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diário na pandemia 2

Atualizado: Abr 28

Por Tátia Rangel. Psicóloga, Psicomotricista, Mestre e Doutoranda em Psicologia (UFF).

ouço uma gota, da torneira ou do chuveiro, não sei. gostaria de ter uma banheira. se ela existisse gostaria de tomar banho de sais com muita espuma, uma taça de champanhe, e alguns morangos. gostaria de várias outras cenas. poderia estar na banheira acompanhada, sendo despida pelos olhos de outro alguém, poderia ser um momento sensual. poderia. a goteira continua. aumento o volume do som, não sei bem qual música toca, mas tento fazer dela um silenciador. imagino outra cena. a água do rio a fazer um barulho diferente que estou a confundir. tudo bem. é o rio, nunca o mesmo, sempre indo, seguindo. em gerúndio. a goteira continua. gostaria de tomar café. poderia ser no bistrô botânica, poderia ser no boteco da esquina. vou à cozinha fazer um café. fico a olhar para o fogo, espero calmamente que a água ferva, o cheiro do café exala pela casa, há calor. em minutos tudo fica diferente de segundos atrás. forte e amargo. gosto assim. seguro a caneca nas mãos, um calor-contato que me aquece o pensamento. por instantes sinto o silêncio. algo acontece, me acalmo. a goteira continua. imagino como seria tomar café na banheira, com sais, espuma e beijos sabor de café. uma cena que em segundos se transforma. beijos mais intensos, respiração ofegante, corpos molhados com sais, espuma e desejo. a vida pulsa na cena, na banheira, na carne. a goteira continua. me levanto, lavo a caneca, decido ir até a sala, de lá busco alguma imagem pela janela. nela me debruço. uma viagem de trem, paisagem andina, montanhas ao lado, rio lá longe como se fosse um fio de águas geladas. descanso os ouvidos. olho para o outro lado da janela, vou ao lago com um vulcão ao fundo, aquela imensidão tranquila, dizem que são mais de duzentos metros de profundidade, e lá não vive nenhum peixe, água parada pouco oxigênio. a goteira continua. nunca fui verificar tal informação, não precisei dela, aquela magnitude criou imagens-poemas nos meus olhos, nada precisava de veracidade, é sensação. meu olhos lacrimejam, talvez um lubrificar da visão. o despertador toca, é preciso voltar ao virtual. chamada online: trabalho, estudo, reunião. no computador: fique em casa. lave as mãos. use álcool. mantenha distância. respiro fundo. a goteira continua.

janela, 09 de abril de 2020.

Foto: Tátia Rangel


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