivamente a população gays e trans como no caso da HIV. Se eu não o interrrompo, o ser humano segue militando e me informa orgulhoso que o COVID-19 não é um vírus fortemente associado a um grupo estigmatizado ou um conjunto de grupos estigmatizados, como era o caso do HIV no começo da epidemia. Quando estou interessado em seguir a conversa, relembro ao meu interlocutor que atualmente quem ainda é diagnosticado e morre de AIDS são negros, gays e as pessoas trans não brancas. Não é coincidência que seja essa a mesma população que está sendo mais afetada por COVID-19. Ao ouvir isso, minha audiência começa a me ouvir um pouco mais.


O historiador holandês Gaspar von Barlaeus (1660) escreveu que não existe pecado abaixo do equador. Para ele, a linha imaginária que separa o hemisfério onde eu estou, daquele onde vocês estão, separa também duas moralidades. Do mesmo modo que a raça (abaixo e acima do Equador), a sexualidade foi apresentada como um item importante para diferenciar os hemisférios norte e sul. Essa visão é bem diferente do que o ministro interino da saúde fez no seu discurso entre os hemisférios norte e sul, mas isso fica para outro momento.


Tenho insistido que precisamos entender que muito da nossa resposta a qualquer vírus vem do medo. Um vírus expõe nossa mortalidade. E se o COVID-19 tem relembrado disso, a epidemia de AIDS não só fez a população gay e trans entender isso, como deixou um traço que persiste na cabeça de muitos de nós: a qualquer momento a nossa sexualidade poderia nos fazer ficar doente e morrer.


Lembro de estar andando com minha mãe nos final dos anos 80 em Fortaleza e passamos em frente ao bar Duques e Barões, bar frequentado pela população LGBT cearense, quando minha mãe solta a seguinte pérola: “nunca anda nesse lugar porque a AIDS está aí dentro”. Na ocasião eu tinha 14 anos de idade, não entendia direito o que era AIDS e nem estava certo da minha homossexualidade, mas, se a minha sábia e poderosa mãe me dizia para nunca entrar ali, coisa boa a AIDS não devia ser.


Contei essa história porque naquela época esses eram os únicos espaços onde as LGBT podiam afirmar sua afetividade/sexualidade. Agora, na era da covid-19, tenho visto muita gente na internet expondo as pessoas que saem na rua, aqueles que têm encontrado seus entes queridos. Como um homem gay, vejo muitos homens gays julgando uns aos outros não somente por querer sair pra transar, mas também por estarem no Grindr. Deixe me ser bem claro: nenhuma dessas práticas é boa do ponto de vista da saúde pessoal ou coletiva. Eu desencorajaria qualquer um a sair por uma razão não essencial e recomendaria às pessoas a acharem formas para explorar uma sexualidade saudável durante esse tempo: sexo por telefone, por vídeo, masturbação. A escolha aqui é do freguês.


Desde o início da expansão da covid-19 e do isolamento social a ele associado, eu tenho visto muito material jornalístico discutindo sobre o que significará ter intimidade com alguém, e manter a nossa sanidade em um momento em que estamos sendo instruídos a manter a distância uns dos outros. As pessoas têm escrito sobre festas sexuais digitais, como ter intimidade em tempos de distância, e como se masturbar quando você não tem o privilégio de uma porta fechada. Cada um de nós, especialmente as pessoas trans, pessoas não brancas e aqueles, como eu, na interseção, têm uma relação intensa e pessoal com a epidemia de AIDS. Cada um dos nossos traumas ligados a isso é singular, como nossas impressões digitais. A comparação desenhada entre ela e a pandemia de covid-19 pode não ser perfeita, mas eu me recuso a deixar o perfeito ser inimigo do bem. Vocês me entendem?


As senhoras sabem que eu não sou a maior fã do nosso sistema produtivo, certo? Capitalismo mundial integrado, capitalismo necropolítico, capitalismo suicidiário, nem sei qual é o xingamento mais adequado para ele hoje. Como alguém que reconhece a importância das políticas públicas no contexto de uma catástrofe global como a que vivemos hoje, preciso partilhar com vocês algo que aprendi com Achille Mbembe. André, você já leu algo desse filósofo, teórico político, historiador, intelectual e professor universitário camaronês? Acho que você ia gostar dos posicionamentos dele. Achille Mbembe insiste que a soberania de um Estado neoliberal se funda no poder de morte sobre as populações, e não no poder de vida.


Aqui no Brasil, o desmonte do Sistema Único de Saúde é uma forma sofisticada de executar a política de morte das populações negra, pobre e LGBTI+, através da total desassistência à saúde. Juntemos a isso os adoecimentos provocados pela falta de saneamento básico e os bolsões de pobreza cada vez mais frequentes devido ao aumento da desigualdade social sob a regência do maestro Paulo Guedes, e temos as condições ideais para que aquele que hoje senta na cadeira presidencial inverta os termos de uma famosa máxima foucaultiana. Sob o governo do presidente sem partido, o Estado Brasileiro tem feito morrer e deixado alguns viverem.


Espero não ter pesado muito o domingo de vocês, mas como vocês estão temporalmente a frente de nós, e sei que ambos andam pensando sobre isso tudo, achei que seria potente trocar informações escritas sobre tudo isso.


Fiquem bem e até breve.


Adriano Henrique Caetano


Veja o post seguinte da mesma série:

Carta do futuro do presente: Nova Iorque



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