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Cartas do futuro do presente para o futuro do pretérito: apresentação

Atualizado: Jun 21

Por Adriano Henrique Caetano. Sociólogo, consultor em HIV/AIDS e pesquisador do Departamento de Saúde Coletiva (UFRGS).

André Luis Leite. Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia, pesquisador visitante no Programa de Educação Urbana da Universidade da Cidade de Nova Iorque.

Mathew Rodrigues. Jornalista-ativista-queer, editor associado da plataforma TheBody/TheBodyPro.


Ilustração de Daniele Andreotti, Covid-19 / Today we are all warriors


Revisitar o nosso passado recente e nos agenciar com quem anda atento ao que no presente parece novo, mas tem cheiro de mofo, é um modo adequado de usar a intuição para reconhecer perigos e rastrear possíveis. Sem possíveis sufocamos, tal e qual Jorge Floyd, sob o peso de um Presente insustentável nessa marcha rumo a Futuro tão promissor quanto o desenhado por George Orwell. Essa série de textos, agenciado a três mãos, se ocupa de dois momentos em que o risco ao corpo biológico urgiu por ações dos corpos políticos. Abordaremos diferenças e semelhanças importantes entre duas grandes pandemias: HIV/AIDS e COVID-19.


Nos cinco primeiros meses de 2020, o pânico viral foi migrando por entre a China, a Itália, os Estados Unidos e o Brasil. No início de junho o Brasil caminha a passos largos rumo ao epicentro da Pandemia que chegou a matar mais de 9700 pessoas em um só dia. Passamos do meio do meio de um ano que muitos dizem não contar. No interior do Ceará se diz "ano meiou, ano findou". Considerando isso, adotamos no livro-ensaio a estrutura de cartas sobre o passado daqui, para o futuro de lá.


Brasil e Estados Unidos celebram em junho as lutas, ainda em curso, e cada vez mais necessárias frente às revoluções conservadoras apoiadas por estados suicidários, pelo reconhecimento dos direitos civis de lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e queers. Muitos podem já não lembrar, mas a primeira parada, foi, na verdade, um motim - uma série de motins em Junho de 1969 na cidade de Nova Iorque, conhecidos como a Revolta de Stonewall.

Na América do Norte em 2020, as tradicionais paradas feitas pela população LGBTQ+ para celebrar seu orgulho e suas conquistas foram transformadas em eventos virtuais em função da pandemia. No entanto, muitos dos que aceitaram não se aglomerar e nem ir às ruas com suas cores vibrantes para barrar a propagação do COVID-19, montaram-se com máscaras e luvas e têm marchado para lembrar que as vidas das pessoas negras importam. Na América do Sul, os organizadores da maior parada do continente adiaram o evento de Junho para 29 de Novembro, e, na nota emitida ainda em Março, eles tiveram o cuidado de informar que essa celebração respeitará os eventos da Semana da Consciência Negra na cidade de São Paulo.


A novidade não inédita da desigualdade social – amplamente documentada como determinante fundamental na epidemiologia do HIV e da AIDS – emerge de forma cada vez mais nítida nestes tempos da COVID-19 e, além das devastações e destruições óbvias, tem produzido articulações potentes entre as carnes mais baratas do mercado - negros, imigrantes e aqueles cujas práticas sexuais desviam do papai e mamãe reprodutivo.

Em meio ao cenário de terra arrasada e noite gelada, o qual vem sendo usado ambidestramente por jogadores estratégicos na arena da política institucional para amedrontar o povo que dizem representar, há também uma vida que insiste, persiste e insiste em nascer. Dada a profusão desenfreada do medo, os autores juntam detalhes, recontam histórias e buscam visibilizar meios possíveis para sobreviver a uma praga transformando indignação em ação e dançando no campo minado.


Cartas viajando no tempo, construídas com base nas experiências e análises dois residentes do Futuro do Presente antevisto para quem hoje mora no Brasil e publicadas semanalmente ao longo de Junho como um ato de insurgência e afirmação de que é possível fazer desvios de rotas e encontrarmos com outros futuros possíveis que não esse desenhado pelo desgoverno federal. André & Mathew escrevem para Adriano sobre aquilo que experienciaram em seu Pretérito Imperfeito para aquele que está prestes a viver no Futuro do Pretérito daquilo que aconteceu em Nova Iorque.


Esse dispositivo para brincar com tempo foi agenciado por Mathew Rodriguez, jornalista-ativista-queer, editor associado da plataforma TheBody/TheBodyPro - "uma potente plataforma para atender as necessidades e interesses das pessoas vivendo com, afetadas por e preocupadas com HIV"; Adriano Henrique Caetano, sociólogo, consultor em HIV/AIDS com passagem pela UNICEF e UNESCO e hoje pesquisador associado ao Departamento de Saúde Coletiva (UFRGS), onde pesquisa saúde da população LGBT, HIV/AIDS, desigualdades em saúde e interseccionalidades; e André Luis Leite, psicólogo, mestre e doutor em Psicologia, escavador das linguagens contemporâneas de protesto, e pesquisador visitante no Programa de Educação Urbana da Universidade da Cidade de Nova Iorque.


As cartas serão publicadas ao longo dos domingos de Junho. Isso pois como nos ensinou Caio Fernando Abreu, "as manhãs são boas para tomar café e espiar o tempo". E nada melhor do que um dia de domingo para pensar no que temos feito de nós mesmos e como queremos caminhar rumo aquilo que seremos.

André, Mathew e Adriano.



Veja outros posts dessa série:

Cartas do futuro do presente: Porto Alegre,14 de junho

Cartas do futuro do presente: Nova Iorque, 18 de junho de 2020



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