• antropoLÓGICAS

v2a27| Covid-19 e a população de travestis e transexuais: reflexões iniciais

Atualizado: Jul 29

Por Gustavo Santa Roza Saggese. Doutor em Antropologia Social. Consultor de Pesquisa da Universidade da Califórnia, São Francisco e membro do Núcleo de Pesquisa em Direitos Humanos e Saúde da População LGBT+ (NUDHES)




Em janeiro deste ano, cerca de 8 meses após minha saída do Brasil, tive a oportunidade de retornar por um breve período. Já circulavam notícias sobre a epidemia de Covid-19 na China, mas os casos fora daquele país ainda eram escassos. A Califórnia, onde vivo, só foi ter sua primeira confirmação no dia 261. Nos aeroportos, entretanto, já se percebia certo clima de apreensão. Algumas pessoas – em sua maioria, de origem asiática – usavam máscaras. Na ocasião do meu retorno aos Estados Unidos, no início de fevereiro, a proibição da entrada de pessoas que tivessem viajado à China nos últimos 14 dias já havia sido decretada pelo governo Trump. A Organização Mundial da Saúde, por sua vez, declarava a epidemia uma emergência global2.

Durante a rápida estadia no Brasil, tive a oportunidade de conversar com algumas pessoas sobre o possível desenrolar da epidemia. Um amigo infectologista, que trabalhou na África durante a epidemia de ebola, relembrou os recentes surtos de SARS e MERS – esta última com uma taxa de letalidade altíssima, contida após circular por 27 países e provocar mais de 800 mortes3. Não parecia haver, contudo, uma preocupação generalizada. À época, ainda não me ocorria o impacto que o novo vírus poderia ter sobre a população de travestis e transexuais, alvo do projeto de pesquisa que estávamos por desenvolver em São Paulo.

Como alguém que trabalha há quase 15 anos com temáticas voltadas à população LGBT+ e, desses 15, os últimos 5 dedicados à saúde da população trans, acumulei algum conhecimento sobre a maneira desproporcional com que certos agravos podem atingir essa comunidade. Dados de pesquisas recentes, coletados entre 2016 e 2017 em 12 capitais brasileiras, mostram, por exemplo, uma taxa nacional de prevalência de HIV de 18,4% entre HSH (homens que fazem sexo com homens)4. Entre a população trans, por sua vez, os números são ainda mais altos, chegando a 65,3% em Porto Alegre5. Outras infecções sexualmente transmissíveis, especialmente a sífilis, também apresentam uma taxa de prevalência bem maior entre a população LGBT+ do que aquela encontrada na população em geral.

Não só agravos relacionados a infecções sexualmente transmissíveis, no entanto, afetam desproporcionalmente determinados segmentos populacionais. Nos estudos conduzidos pelo Núcleo de Pesquisa em Direitos Humanos e Saúde da População LGBT+ (NUDHES), temos encontrado um número significativo de problemas relacionados ao uso de hormônios sem acompanhamento e silicone industrial por travestis e transexuais – algo que, mesmo longe de constituir novidade, reforça a permanência de um problema ainda pouco priorizado pelas políticas de saúde no Brasil. Articulam-se a isso questões de ordem socioeconômica, como a baixa inserção dessa população no mercado formal de trabalho, o racismo, e a violência transfóbica, que faz do Brasil campeão mundial no número de assassinatos de travestis e transexuais, pelo menos até 20166.

Com o advento da Covid-19, não seria surpreendente se a população LGBT+ se transformasse, uma vez mais, em bode expiatório da propagação de uma doença, podendo vir também a se tornar um dos grupos minoritários mais duramente atingidos. Ainda que nenhum dado científico demonstre uma maior susceptibilidade dessa população à infecção pelo novo vírus, há algumas razões para temer essa possibilidade; dentre elas, o ressurgimento do estigma que a associou, desde o princípio, à disseminação da Aids nas décadas de 1980 e 1990. Outro motivo de preocupação diz respeito ao baixo acesso ao sistema público de saúde, do qual depende uma significativa maioria da população LGBT+ acessada em nossas pesquisas. Especialmente entre a população de travestis e transexuais, a baixa frequência a serviços de saúde se justifica em razão do despreparo dos profissionais em recebê-las da maneira adequada, desrespeitando seu gênero e nome social, além do pouco conhecimento sobre suas necessidades específicas. Uma travesti que chega ao pronto-socorro, possivelmente sozinha, tossindo e com febre depois de vários dias resistindo a sair de casa, para ser tratada no masculino por um enfermeiro exausto em um hospital sobrecarregado, é uma cena facilmente imaginável nos tempos que vivemos.

Ainda no que concerne à população trans, sua baixa inserção na economia formal faz com que grande parte dela recorra ao trabalho sexual como fonte total ou parcial de sua renda, o que, no contexto de uma epidemia provocada por um patógeno de alta virulência, pode ter efeitos dramáticos. Diferente do que ocorre com o HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis, o uso do preservativo – já discutível como principal estratégia de prevenção para populações em situação de vulnerabilidade – não bastará para conter a transmissão, apresentando-nos a dois cenários possíveis: no primeiro, uma taxa de infecção altíssima, provocada não só pelo contato direto entre profissional e cliente, mas também pela interação com outras travestis e transexuais, visto que comumente dividem espaços pequenos nas chamadas “casas de cafetina”. No segundo cenário, uma população ainda mais empobrecida pela impossibilidade de trabalhar e aguardando, como grande parte dos brasileiros no mercado informal, o auxílio emergencial de 600 reais7.

É claro que este texto não dá conta de todos os desfechos possíveis. Não podemos deixar de levar em conta, por exemplo, a resiliência dessa população, que a despeito de todo o estigma e do trauma coletivo provocado pela Aids, vem resistindo e continua a resistir, conquistando direitos nem sequer cogitados há poucas décadas. Também não podemos desconsiderar as iniciativas de solidariedade que surgem dentro da própria comunidade, como a Casa Brenda Lee, que no passado abrigou doentes de Aids rejeitados por suas famílias, e a Casa Nem, que vem pedindo doações para pessoas em situação de rua8. Diante do contexto atual, em que o governo brasileiro vai na contramão de todas as evidências científicas e pede que a população volte às ruas, é possível que essas redes de apoio se provem, tal como no auge da epidemia de Aids, um ponto de referência crucial.

[1] Fonte: https://www.ocregister.com/2020/01/26/coronavirus-patients-confirmed-in-los-angeles-and-orange-counties/

[2] Fonte: https://www.nytimes.com/2020/01/30/health/coronavirus-world-health-organization.html

[3] Fonte: https://www.who.int/emergencies/mers-cov/en/

[4] Fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5991534/

[5] Fonte: http://www.aids.gov.br/pt-br/noticias/estudo-traca-perfil-do-comportamento-em-relacao-ao-hiv-sifilis-e-hepatites-b-e-c-em

[6] Fonte: https://transrespect.org/en/map/trans-murder-monitoring/

[7] Pensando no impacto da pandemia, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais lançou uma cartilha com dicas voltadas a profissionais do sexo, disponível em https://antrabrasil.files.wordpress.com/2020/04/dica-profissionais-do-sexo-covid19-antra.pdf.

[8] Fonte: https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/28/nos-somos-invisiveis-trabalhadoras-sexuais-afetadas-pelo-coronavirus.htm



Photo by Sharon McCutcheon on Unsplash

338 visualizações1 comentário

© 2023 por Design para Vida.

Criado orgulhosamente com Wix.com

CONTRA A PORTARIA 34 E AS MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES