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v4a24| Carta do futuro do presente: Nova Iorque

Atualizado: Jul 30

Texto da série “Cartas do futuro do presente para o futuro do pretérito: apontamentos sobre o que a epidemia do HIV pode ensinar a pandemia da COVID-19, agenciada a três mãos por Adriano Henrique Caetano, sociólogo, consultor em HIV/AIDS e pesquisador do Departamento de Saúde Coletiva (UFRGS), André Luis Leite, psicólogo, mestre e doutor em Psicologia, pesquisador visitante no Programa de Educação Urbana da Universidade da Cidade de Nova Iorque e Mathew Rodrigues, jornalista-ativista-queer, editor associado da plataforma TheBody/TheBodyPro.




Nova Iorque, 18 de Junho de 2020


Adriano,


Ter notícias suas e perceber que tens conseguido pensar em meio à maluquice dos dias insanos me conforta. Nunca achei que viver um desses momentos que estudamos nos livros de história fosse tão cansativo. Como sabes, sou um consumidor inveterado de cinema, em nenhum dos filmes sobre ameaças virais à humanidade que eu assisti, sejam eles mais ou menos realistas, há uma parcela da humanidade negando veementemente a existência da ameaça viral. A realidade anda mesmo mais estranha do que ficção.


Uma pandemia viral em um cenário de desinformação epidêmica foi algo que nem uma colaboração de Guilherme Del Toro com as irmãs - outrora irmãos - Wachowski poderia ter previsto. Em maio, vi um meme dizendo que 2020 havia sido escrito por Stephen King e dirigido por Quentin Tarantino. No começo de junho, quando uma onda de protestos contra a violência cotidiana sofrida pela população negra se alastrou pelas Américas e na Europa, e fez o prefeito de Nova Iorque decretar um toque de recolher por sete dias, fiquei com a impressão de que o meme precisa ser atualizado e dizer que 2020 foi produzido por Spike Lee.


Colagem de @the_queer_fix, disponível aqui


Adoro os memes e a genialidade de todos esses diretores, contudo, para dar a César o que é de César, e também para mostrar a utilidade da ciência em tempos de ataques e desconfiança no nosso ofício de pesquisador, informo aos navegantes que no início de 2019, cientistas da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins previram que uma pandemia aconteceria em breve. Entre março e abril do ano passado, esses sujeitos que se recusam a trabalhar de verdade e gastam seus dias lendo artigos científicos, notaram um aumento consistente no número de eventos epidêmicos - crescimento rápido e acima do esperado de uma doença em determinada área - ao longo dos últimos anos.


Com base nisso, eles criaram a hipótese de que as chances de pandemia - crescimento rápido e acima do esperado de uma doença simultaneamente em muitos países do mundo - nos próximos anos estavam aumentando. Entendendo que era preciso pensar no que fazer, esse desocupados pediram recursos a Organização Mundial do Comércio e a Fundação Bill e Melinda Gates e se reuniram no dia 18 de Outubro de 2019 em um hotel charmosíssimo no lado do Central Park aqui em Nova Iorque. Lendo os relatos dessa simulação de catástrofe, me vi muito feliz por ter escolhido ser um cientista e que uma dose de imaginação é mesmo fundamental para fazer ciência útil para uma vida decente.


Mathew não divide mais o apartamento comigo, ele resolveu passar a pandemia com o boy. Mas não se preocupe, fiz uma foto da carta e mandei para ele, ele demora, mas vai te responder. Pelo que eu entendi, Matthew resolveu fazer uma aposta no amor - o namorado dele, um querido, insiste que a melhor forma de passar o fim do mundo é estando bem amado. Eles sempre tiveram dúvidas quanto a ideia de morar juntos mas, diante das recomendações de isolamento social eles decidiram que seria melhor assim. A propósito você ainda está solteiro?


Entre fevereiro e maio, quando a curva de contaminação era ascendente e os leitos escassos, a recomendação do prefeito, e do governador, era manter-se exclusivamente na companhia apenas daqueles com que você morava. No dia 09 de junho, entramos na fase 01 da reabertura, nela é permitido reunirmos em grupos com até dez sujeitos. Quando chegarmos na fase três, serão permitidos grupos de no máximo 25 pessoas. Nunca tivemos lockdown aqui - sempre foi possível sair para atividades essenciais como supermercados, farmácia e atividades físicas - mas eu ando cansado de não poder ver as pessoas.


Ando pensando em quando poderemos voltar a ir ao cinema. Sinto tanta falta da telona, sabe? Um amigo de Porto Alegre me contou que está rolando um cine drive in ali perto do Anfiteatro Pôr do Sol. O drive in mais perto de casa tem uma vista linda, mas, ainda não inventaram uma opção segura de drive in sem carro, por isso, eu vou precisar esperar. Do que você tem sentido falta esses dias? Sei que gostas muito de viajar.


Foto de @skyline_drivein_nyc. Disponível aqui


Milleniuns acreditam que tudo que não foi invenção deles não presta e que devem ignorar qualquer coisa que venha do passado. Entendo a decepção, mas lamento a ignorância deles. Quando conseguimos ser um pouco menos como nossos pais, e reconhecer o que há de interessante nas novidades não inéditas que não param de surgir ao nosso redor, pode ser muito útil conhecer como aqueles que vieram antes de nós resolveram problemas que temos até hoje. Foi acreditando nisso que vim estudar a história do ACT-UP New York em busca de pistas sobre como é possível inventar formas de protestar contra governo que insiste em nos fazer morrer. Eu sei que você conhece esse movimento, afinal, participamos juntos de candle lights, lá em Fortaleza. Contudo, caso você precise falar sobre isso com alguém que não tem a nossa idade, ou apreço suficiente a leitura, diz pra elX assistir o primeiro episódio, da segunda temporada de Pose - aquela série na Netflix sobre a cultura Vogue que inspirou a Música da Madonna.


O ACT UP (AIDS Coalition to Unleash Power) foi fundado aqui Nova Iorque no ano de 1987. Trata-se do primeiro movimento social organizado para demandar de governos, e de setores da iniciativa privada, a melhoria nas respostas dadas à epidemia de HIV - a qual assolava principalmente a comunidade gay nos Estados Unidos. O movimento foi organizado através de uma rede de comitês responsáveis por tarefas específicas e grupos de afinidades. Enquanto o número de mortos crescia, e muitos tinham que enterrar seus amigos e amores, o governo norte americano se recusava a reconhecer a gravidade do problema e mais atrapalhava do que ajudava a resolver a situação.


Qualquer semelhança entre o que aconteceu nos anos oitenta por aqui e o que tens visto no Brasil hoje não é coincidência: corpos cuja sexualidade é dissidente, e vidas cuja moralidade não importa para a manutenção do mito do crescimento econômico ilimitado são sempre deixados a morrer por aqueles que ocupam o Estado. A vida não tem um valor absoluto, classe, cor de pele, e forma de expressão sexual são ambidestramente usados para separar quem pode morrer.


Entendendo que era preciso transformar sua raiva e sua dor algum tipo de ação propositiva, posto que o governo já havia evidenciado o descaso para com as pilhas de corpos que só cresciam, eles decidiram tomar para si o poder que haviam delegado ao Estado e partiram para ação direta desenvolvendo grupos de ajuda e suporte mútuo para modificar a legislação vigente, estudar os avanços científicos ligados ao tratamento e inventar formas de continuar vivendo unido pela raiva em meio a um cenário de mortes que lembrava uma guerra.


Foto: Act Up New York


No domingo, dia 31 de maio, participei de um seminário sobre o que as lutas pela saúde feitas no contexto da epidemia de HIV dos anos 80 poderiam inspirar as batalhas que temos travado no enfrentamento do COVID-19. Nessa reunião, contamos com a presença de Jim Eigo, escritor e ativista que participou ativamente da elaboração das ações que levaram à reformulação da legislação federal norte americana sobre pesquisa e consumo de medicamentos.


Ele fez uma fala emocionante e nos presenteou com uma lista dos dez princípios que sintetizam a forma como ele entende que as lutas sociais podem provocar mudanças na forma como as políticas governamentais para saúde são organizadas. Como essa semana o Brasil completou um mês sem ministro da saúde, entendo que a lista do Jim, pode ser bem útil.


1. Nós asseguramos que as nossas primeiras demandas para o establishment médico fossem simples e concretas. Aquelas demandas em forma inicial serviram para mobilizar nossas tropas e informar a imprensa sobre o que nós queríamos;


2. Nós rapidamente transformamos aquelas demandas simples em políticas estruturadas, as quais nós escrevemos como se tivéssemos o poder de colocá-las em prática;


3. Nós miramos nas pessoas no establishment médico (no nosso caso, o Departamento Americano de Controle de Comida e Medicação, Institutos Nacionais de Saúde e Centros para controle de Doenças) aptas a promover mudanças reais de forma rápida;


4. Nós procuramos por amigos nas agências governamentais provedoras de saúde que iriam se manifestar em nosso favor e falar em nosso nome;


5. Nós convidamos cuidadores para contribuir com as políticas que nós estávamos construindo e para advogar pela sua implementação;


6. Nós encontramos jornalistas simpáticos a causa para contar a nossa versão da história, e também o fizemos nós mesmos usando todos os recursos disponíveis;


7. Nós procuramos políticos que pudessem nos apoiar;


8. Nós constrangemos o establishment médico a considerar as nossas demandas;


9. Nós convencemos o establishment médico de que eles precisavam de nós: pessoas vivendo com uma condição médica difícil, seus entes queridos e seus cuidadores são especialistas no assunto, e desse modo, são um recurso indispensável para o establishment médico que se ocupa dessa condição clínica;


10. Nós deixamos claro para o establishment médico que nós queríamos não apenas um lugar à mesa, mas cadeiras em todos os comitês (médico, de pesquisa, de regulamentação) relevantes, e que nós não seríamos meros expectadores naqueles comitês. Nós seríamos parceiros na mudança das políticas existentes e na construção das novas que darão tratamento a epidemia global que nós conhecíamos tão bem.


Espero que isso te ajude a pensar em possíveis agora que o cenário nacional parece tão oprimido pelo peso dos nossos adversários.


Tente não morrer e não surtar.


Beijo,

André Luis Leite





Veja posts anteriores da mesma série:

Carta do futuro do pretérito: Porto Alegre

Cartas do futuro do presente para o futuro do pretérito: apresentação


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