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v3a41| Diário na pandemia 5

Atualizado: Jul 30

Por Tátia Rangel. Psicóloga, Psicomotricista, Mestre e Doutoranda em Psicologia (UFF).

o tempo passou a ficar esquisito, um dia parece enorme, mas durante a madrugada quando o revejo, não encontro nada que tenha realizado de fato. encontro muitas partes. incompletude. quero dizer que encontro o nada. mesmo vasculhando ao acordar. o voltar para cama várias vezes ao dia, a sala, a cozinha, mesmo realizadas atividades domésticas e profissionais. nada. não fiz nada. mais um dia se passou.

não gosto de contar dias, muito menos de cobranças, menos ainda da ideia de falta. mas então, o que estou tentando achar no tempo de um dia? não sei responder. na verdade, odeio respostas, sempre fui adepta das perguntas. adoro a ideia de descobrir perguntas nas perguntas. ficar olhando para elas, até mesmo flertar com a interrogação, sem pretensão de outro encontro. talvez não tenha que ter resposta mesmo. nem é uma pergunta. apenas uma busca, tantos encontros no tempo de um dia. essa novidade ainda não foi entendida pelo meu corpo. gosto de movimentos livres, quero dizer, sair de casa para trabalhar num café, sem garantia dos encontros ou do caminho, passar horas lendo, escrevendo, e ao considerar-me cansada, sair andando. de repente entrar num cinema, na sessão que estiver por começar, e descansar. ao sair conversar com a pessoa que estava ao lado, sentar e tomar um café. seguir. voltar a trabalhar. encontrar conhecidos pelo caminho de volta pra casa. encontrar uma amiga e resolver comer alguma coisa, colocar o papo em dia. tantas coisas sem planejar no tempo de um dia. a rua nos coloca em outra relação com o tempo, os ruídos, outros medos, tantas coisas que é bobagem querer saber de todas. a rua é viva. por mais que saibamos o caminho que precisamos fazer para chegar ao lugar que precisamos chegar, não podemos garantir “como” se apresentará esse caminho. já do quarto para a cozinha, não consigo mais enxergar o corredor. o espaço já está delimitado na memória, menos hormônios circulando, adrenalina então?!? a não ser que ligue a tv, mas isso não é adrenalina, é raiva, ódio, qualquer coisa que corrói o fígado, a alegria. o que quero falar é do frisson de olhar pessoas que não faço ideia de quem são, trânsito que não anda, o não saber se vamos chegar ao destino, se vai chover e não tenho guarda-chuva… a rua ... será quando irei, iremos, estar nela nos ocupando dela? por hora, álcool, máscara, medo. olhos alertas, óculos embaçados. corpos tensos. há os que brigam contra máscaras, distanciamentos. há gente de todo modo. todos os tipos. assim como de tantas outras coisas, não vou dar conta delas. adormeço.

outro dia, brigar para levantar da cama. fazer coisas da casa. trabalhar online. responder e-mails, mensagens, fazer algumas pesquisas, notícias, memes... parece forçado ser outro dia. há continuum. há problemas, muitos. mas olho para eles e deixo para depois. não tem uma urgência do olhar de alguém esperando por minha reação. posso responder depois. odeio ter que responder. será que tenho? isso cansa. a palavra que mais digito e leio é cansaço. até pensei tomar algumas vitaminas. mas não é esse cansaço. tem esse também, mas o que incomoda mesmo, é essa ideia nebulosa do mesmo. mesmo sabendo que não é igual, parece o mesmo. um dia após outro.

o tempo que dura um dia. o tempo que o relógio mostra. o tempo de espera que algo aconteça. o tempo que não sabemos mais quando será, se é que será, como já foi num tempo antes.

outro dia. acordo de um sonho louco, estava assustada por não estar de máscara (será preciso sonhar de máscara?!?). melhor voltar para cama, correr atrás do sonho, e de lá, olhar para a vida. sem perguntas ou respostas. quiçá queixas. apenas olhar para o céu, para o chão, para as mãos, os pés, olhar a rua da janela (tanto dos olhos quanto da casa), e sorrir, pois o mundo esta a lutar pela vida. e eu? cá estou a respirar. inclusive, respirando para não pirar.


casa, 23 de maio de 2020.

©Salvador Dali - The Persistence of Memory 1931

Veja posts anteriores da mesma autora em:

Diário na pandemia 1; Diário na pandemia 2, Diário na pandemia 3 e Diário na pandemia 4

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