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v2a39| COVID-19 e a (i)mobilidade acadêmica internacional

Atualizado: Jul 29

Por Leonardo Francisco de Azevedo. Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

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A experiência internacional é algo desejado e incentivado no meio acadêmico, sobretudo entre alunos de pós-graduação. No Brasil, a mobilidade acadêmica internacional é utilizada como umas principais ferramentas para internacionalização da pesquisa e cooperação científica com instituições estrangeiras. Através de bolsas de pesquisa, financiadas por agências federais, estaduais e internacionais de fomento, milhares de estudantes brasileiros vivem essa experiência cursando parte de seu doutorado no exterior, num período que geralmente vai de 06 meses a 1 ano.

Eu fui um desses que, por 06 meses, vivi em outro país. Em setembro de 2019, cheguei em Lisboa, Portugal, com um cronograma de trabalho para cumprir por todo o período que por lá ficasse. Assim como eu, centenas de doutorandos brasileiros foram para Portugal ter experiência semelhante. Por essas coincidências, construímos um consolidado grupo de amigas e amigos em Lisboa, de diferentes áreas de conhecimento, mas que compartilhávamos as dificuldades, angústias, alegrias e contratempos da experiência.

Destes, houve os que foram para ficar por apenas 06 meses, assim como eu, e houve os que foram para ficar 08 meses, 09 meses, 1 ano. Todos e todas, em suas respectivas universidades portuguesas, trabalhavam diariamente para cumprir o cronograma apresentado para a agência financiadora da pesquisa. Dentre as atividades, se encontrava a realização de trabalho de campo, entrevistas, participação em congressos, aulas e seminários.

Tudo transcorria dentro do previsto. 2019 foi como havíamos planejado. Mas não podemos dizer o mesmo de 2020. Em janeiro, começamos a ter notícias do COVID-19 na China. Em fevereiro, a situação começou a se expandir pela Europa e o receio e a espera pela chegada do vírus começou a tomar conta dos portugueses – e também de nós!

Minha volta estava prevista para o dia 04 de março. O pânico da chegada do vírus já havia se instalado em Portugal. No dia 02 de março havia sido confirmado o primeiro caso no país, na cidade do Porto. Mas já acompanhávamos, nas semanas anteriores, os casos suspeitos que surgiam país afora e o caso de um português diagnosticado com COVID-19, na última semana de fevereiro, enquanto trabalhava em um cruzeiro no Japão. Assisti na TV portuguesa o desespero da sua esposa, ao vivo, sem saber o que fazer frente a situação do marido.

Voltei como previsto, ainda sem qualquer tipo de medida tomada pelo governo português (e brasileiro). O temor que já nos acompanhava nas últimas semanas também estava presente no voo de retorno ao Brasil. Algumas pessoas usavam máscaras (ainda sem saber muito bem sobre sua real necessidade, mas que já estava se tornando um importante recurso de proteção contra o temido vírus), avisos sobre medidas de prevenção espalhadas por todo o aeroporto, e nada mais do que isso. Cheguei no dia 05 de março ao Brasil. Sem qualquer exigência de quarentena ou medida semelhante, encontrei amigos e parentes nos dias que se seguiram. Porém, em poucos dias, a situação mudou abruptamente. Meus amigos que ficaram em Lisboa não tiveram a mesma “sorte” que a minha. As próximas semanas foram tomadas por uma série de medidas de contenção do vírus no país – e no mundo. As universidades fecharam, máscaras e álcool em gel – que já estavam escassos em fevereiro, se tornaram impossíveis de serem encontrados em março, e as medidas de isolamento se tornaram regra no país.

Já no Brasil, acompanhei de longe a situação de Portugal, sobretudo através das nossas redes sociais e grupos de WhatsApp. Aqueles que previam ficar por mais tempo começaram a lidar com a insegurança do cancelamento de voos, fechamento de fronteiras e inoperância de aeroportos e empresas áreas. O medo de não conseguir voltar ao Brasil, ou de ficar doente sozinho no exterior, ou mesmo não saber o que fazer por não conseguir cumprir todo o cronograma de trabalho anteriormente previsto começaram a martelar a rotina das/dos pesquisadores/as. A CAPES, uma das principais agências financiadoras das bolsas, apresentou como alternativa o retorno antecipado ou mesmo a prorrogação da bolsa até que as coisas se “acalmassem”. Houve quem conseguiu se acalmar e aguardar (até hoje) a quarentena portuguesa. Houve os que resolveram antecipar a volta e deixaram lá todo o trabalho previsto. Houve mesmo quem, a caminho do Brasil, descobriu que pessoas com quem trabalhou em Portugal estavam infectadas e, portanto, medidas radicais de isolamento deveriam ser tomadas quando aqui chegassem.

Das várias amigas que voltaram, nada de abraços de saudade nos familiares no aeroporto ou recepções calorosas com amigos. Teve quem ficou de quarentena dentro do próprio quarto, em que a mãe e o pai não deviam ultrapassar uma barreira improvisada no meio do corredor da casa. Houve quem teve que contar para os pais as aventuras no exterior através das janelas do apartamento, mantendo a distância segura. Houve quem voltou e foi para uma casa vazia de um amigo, emprestada até que o período de isolamento fosse cumprido. O retorno, que só pela experiência de ter ficado por um longo tempo no exterior, já produziria algum estranhamento, foi ainda mais dramático.

Portugal já tem sido apontado como um caso de sucesso no controle da pandemia. Seja pela posição geográfica privilegiada, seja pelas rápidas medidas tomadas pelos governantes, seja pela obediência do povo português às regras de isolamento. Mas, para os meus amigos, pesquisadores brasileiros que ainda estão por lá, a vida não tem sido fácil. O isolamento acentuou a experiência da solidão, sentida normalmente nesse tipo de mobilidade. Trancafiados em seus quartos alugados, recorrem às ferramentas virtuais de comunicação para manter suas redes de afeto e sociabilidade. A cobrança pela produtividade e pela escrita da tese acompanha diariamente a rotina dessas pessoas. O que, em circunstâncias normais, já possui uma certa dramaticidade – viver sozinho, em outro país, produzindo novas relações e descobrindo novos lugares, ganha uma dificuldade adicional com as medidas de confinamento adotadas naquele país. Nem os recentes laços de amizade estabelecidos, das poucas relações existentes no país estrangeiro, podem ser fortalecidos pessoalmente.

O que resta a esses estudantes-pesquisadores que lá se encontram é a espera. Espera pelo fim da quarentena, espera pelo retorno ao Brasil. Mas essa não é uma simples espera, como se espera na fila do banco ou do supermercado (que lá inclusive precisa ser feita com a distância precisa de pelo menos 1 metro de distância), mas uma “espera existencial”, nos termos do antropólogo australiano Ghassan Hage. Espera essa que carrega “uma busca interminável pelo sentido da vida, mas também nos faz esperar o momento em que a espera termina”.

Referências: HAGE, Ghassan. (2009) Waiting. Melbourne Univ. Publishing.

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