• antropoLÓGICAS

Contágio: reflexões autobiográficas

Por Camila Cristina Bortolozzo Ximenes de Souza. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades - FFLCH USP


Foto: cartazes da Secretaria de Saúde e Assistência Pública do Estado da Bahia (Barreto, 1928) [1]



Vivemos, em um curtíssimo período de tempo, inúmeras rupturas cotidianas após a divulgação das notícias sobre o novo Corona Vírus e a tomada de medidas necessárias para evitar o contágio. Projetos descontinuados, vidas interrompidas, processos de trabalho alterados, distanciamentos, incertezas, e a terrível impossibilidade de previsão de como será o dia de amanhã. Aliás, haverá amanhã? Para quem?


Esse outro cotidiano, imposto pela pandemia, é muito novo em sua forma, mas traz um conteúdo incrivelmente comum: o contágio. Foi apenas depois dessa ruptura dramática provocada pelo vírus que pude voltar ao passado e pensar como o tema do contágio esteve presente em minha história.


Os piolhos, claro, foram os primeiros que lembrei. “De novo você ficou lá brincando com a Fulaninha?! Tenha vergonha na cara!” brigava a minha mãe, que me ensinava a máxima higienista do senso-comum, de que devemos nos afastar e isolar os contagiosos, por mais que sejam nossos melhores amigos.


Os “piolhentos”, como nós crianças chamávamos, eram conhecidos em toda a escola e em todo o bairro. As mães dos “piolhentos” eram igualmente conhecidas, e lhes era atribuída certa falta de higiene e amor aos filhos. Afinal, que mãe desnaturada deixaria a cabeça do filho assim, “perdendo piolhos”? Perder os piolhos, aliás, parecia um crime maior do que tê-los. E mesmo que os “piolhentos” passassem por tratamentos que lhes possibilitasse a erradicação dos indesejados moradores de seus cabelos, ainda assim levariam consigo a insígnia contagiosa e a desconfiança... “será que não pegou de novo?” “Fulana já sarou, mas não quero você brincando com ela!”


Como nasci antes do SUS, e em uma época onde famílias pobres tinham quase nenhum acesso à imunização infantil, as “doenças de criança” estiveram presentes em minha infância. Meus primos tiveram... eu e meu irmão tivemos. Sarampo, rubéola, coqueluche... éramos crianças que brincávamos juntas na rua, ralávamos os joelhos juntas, brigávamos juntas, pegávamos as doenças infectocontagiosas juntas. Éramos tratadas com as mesmas ervas, chás e benzimentos, numa época em que as Práticas Integrativas e Complementares estavam longe de serem reconhecidas pelos profissionais de saúde ocidentais, mas que eram uma ótima alternativa – e talvez a única – de acesso a cuidados em saúde para grande parcela da população.


A mais temida das “doenças de criança” era a cachumba, e os meninos eram imediatamente afastados das brincadeiras na rua ou na casa dos amigos quando a cachumba aparecia. Se um menino pegava cachumba, era colocado em repouso absoluto. Não podia sair da cama. “Porque a cachumba desce e você não vai poder ter filhos!” Numa tentativa de proteger as próximas gerações, novas restrições de contato eram impostas aos contagiosos e aos possíveis futuros infectados.


Com 20 anos tive catapora. Peguei de uma bebezinha linda de dois anos que atendia quando fazia estágio na Atenção Primária à Saúde. Já estava na faculdade e tive uma “doença de criança”. Foi um frisson na minha família. Meu irmão e primos vinham me visitar, se gabando que não pegariam, porque não eram mais criança. Resultado... alguns dias depois, meu irmão também pegou catapora, provando que o nosso método de “imunização entre primos” que pegavam as “doenças de criança” e passavam para os outros não obteve 100% de cobertura.


É bom pensar que depois do SUS e dos programas de puericultura esse “método de imunização” precário tenha se extinguido nos anos 1980/90. É reconfortante também passar pelo bairro onde cresci e ver que outros métodos de tratamento de doenças tenham se extinguido na mesma época.


Cresci em um bairro cercado por instituições totais. No fim da rua de casa havia um manicômio, que foi desmontado nos anos 1990. E, diametralmente oposto a ele, havia um leprosário, desmontado na mesma época, mas que até hoje possui moradores, pessoas que devido à ruptura provocada pela internação compulsória e pelo estigma da doença, tiveram brutalmente afetados os laços com as famílias, não conseguiram emprego ou condições mínimas de subsistência e dignidade para recomeçar a vida fora dos muros do hospital.


Entre essas duas instituições havia casas de muitos familiares de internos dos dois hospitais, de pessoas que haviam recebido alta, de trabalhadores dos hospitais e algumas outras como a nossa, que não mantinha laços com as instituições.


Nós, crianças do bairro, sabíamos quem eram os hansenianos e os doidos. Sabíamos em quais casas não podíamos deixar a bola cair, ou seja, a dos doidos, porque arrumaríamos encrenca, poderíamos sofrer com xingamentos, agressões, ou o que mais temíamos, ter a bola furada, porque eles eram pessoas imprevisíveis –


Como se nós, crianças pestinhas, tivéssemos algum grau de previsibilidade.

E sabíamos em quais casas não podíamos entrar, a dos hansenianos. Havia uma história, no bairro, que à luz do sol a hanseníase não era transmitida, então só conversávamos com eles do lado de fora das casas, e evitávamos comer qualquer coisa que nos oferecessem.


Como sabíamos tudo isso?


Compartilhando histórias mágicas e folclóricas protagonizadas por um de nós, que inventávamos sobre nossos vizinhos, movidos pelo medo, e outras trágicas histórias verdadeiras de bolas furadas que acabavam por trazer argumentos irrefutáveis para nossa “prática baseada em evidências” na lida com os vizinhos, por assim dizer.


Conhecimentos tácitos das crianças. – isso é o que pensávamos na época.


Mas, aprendíamos vendo os adultos, e vendo todo o medo e os segredos que pairavam no bairro em torno das duas instituições totais. Dali nada se via, nada se sabia, quase nada se falava e quando se entrava... Vez ou outra, um doido fugia, e lá iam os capitães do mato da saúde vestidos de branco atrás dele. Nesses dias, as crianças brincavam dentro de casa, bem trancadinhas.


As internações compulsórias já não aconteciam mais no leprosário, mas havia o medo de aparecerem manchas em locais facilmente visíveis no corpo, um verdadeiro passaporte carimbado para o confinamento. Por que arriscar, não é mesmo?


O risco das manchas era uma figura tão presente na minha família, inclusive porque faço cicatrizes hipocrômicas, que quando entrei na faculdade e estudei como se diagnosticava hanseníase, lembrei de todas as recomendações que minha avó, que estudou até a quarta série primária, fazia sobre as diferenças entre manchas de pele comuns e a hanseníase. Idênticas às que aprendi na aula. Sabia diagnosticar clinicamente hanseníase desde criança.


Havia um vizinho, em especial, que me aterrorizava. Não pelas ações dele, que eram sempre amáveis com as crianças. Ele era bem idoso, barba comprida e branca que se misturava ao bigode, magro e muito alto. Para as crianças, ele era um hanseniano. Sim, falávamos assim, hanseniano. O bairro todo falava. Sabíamos até que o hospital foi um dos primeiros no país a usar as sulfonas, sabe-se lá que bicho eram. A vantagem de se morar perto de uma instituição total-escola era que ela podia adequar o nosso vocabulário de forma politicamente correta para a época.


O homem ficava sentado numa cadeira de cordinhas plásticas coloridas, nos dias de feira, pela manhã, com um saco de bolacha Maria – as minhas favoritas – distribuindo para as crianças. Para que ganhássemos a bolacha, tínhamos de responder a uma charada: “Você sabe quando a mamãe vira peixe?”. Ora, além de passar uma doença que obriga as pessoas a viverem trancadas, ele me contava que havia uma possibilidade de minha mãe virar peixe!? Não queria saber a resposta. Lembro de sair correndo e chorando a primeira vez que ele me fez essa pergunta.


“Mãe não vira peixe! Onde se viu isso? Ele só tá brincando com você, boba! Seja educada com ele!”, me acalmava minha mãe, sem compreender o estrago que o raciocínio mágico e as explicações folclóricas do mundo produzem na mente das crianças. Havia uma certeza em mim de que aquele homem poderia fazer com que eu perdesse o que amava: minha liberdade e minha mãe.


Mas, minha paixão pelas bolachas me obrigava a passar na porta dele todos os dias. Ele me dava bolachas, eu ficava na calçada e, dia após dia, construímos uma relação que se sustentava por quem éramos, livres de mitologias. Conversávamos muito. Até que um dia ele me contou que as mães viram peixe quando ele está na frigideira. Percebi então que aquele homem não tinha poderes mágicos, não transformaria minha mãe em peixe, e que eu não havia me contaminado com a doença que eu nem sabia se ele tinha. Entendi, então, que o preconceito era mais contagioso que a própria hanseníase.


Piolhentos, doidos, hansenianos. Estigmatizados. Tão contagioso quanto os piolhos, as “doenças de criança”, a hanseníase, o estigma atravessa as relações, e, infelizmente, tem como ação prescrita isolar o outro, assim como as impossibilidades de relações a serem estabelecidas com esse outro por inteiro, e não com uma imagem folclórica pré-estabelecida, e, porque não dizer, mágica.


O medo do contágio apoia e legitima ações irracionais, cruéis, numa tentativa de autopreservação que acaba por destruir outras formas de andar a vida, emprestando os termos de Canguilhem[2], mas que nem sempre garantem nossa efetiva segurança.


O medo do contágio pelo Corona Vírus, por exemplo, tem legitimado espancamentos de trabalhadores da saúde nos transportes coletivos, a expulsão violenta de pessoas sem máscara de estabelecimentos, a compra desenfreada das medicações anunciadas como efetivas no combate ao vírus, sem prescrição médica, por pessoas que não desenvolveram a doença, entre inúmeros outros tristes acontecimentos recentes.

Mas o contágio nos obriga a mover-se e a produzir mudanças cotidianas.


Durante a gripe espanhola, minha avó paterna perdeu parte da família. Teve de começar a trabalhar em uma fábrica, com seis anos de idade, para poder sustentar os irmãos que haviam sobrevivido. Dentre todos eles, ela era a mais velha. Por conta da carga horária desumana de trabalho como operária, ela não sabia cozinhar, o que alterou a divisão sexual do trabalho em sua casa quando se casou. Era meu avô quem preparava as comidas mais gostosas, os bolos das festas, guloseimas para a hora do café... Isso alterou a criação dos filhos, onde todos, homens e mulheres, aprenderam a cozinhar, lavar, passar, costurar, entre outras tarefas domésticas. Essa herança seguiu, e eu e meu irmão aprendemos da mesma forma.


Foi também no início do século XX, durante a ascensão de Mussolini, que a família de meu avô materno se refugiou no Brasil. Ainda que o fascismo não seja uma doença infectocontagiosa, produz-se tal estado de exceção e tamanha cisão nas relações, que facilmente se consegue uma marca tão contaminante quanto as doenças, que justifica a separação entre quem pode viver e quem deve morrer. Uma certa tanatopolítica, como definiu Agamben[3], então, identifica a diversidade – dos corpos ou dos pensamentos – como doença contaminante, contagiosa e socialmente perigosa. A família de meu avô fugiu do contágio ideológico, que mesmo sem ser doença, também mata.


Assim, é em busca da vida, que os movimentos são necessários frente ao contágio, seja ele da ordem do biológico ou do ideológico, um contágio por patógenos ou por preconceitos. Um movimento de reinventar-se, ainda que a contragosto, e mesmo que esse processo seja longo e doloroso. Mas, que seja, sobretudo, um reinventar-se com o outro, na relação, poque só aí podemos abandonar as lentes do medo e do pensamento mágico, folclórico, para poder ver quando, afinal, as mães viram peixe. Resta saber que movimentos a pandemia por Corona vírus e as alterações em nossas vidas cotidianas nos exigirão daqui para a frente.


Notas: [1] In: BATISTA, Ricardo dos Santos. Educação e propaganda sanitárias: desdobramentos da formação de um sanitarista brasileiro na Fundação Rockefeller. Revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos. v.26, n.4, out.-dez. 2019, p.1198. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/hcsm/v26n4/0104-5970-hcsm-26-04-1189.pdf Acesso em 29/50/2020. [2] CANGUILHEM, G. O normal e o patológico. 6. ed. São Paulo: Forense Universitária, 2009. [3] AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua I. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002. 207 p.



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