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v5a22| diário na pandemia 8

Atualizado: Jul 30

Por Tátia Rangel. Psicóloga, Psicomotricista, Mestre e Doutoranda em Psicologia (UFF).


Foto: Tatia Rangel



andava por aquelas ruas sem destino determinado, ocupava-se de descobrir a cada esquina para qual próxima curva seus pés desejariam seguir. sem determinações, entregue às descobertas da experimentação. um café, um cigarro, uma pausa. sem pressa com o futuro, existindo. um olhar. outro olhar. um desbravar de caminhos naquela tarde se desenhou - uma cena - a mulher que lê. a mulher que escreve. se olham com delicadeza. uma contempla o vento tocando sua pele. a outra mergulha nos breus humanos. parecem estar em distantes tempos, mas coexistem. comungam da fabulação. criar a si, criar uma história. criações ininterruptas. uma ocupada com o amor. a outra com o existir. sentem a diferença de suas temperaturas no modo como estão a caminhar. uma apressada. a outra em desaceleração. suas vidas moldam o retrato. suas marcas nos sugerem suas dores. ocupam o que lhes permitem ocupar. sem interpretações. existem. suas metades se misturam com o ar, com a magia, ...



uma manhã de sol morno, vento suave. pernas para cima, corpo entregue ao balanço da antiga cadeira. ao fundo sons de pássaros, vento nas árvores, pessoas falando, ruídos da cidade, da máquina de lavar roupas, ruídos de seus pensamentos. ao longe uma saudade. perto uma busca. encontra-se com a folha vazia. lembra-se do copo cheio de ar. olha para ontem para ver o amanhã. espera. deixa os dedos deslizando pelas letras do teclado. algo a interrompe - lembranças. aquele quarto cheio de memórias. resquícios de tempos vividos. algumas tristezas. algumas alegrias. a magia da vida. ininterruptas criações - vida.

alguma coisa se torna urgente. caminha. de lembrança em lembrança, precisa criar o agora. olha para a porta, as janelas, os corredores, o banheiro, a cozinha. despede-se na emoção de quem parte. olha para a rua, para a estrada, para os caminhos. os saúda como quem chega à outra cidade.

acorda.

sem saber se foi sonho ou realidade. história ou lembrança. mas sente que algo deslocou. andava por aquelas ruas sem destino determinado, ocupava-se de descobrir a cada esquina para qual próxima curva seus pés desejariam seguir. sem determinações interpretativas, entregue às descobertas da experimentação. olha para a folha vazia. lembra-se do copo cheio de ar. olha para ontem. vê o agora.


do lado de fora, 25 de julho 2020.





Veja posts anteriores desta série em:

Diário na pandemia 1; Diário na pandemia 2, Diário na pandemia 3,

Diário na pandemia 4, Diário na pandemia 5, Diário na pandemia 6, Diário na Pandemia 7.



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