• antropoLÓGICAS

v4a11| diário na pandemia 6

Atualizado: Jul 30

Por Tátia Rangel. Psicóloga, Psicomotricista, Mestre e Doutoranda em Psicologia (UFF).



o dia amanhecia escuro e frio, levantei para espiar o que acontecia em casa antes do sol nascer. a cozinha tinha o piso de cimento, fogão à lenha, telhado baixo sem forro, uma janela fechada por gambiarras, paredes pintadas com cal, bancos e mesa de madeira. você sentada em frente ao fogo debulhava amendoins para depois torrá-los. sentei-me para ajudar. com pouco esforço, pois estava ocupada em degustar a cena. meus pensamentos viajavam em perguntas. tudo ali parecia ser tão grande. a sensação era que em cada canto havia algo escondido - segredos pelas frestas. enquanto você falava, meus olhos viajavam em seus cabelos brancos, seus dedos sacrificados, sua pele enrugada, suas manchas … o sol começava a aquecer. abri um bocadinho da porta para ver a neblina, gostava de enaltecer o não ver do quintal. a vida do lado de fora começava a se agitar, as criações, como você gostava de falar, já estavam a pedir comida. mas antes tomamos café, nós duas, só nós duas. tinha pão, um restinho de queijo guardado para um momento especial, esse é um momento especial, você divide seu queijo comigo. fomos cuidar das criações. varrer o quintal. perco a noção do tempo. voltamos à cozinha. mais um pouco de café, você me diz que vai lavar roupa no tanque, e minha tarefa será regar as plantas. colocou roupas para quarar ao sol. já era hora de preparar o almoço. mais um dedo de café, e você com toda calma me diz: está pronta para aprender a cozinhar arroz?!? nem acreditava nos meus ouvidos. começamos lavando o arroz, depois o deixamos escorrendo. enquanto isso, amassamos o alho na panela, colocamos um pouco de óleo, você dizia: o segredo é mexer o alho, ele tem que ficar dourado e cheiroso. é preciso sentir quando é hora de colocar a água fervendo. fiquei nervosa. não sabia como era isso. fiquei olhando para o arroz até sentir, e um cheiro me trouxe a resposta: é agora! aquele som da água fervendo caindo lentamente no arroz é inesquecível. olhei para você, sorria e me dizia: muito bem, agora é esperar o arroz ficar pronto. fiquei velando o arroz. precisava ver o que acontecia. você me olhava pelo canto dos olhos, um sorriso maroto. era tão simples para você fazer um arroz, e para mim, uma grande lição.



os dias se vão num tempo próprio, e ao mesmo tempo parecem não sair do lugar. hoje não serve de modelo para amanhã. acredito. podemos compor amanhã com um ano passado misturado com o próximo mês. criar soluções é necessário. há sol, chuva, neblinas, nuvens, tempestades. há muito e pouco. mesmo com tantos absurdos lá fora, há vida lá e cá. criar soluções é necessário. mais um dia de vida diante da morte. trágico. números: casos recuperados, casos confirmados, óbitos.

vidas reduzidas no feed. preciso respirar. respirar.



hora do almoço. no preparo do arroz acrescento: afetos passados, presentes e futuros, um pouco de ousadia, uma generosa quantia de alegria, um tanto de calma, e muito espaço para criações. escolho memórias para colorir mais um dia.

e assim, já se faz noite amanhã. um outro tempo se anuncia em criações. cheio de fome, sede e coragem. afirma a vida, e inventa caminhos entre o que quer e o que pode.



cozinha, 25 de maio de 2020.



Veja posts anteriores desta série em:

Diário na pandemia 1; Diário na pandemia 2, Diário na pandemia 3,

Diário na pandemia 4 e Diário na pandemia 5


237 visualizações

© 2023 por Design para Vida.

Criado orgulhosamente com Wix.com

CONTRA A PORTARIA 34 E AS MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES