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v3a23| Desafios de mulheres Trans na pandemia

Atualizado: Jul 30

Por Fernanda Bravo Rodrigues. Mulher Transexual, Cientista Social e Mestranda em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Membro do grupo de pesquisa PARALAXE.

Photo bySharon McCutcheononUnsplash



DESABAFO Eu ainda me surpreendo com a negação do direito de pertencimento às pessoas Trans, mais especificamente das mulheres trans, as quais ressaltará este texto. Diante de uma pandemia cruel que assola a humanidade eu pensava que as pessoas, em certo grau, iriam reformular sua maneira de ver e de agir no mundo, mas logo me veio a questão: de quem, supostamente, é o mundo?

Provavelmente a resposta será baseada em uma cultura Cisheteronormativa que designa a única- baseada em um binômio - possibilidade de existência: homem/pênis e mulher/vagina. Ou seja, determinação a partir dos genitais que nos destinam a fôrmas rígidas desde o nascimento sem, contudo, levar em consideração a pluralidade de identificação dos sujeitos na sociedade, e aqui nem me deterei as pessoas intersexuais de genitália ambígua que já colocaria essa primeira designação em cheque.

Porém, há quem responda que o mundo é composto por homens e mulheres, simplesmente. Como também ainda vai haver algumas mulheres que dirão: "o mundo é dos homens...." Aquela velha discussão, por sinal apropriadíssima, que é legítima diante das desigualdades, nesse caso, de gênero.

Mas bastam medidas estatais, em alguns países, a exemplo do Peru, que definem os dias para homens e mulheres transitarem em sociedade, em momentos de coronavírus , para que se perceba a invisibilidade das mulheres Trans, desde a ordem de um representante do povo que insiste em fixar o mundo ideal em azul e rosa, até ações desumanas de mulheres Cis que apontam o dedo para as mulheres Trans lhes informando que estão saindo nos dias errado. Isto é, nos dias determinados ao "feminino", pois, para elas os dias das mulheres trans saírem de casa seria nos dias apropriados ao seu destino designado ao nascimento por um genital que, portanto, nos condena ( mulheres trans) a ser eternamente homens.

Percebe- se que a discussão acerca dessa disputa identitária, em que nos deslegitimam algumas mulheres Cis, está para além do direito em dividir um banheiro, pois tal ação, ridícula diga-se de passagem, no mínimo vexatória, deixa explícito o não direito das mulheres trans em ocupar os mesmos espaços das mulheres cis em qualquer que seja o âmbito. Parece-me, numa análise simplista, que para essas mulheres Cis seria uma divisão do tipo "Feminino sagrado" X " Feminino profano" , ou no último caso, simplesmente, profano.

Quero imaginar que essas ações não tenham partido de mulheres que têm consciência da luta do feminismo por igualdade, e não por reforço de uma Cultura patriarcal/ machista que exclui dos privilégios sociais o plural. Acredito que com tantos segmentos feministas, principalmente o interseccional, que faz uma análise bem mais ampla das opressões, tal comportamento advindo de dessas mulheres cis, no mínimo, necessita ser revisto diante de que sociedade elas estão reproduzindo, pois, da mesma forma que elas excluem as mulheres trans, também são excluídas por reforçar a ideologia patriarcal, a qual nessa lógica a diminuem diante do poder do macho/homem.

Se o vírus vai mudar a forma da humanidade ver o mundo não sei, penso que mais assertivo é refletir de que mundo estamos falando, ou melhor, quem pode pertencer a esse mundo perfeitinho, pintado por pessoas com tão medíocre pensamento.

Vejo um imenso fetichismo "nesse novo mundo pós pandemia" bem excludente e repetitivo, a exemplo de outros eventos históricos que já tivemos. Um tipo de modelo que constrói o mundo "dos puros" em detrimento do extermínio de uma humanidade que, para esse tipo de pessoa, não está nos parâmetros de serem vistos/lidos/respeitados como humanos. Todavia, aos que verem o mundo de forma plural, e respeitam as diversas existências, nos cabe o grito de indignação diante de ações tão facistas e segregacionista direcionadas às (R)existências humanas.

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