• antropoLÓGICAS

COVID-19 e Zika: narrativas epidêmicas, desigualdades sociais e responsabilização individual

Por

Luísa Reis-Castro é doutoranda no programa de História, Antropologia, Ciência, Tecnologia e Sociedade (HASTS) do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e pesquisadora da Rede Zika Ciências Sociais, Fiocruz.

Carolina de Oliveira Nogueira é doutora em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional. Pesquisadora da Rede Zika Ciências Sociais, Fiocruz.


Ilustração de Kim Salt, publicada originalmente pelo New York Times. Disponível em: https://www.nytimes.com/2020/01/28/opinion/coronavirus-prevention-tips.html



Em 24 de março, com 2.200 casos confirmados e 46 mortes relacionadas à COVID-19 no Brasil, o Presidente Bolsonaro se dirigiu à nação[1], afirmando que “o grupo de risco é o das pessoas acima de 60 anos; então, por que fechar as escolas?” Propomos aqui uma reflexão a respeito das narrativas epidêmicas[2] — enredos que vão se tornando familiar e comum, delineando a emergência, a dispersão e os efeitos de uma epidemia —, tendo como base não apenas o novo coronavírus (SARS-CoV-2) mas também a nossa pesquisa sobre Zika, um vírus apresentado como sendo transmitido somente pela picada de mosquitos e uma preocupação somente para mulheres.

Em nosso estudo[3], identificamos que embora a transmissão por fluidos corporais, principalmente através da relação sexual, seja cientificamente reconhecida, estratégias para limitar a propagação focaram no mosquito, tratando Zika como apenas mais um vírus disseminado pelas picadas do Aedes aegypti. A maioria das pessoas infectadas apresentou sintomas leves — alta temperatura, dor de cabeça, erupções cutâneas ou olhos vermelhos — ou era assintomática. No entanto, o vírus ganhou visibilidade quando problemas de saúde foram identificados em fetos e recém-nascidos, tornando-se uma preocupação para gestantes ou pessoas capazes de gestar. Para mitigar os efeitos do vírus, mulheres foram incumbidas de proteger a si mesmas e a seus (futuros) filhos da picada de um mosquito potencialmente infectado. Além disso, elas foram instruídas a evitar ou adiar a gravidez — em um país que encarcera mulheres por causa do aborto.

Ao responsabilizar apenas mulheres, localizando a reprodução (cis-heterossexual) exclusivamente dentro de seus corpos, a sexualidade e a capacidade reprodutiva dos homens estiveram alheias às narrativas e respostas epidêmicas à Zika. Esse silêncio sobre a transmissão sexual não apenas reforçou suposições generificadas de responsabilidade materna, mas também resultou em uma resposta falha e negligente, que manteve algumas mulheres em risco de infecção.

Da mesma maneira, falhas e negligentes foram algumas das respostas das autoridades brasileiras ao novo coronavírus, inicialmente visto como um problema principalmente para pessoas idosas e imunocomprometidas. Essa interpretação talvez tenha sido um dos motivos pelos quais muitos jovens desconsideraram a recomendação para ficar em casa. Alguns deles, consequentemente, se infectaram e, ainda que assintomáticos, espalharam o vírus entre aqueles que, porventura, vieram a apresentar sintomas graves ou até fatais. Além do mais, para algumas pessoas, recomendações governamentais — baseadas no protocolo sugerido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) — de se abrigar e isolar se opõem a suposições sobre liberdade individual. A estratégia de confinamento, adotada primeiramente na China, foi discutida de início como uma característica de um Estado totalitário. Contrariando a ideia de grupos de risco e respostas individuais, dados recentes mostraram que a COVID-19 pode ser grave para todas as faixas etárias. Em 28 de março, o Ministério da Saúde informou que metade dos casos graves no Brasil compunha um quadro de pessoas com menos de 60 anos[4].

Considerando o crescente consenso a respeito desse coronavírus não representar uma preocupação apenas para um grupo específico, é equivocado e catastrófico insistir em um “isolamento vertical”[5]. Essa abordagem falharia não somente em restringir as taxas de transmissão[6], como também pioraria as condições para aqueles considerados parte do “grupo de risco”. Em um sistema de saúde sobrecarregado, existe a possibilidade preocupante de que, na triagem para terapias e tratamentos, pessoas idosas e imunocomprometidas sejam desfavorecidas e não recebam os cuidados adequados, como demonstram relatórios e mesmo diretrizes da Itália[7], da França[8] e dos Estados Unidos[9], entre outros países, priorizando jovens e pessoas com uma “melhor chance de sobrevivência”. O cálculo parece ser salvar uma força de trabalho saudável (a economia, o mercado de ações) com o sacrifício de todos e de tudo[10].

Sabemos da importância do distanciamento e isolamento como forma de cuidado coletivo[11], para restringir a disseminação do vírus e mitigar os efeitos dessa pandemia. Porém, nós nos mantemos cautelosas em definir o controle da transmissão sendo apenas uma responsabilidade individual, liberando, consequentemente, os governos dos investimentos estruturais necessários.

Assim como recomendar que mulheres “não sejam picadas por mosquitos” e “não engravidem”, recomendar que pessoas “fiquem em casa” ou “lavem as mãos” tão somente contornam os problemas reais em questão: a demanda urgente por investimentos para a infraestrutura de saúde, para a testagem extensiva e para o financiamento de pesquisas que possam lançar luz sobre o vírus e os tratamentos. É bom lembrar também que focar em escolhas individuais, desconsiderando que nem todas as pessoas podem decidir sob as mesmas condições, agrava desigualdades sociais.

No caso da Zika, mulheres pobres talvez vivam em locais com maior proliferação de mosquitos e tenham maior dificuldade em acessar repelente ou preservativo. Ademais, apesar de o aborto ser um crime no Brasil, mulheres de renda média e alta, majoritariamente brancas, podem pagar pelo procedimento ilegal, porém seguro, para terminar a gravidez, enquanto mulheres de baixa renda, majoritariamente negras e pardas[12], precisam pôr em risco sua saúde e sua liberdade. No caso da COVID-19, para trabalhadores precários e informais[13], permanecer em casa é correr o risco de perder o emprego e ficar sem remuneração. Como aqueles que nem sempre têm acesso à água corrente em casa[14] ou aqueles que vivem na rua [15] podem seguir a instrução de “lavar as mãos com frequência”? Como uma pessoa pode praticar o distanciamento social em cadeias, prisões e penitenciárias frequentemente superlotadas[16]?

Mesmo considerando apenas os supostos grupos de risco, as profundas desigualdades da sociedade brasileira reforçam e exacerbam os efeitos das doenças. Mulheres pobres, cujos bebês nasceram com a Síndrome Congênita de Zika, precisam constantemente demandar seus direitos sociais e de saúde para seus filhos e para si mesmas como principais cuidadoras. Do mesmo modo, na COVID-19, mesmo entre pessoas idosas e imunocomprometidas, consideradas potencialmente mais vulneráveis, não há o mesmo risco: diferenças de renda, desigualdades nas condições de moradia e discrepâncias nas redes de apoio e nas responsabilidades familiares[17], por exemplo, influenciarão, significativamente, na maneira como essas pessoas serão afetadas pela pandemia.

É possível pensar em novas formas de definir e abordar doenças e epidemias e, em particular, em quem deveria se preocupar com elas? No caso da Zika, por exemplo, poderíamos ter implementado políticas públicas de saúde que discutissem transmissão sexual, promovessem o uso de preservativos e enfatizassem que não somente mulheres, mas também seus parceiros, devem ter cuidado para não serem infectados. Poderíamos ir ainda mais longe, garantindo testagem extensiva para Zika, e também para dengue e chikungunya, sendo que aqueles que estivessem infectados cuidariam para não serem picados por um A. aegypti, a fim de compartilhar a responsabilidade no controle da disseminação dos vírus. Afinal, o mosquito se torna um vetor somente após picar uma pessoa infectada. Considerando a justiça reprodutiva[18], ainda podemos (e devemos) garantir o direito de interromper a gravidez (em qualquer circunstância). Deve-se igualmente não só garantir que pessoas com deficiência e suas famílias recebam apoio financeiro e cuidados médicos como também assegurar que as estruturas sociais sejam adequadas às suas necessidades.

A COVID-19 amplifica o que a Zika já havia mostrado: as desigualdades de gênero, econômicas, sociais, raciais e médicas abrem caminho para a disseminação do vírus e de seus efeitos nocivos. No que diz respeito à Zika, essa disseminação foi intensificada pela impossibilidade de se proteger do mosquito e pelo silêncio sobre a transmissão sexual. Em relação à COVID-19, trata-se da impossibilidade de trabalhar em casa ou em empregos estáveis, a falta de acesso a água e sabão, a falta de renda para estocar alimentos por alguns dias, a falta de moradia adequada e a falta de casas para se abrigar e onde esperar em segurança[19]. Ambas as doenças ilustram a necessidade de políticas centradas no cuidado coletivo, com investimentos em infraestrutura, recursos e pesquisa, que garantam direitos sociais para os mais marginalizados em nossas sociedades, especialmente o acesso a um sistema de saúde universal e adequadamente financiado.

Nossa pesquisa demonstra que uma análise, a partir das Ciências Sociais, permite identificar o modo pelo qual a estratificação social classifica as pessoas "dentro" e "fora" das narrativas epidêmicas[20]. Mostramos, também, como uma abordagem que localiza vírus em certos corpos resulta em políticas de contenção da epidemia focadas em indivíduos, negligenciando questões históricas e estruturais. Tanto a Zika quanto a COVID-19 evidenciam que definir uma doença como uma preocupação individual e abordá-la como uma responsabilidade igualmente individual é uma política de saúde falha, ineficiente e negligente.


Notas:

1 https://www.youtube.com/watch?v=Vl_DYb-XaAE

2 ROSENBERG, C. E. Explaining Epidemics and Other Studies in the History of Medicine. Cambridge: Cambridge University Press, 1992. WALD, P. Contagious: Cultures, Carriers, and the Outbreak Narrative. Durham: Duke University Press, 2008.

3 http://somatosphere.net/2020/zika-epidemic-mosquitos-women.html/

4 <https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/03/28/campanha-do-governo-ignora-dados-do-ministerio-da-saude-de-mortes-por-covid.htm?utm_source=twitter&utm_medium=social-media&utm_content=geral&utm_campaign=noticias>

5 <http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2334-boletim-n-21-a-cidadania-vertical-no-brasil-o-caso-do-coronavirus>

6 <https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/04/25-dos-idosos-brasileiros-moram-com-tres-ou-mais-pessoas.shtml>

7 <https://epoca.globo.com/mundo/se-uma-pessoa-muito-idosa-grave-gente-deixa-morrer-conta-enfermeiro-que-enfrenta-coronavirus-na-italia-24317178>

8 <http://splf.fr/wp-content/uploads/2020/03/SFAR-Comite-d-ethique-Decisions-medicales-d-admission-des-patients-en-unites-de-soins-critiques-en-contexte-pandemique-26-03-20.pdf>

9 <https://www.nytimes.com/2020/03/23/opinion/coronavirus-ventilators-triage-disability.html>

10 <http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2327-boletim-n-15-a-gestao-da-pandemia-do-coronavirus-covid-19-no-brasil-e-a-necropolitica-um-ensaio-sobre-uma-tragedia-anunciada>

11 <https://diplomatique.org.br/o-distanciamento-social-como-forma-de-cuidado-coletivo/>

12 Utilizamos a categoria racial “parda” cientes do uso histórico e político do termo na lógica racista brasileira e nas políticas de “branqueamento” da população (MUNANGA, 1999). Apesar de cautelosas, consideramos que abandoná-lo contribui, ainda que involuntariamente, para o apagamento do papel (presente e passado) dos povos indígenas na formação racial do país — lembrando que esses povos têm uma presença particularmente forte (mas não exclusiva) no Nordeste e no Norte do Brasil (NUNES, 2019; OLIVEIRA, 1997).

13 <https://www.almapreta.com/editorias/o-quilombo/coronavirus-e-as-desigualdades-de-raca-e-classe>

14 <https://apublica.org/2020/03/aglomerados-e-sem-agua-lutei-para-sobreviver-ao-hiv-morrer-de-coronavirus-agora-e-morrer-na-praia/>

15 <https://www.otempo.com.br/brasil/covid-19-moradores-de-rua-seguem-expostos-a-doenca-1.2315565>

16 <https://www.cartacapital.com.br/opiniao/como-a-necropolitica-e-o-coronavirus-condenam-o-sistema-carcerario/>

17 <http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2322-boletim-n-11-pandemia-covid-19-e-as-mulheres>

18 <http://somatosphere.net/2020/abortion-zika.html/>

19 <http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2323-boletim-n-12-o-enfrentamento-e-a-sobrevivencia-ao-coronavirus-tambem-precisa-ser-uma-questao-feminista>

20 HAMMONDS, E. Gendering the Epidemic: Feminism and the Epidemic of HIV / AIDS in the United States, 1981-1999. In: CREAGER, A. N. H.; LUNBECK, E.; SCHIEBINGER, L. (org.). Feminism in Twentieth-Century Science, Technology, and Medicine. Chicago: University of Chicago Press, 2001. p. 230–244.

© 2023 por Design para Vida.

Criado orgulhosamente com Wix.com

CONTRA A PORTARIA 34 E AS MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES