• antropoLÓGICAS

Diário de uma mãe em isolamento com três filhos

Por Elaine Müller. DAM/UFPE. Pós-doutoranda PPGA/UFPB e mãe de Lourenço (11 anos) Francisco (10) e Magnólia (7). Contato: elainemuller@gmail.com



Demorei mais de um mês para conseguir rabiscar algo em um diário de campo. Estou em licença pós-doc, fazendo uma pesquisa sobre a adultez em torno de 40 anos (minha idade). Escrevi no plano de trabalho que iria registrar “os momentos de ocorrências pessoais que interfiram na pesquisa, seja na maneira como sou referida no trabalho de campo, de acordo com minha idade, seja quando atribuições de minha vida de adulta estiverem presentes me exigindo mais tempo e dedicação, ou ainda quando eventos próprios de minha idade ocorrerem”. Pensei em alguns exemplos que são mais do que atropelos na vida de uma pesquisadora, pois falam diretamente desse momento do curso da vida que eu atravesso: “em cuidados de saúde, no cuidado de outras pessoas pelas quais sou responsável ou com quem mantenho vínculos afetivos; penso em paixões, encontros, novos interesses, aprendizados; etc. uma infinidade de eventos e afetos que podem impactar na realização, ou não, da pesquisa”.


Parecia-me bem maduro incorporar esses imponderáveis numa pesquisa etnográfica autorreferenciada, como a minha. Eu só não imaginava que atravessaríamos uma pandemia mundial, que colocaria pessoas de todos os lugares em quarentena em suas casas.


Foram quatro semanas cuidando apenas da “sobrevivência”: onde comprar comida, estabelecer protocolos de limpeza (limpeza não: desinfecção), que limites traçar com as crianças, como acompanhar a vida de meus idosos no outro canto do país, como espairecer, como matar saudades… E a libido? Hoje tem! Tem louça pra lavar, roupa pra dobrar, chão pra limpar, três refeições para preparar e filhos que me visitam na minha cama toda noite.


Mãe em isolamento tem dificuldade de se isolar pra ter privacidade, mas não consegue encontrar amigas, rede apoio e muito menos arrumar um crush… É um tempo de solidão materna, e tenho repetido diariamente o quanto seria importante para mim conseguir ouvir um pouco mais o meu pensamento.

[áudio de gravação de som ambiente captado durante uma tentativa de trabalho]

São três filhos. Tem dias que eles moram na internet e me visitam nas refeições. Comecei a regular melhor isso, mas ainda assim é muito mais tela do que qualquer especialista julgaria saudável. Só que lá fora também não está saudável, e vitória de mãe solo de três crianças, nesses tempos, é vê-los rindo juntos, nem que seja de Felipe Neto e Luba TV, é vê-los interagindo, nem que seja ensinando a menor a jogar Fortnite.

Na última semana, comecei a reparar melhor em como eles estavam construindo a sua própria leitura sobre a pandemia e os riscos que corremos. Fiz algumas anotações:

13/04/2020 – Magnólia vê um musgo verde e arredondado no batente da janela


- Mamãe, olha os coronavírus querendo entrar na nossa casa! (risos)


Foto: Elaine Müller


15/04/2020 - Lourenço conversando com um amigo pelo chat do PlayStation:

- Começou essa história de coronavírus e eu achei “não vai dar nada pra gente”. Aí chegou em São Paulo e eu pensei: “pelo menos a gente não tá em São Paulo”. Aí: “coronavírus em Pernambuco. Fudeu!”


Foto: Elaine Müller

16/04/2020 - Chicão e Magnólia escutam o homem da macaxeira passando gritando: macaxeeeeira!)

Chicão: “o homem da macaxeira não para de vender coronavairus”

Mag (no ritmo do “macaxeira” do homem): “é assim: coronavaaaairus... coronavaaaairus...”

17/04/2020 – Mag se aproxima da janela e respira o ar mais fresco da manhã nublada:

- Ah, que ar fresco… cheio de corona!

17/04/2020 – Convido as crianças para descermos e pegarmos um pouco de sol no condomínio

Mag – lá fora? Mas é perigoso!

18/04/2020 – Fiz algumas compras pelo serviço de entrega do supermercado do bairro, enviei o pedido na madrugada de terça para quarta-feira. Era sexta-feira, e as compras ainda não haviam chegado. Já tínhamos passado três dias com “comida de guerra” e todos queriam algo pra lanchar. Mag resolveu assumir o protagonismo na conversa com o supermercado:


Mag: “Arcomix cê tá de brincadeira com a minha cara, eu sou criança e estou com fome”

Incluiu uma foto com emojis das comidas que estava aguardando, e um áudio para comprovar que era uma criança faminta falando.








[áudio: msg para supermercado]




Aos poucos as crianças vão expressando as preocupações com a doença, especialmente com a possibilidade da mãe adoecer e morrer. Preciso garantir-lhes que não sou grupo de risco, não sou idosa nem tenho problemas de saúde. Que vou sair de máscara pra ir na padaria. E arrisco deixa-los sozinhos em casa por 20 minutos para comprar um pão francês, porque o pão com fermentação natural que estou aprendendo a fazer ainda não está aquilo tudo.


Vamos todos dormir mais tarde que o normal. Me pedem pra ficar na cama deles um pouco. Depois das 22 horas eu já queria ter uma vida além da materna. Um pouco de entorpecimento, pra se desligar da curva. Tem dias que não é nada fácil segurar essa curva.


Foto: Elaine Müller

[17:49, 17/04/2020] Lia Aliane: Tem live nenhuma hoje não?


[11:09, 18/04/2020] Ela M: Beeem assim, Rosa. Meu sentimento. A quarentena virou esse doméstico do avesso e ele está visível nas reuniões, nas lives, nas queixas e nas descobertas... Resta saber: qdo o público voltar a alguma normalidade, como ficará esse privado? Tb tenho minhas dúvidas sobre mudanças estruturais, a boa nova é que nunca estivemos tão inclinados a pensar a respeito. Estou achando ótimo ver amigos homens falando do cansaço com o trabalho doméstico e o cuidado dos filhos...


* E terminamos mais um dia de isolamento social. Várzea, Recife, madrugada de 19/04/2020 *




© 2023 por Design para Vida.

Criado orgulhosamente com Wix.com

CONTRA A PORTARIA 34 E AS MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES