• antropoLÓGICAS

v3a17| diário na pandemia 4

Atualizado: Jul 30

Por Tátia Rangel. Psicóloga, Psicomotricista, Mestre e Doutoranda em Psicologia (UFF).

andar de um lado para o outro, sentar, cozinhar, ler, pensar, faxinar, observar, será possível parar? tanta coisa e nada. tanto de nada que até parece muito. me lembro da música do Gil que fala que o copo vazio esta cheio de ar. penso que essas paredes vazias estão cheias de ar, de lembranças, de tantas coisas, se elas falassem, o que diriam? na mesa alguns alimentos, no estômago fome de alguma outra coisa, no pensamento vontade de fuga. imagino uma confeitaria em Paris, doces como obra de arte. ou o pastel na feira da General Glicério. pode ser o bacalhau com broa feito por um amigo no Porto. ou mesmo o bolo de manteiga da infância feito por minha avó. recordo o cheiro de pão saindo do forno, a farofa de cebola da Irene, ou mesmo o feijão do Diogo. imagens-sabores-aromas. em segundos fui longe no tempo e no espaço. desbravei acontecidos como um cardápio, daqueles que tudo é tão interessante que se torna difícil fazer uma escolha. deparo-me com a realidade. reduzo o olhar. uma névoa embaça a vontade. gostaria de outro lugar, gostaria de tantas outras coisas. como afirmar o que tenho agora? o que posso agora? tanta coisa e nada. tanto de nada que até parece muito. essas paredes que não se movem. o espaço é pequeno para a vontade. uma lágrima escorre no rosto. de algum modo as águas das emoções voltam a circular. descanso no choro. alguma coisa vai dando sentido para esse momento, esse espaço. tudo parece distante e impreciso. no dia em que nada fez um grande sentido, e a vida pareceu ser tudo diante do nada.

cozinha, 23 de abril de 2020.




Foto: Bruno Amaral


Veja posts anteriores da mesma autora em Diário na pandemia 1; Diário na pandemia 2 e Diário na pandemia 3

273 visualizações

© 2023 por Design para Vida.

Criado orgulhosamente com Wix.com

CONTRA A PORTARIA 34 E AS MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES