• antropoLÓGICAS

Envelhecimento e a Pandemia do Coronavírus

Por Simone Pereira da Costa Dourado. Professora da Universidade Estadual de Maringá

[Quando isso passar não teremos mais anciãos na Itália. Não são só velhos, são entes queridos que os jovens rebeldes e inconsequentes ajudaram a matar.]

Em 18 de março de 2020 ouvi coisa assim em um desses áudios que nos chegam todas as horas pelas redes e aplicativos. Coisas faladas por quem nem conhecemos sobre a conjuntura atual. Nos últimos dias a Itália ocupa os noticiários como exemplo de país europeu que não fez o trabalho de casa no combate a pandemia de coronavírus e sofre como nenhum outro as consequências, registrando muitas mortes, sobretudo, de idosos. Depois, em 19 de março de 2020, as notícias foram ainda piores. A Itália era manchete no mundo por ter superado a China em número de mortos. O registro era de que, em 24 horas, chegou-se a ter 427 mortes, elevando o número total para 3.405 pessoas acometidas pelo vírus. Em 20 de março de 2020, a tragédia se agrava: mais 627 mortes em um único dia. Em 21 de março, os jornais anunciavam da seguinte forma a situação italiana: “outro recorde”, 793 mortes na Itália por coronavírus, em um único dia. No dia seguinte, 22 de março, as mortes nesse país começam a desacelerar, caem para 650. As imagens são desoladoras: um país na beira do caos, sem condições de cuidar de seus doentes e sem estrutura para enterrar seus mortos. Os velórios foram proibidos. Sabe-se que quase a totalidade das mortes ocorre entre aqueles que estão acima dos 70 anos, tem alguma doença crônica preexistente e são do gênero masculino.

As ciências sociais, particularmente a teoria social cunhada por Karl Mannheim, parecem úteis para refletir que a pandemia evidencia a necessidade do recorte geracional para compreender a atual conjuntura. Também colabora para o entendimento desse cenário os estudos sobre a feminização da velhice e a descoberta de que ela vem sendo mais tranquila para as mulheres, inclusive em situações dessa natureza.

Observe-se os dados fornecidos pelo Instituto de Estatística Italiano: Em 2019, na Itália, existia 168,9 pessoas com mais de 65 anos para cada grupo de 100 jovens e crianças com menos de 15 anos. A expectativa de vida para mulheres era de 85,3 anos e para os homens 81 anos. A população com 65 e mais anos perfazia 23,1% da população total do país, que era de 60.359.546 pessoas. A Itália tinha, portanto, 46.476.850 não idosos. A população de 0 a 14 anos era 13% e a população de 15 a 64 anos, 63,9%. A Itália é, também, o país da comunidade européia com o maior número de idosos.

O problema sociológico que envolve as gerações, no caso da pandemia de coronavírus, pode ser exemplificado com o que ocorre na Itália, mas não só lá. Há percepções da vida pública que são elaboradas de forma diferente pelos distintos grupos geracionais e são perceptíveis as escolhas do poder público em relação ao que fazer e como pensar os grupos geracionais, particularmente os grupos de idosos, diferenciados a cada 10 anos - a partir dos 65 anos de idade, no caso europeu, e a partir dos 60 anos, no Brasil e em outros países em desenvolvimento. Os idosos são o foco das maiores preocupações. A pandemia atualiza e confere cor às percepções da velhice como uma fase de perdas e custos.

Visões estereotipadas sobre o envelhecimento, que foram confrontadas por diferentes ramos do conhecimento, são atualizadas por agentes públicos, pela mídia e nas redes sociais quando o assunto é prevenção contra o coronavírus.

O debate sobre a pandemia estabelece uma permanente atualização das visões sociais do que é a velhice, como se vive essa fase da vida e quem é o velho que reiteram a seguinte perspectiva: é aque le indivíduo que saiu da esfera produtiva, que se tornou um custo social, que é resistente e conservador em relação aos seus costumes e modos de vida. Um jogo de espelho que automaticamente nos conduz a pensar o que é a juventude, como ela pode ser vivida e quem é o jovem.

O áudio a que faço referência atualiza uma das visões mais correntes sobre a juventude: inconsequentes. Diferentes meios de comunicação reproduziram a fala de Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor geral da Organização Mundial da Saúde, que chama a juventude mundial a fazer sua parte e lembra que os jovens não são “invencíveis” e, se não sofrem tanto com os efeitos da doença provocada pelo corona, devem ter a responsabilidade de não repassarem aos mais frágeis o vírus.

No meio de tudo isso, como ensina Karl Mannheim, é possível visualizar as relações de reciprocidade desses diferentes grupos com a sociedade e as interações possíveis entre eles. Contudo, o coronavírus interpôs uma situação de antagonismo geracional que não foi refletida por Mannheim porque ela tem a ver com um cenário sociodemográfico muito atual: em um mundo no qual a expectativa de vida se ampliou tanto, a contemporaneidade entre os grupos dos que têm 60, 70, 80 e mais anos com aqueles que têm 20 e 30 anos provoca, diante de crises como a que percebemos, conflitos quase inconciliáveis. Observamos processos acusatórios e de responsabilização de um grupo sobre o outro e, também, o vigor de uma lógica própria dessa conjuntura: a juventude pensada a partir da sua inexorável chegada na velhice. Adiciona-se a necessidade dos mais jovens pensarem na velhice e em sua responsabilidade atual e imediata de responder pelos mais velhos e pela saúde de todos.

As acusações de um grupo sobre o outro e da sociedade contra todos indicam que a diferença está assentada, sobretudo, na adoção de estilos de vida muito distintos por esses dois grupos geracionais que dividem, como ensina Mannheim, um mesmo contexto histórico, político e social. Em sociedades muito aceleradas, de grande opulência e muitas oportunidades, como pedir a juventude que suspenda a sua vida pública? A mesma questão se coloca aos mais velhos: quem chegou aos 60 e mais anos nas sociedades atuais, principalmente no continente europeu, viveu os horrores da segunda guerra mundial quando estava entrando na juventude, passou pela experiência da escassez e muitas vezes de forma compulsória foi levado a assumir brigas que não eram as suas. Esse grupo se considera, em grande medida, sobrevivente de um dos maiores desastres que a humanidade passou, como convencê-los que há algo que pode ser bem pior, principalmente para eles, e pedir que se retirem da vida pública?

Há subentendido na questão da pandemia, ainda, uma certa inversão dos cuidados e proibições: quem deve cuidar dos mais velhos são os mais jovens e quem deve ser proibido dos trânsitos são os mais velhos. Por sua vez, o resgate de algumas palavras para se referir aos grupos dos mais velhos também merece uma análise de sua carga simbólica: ancião era um termo usado para falar sobre aquele que tinha sabedoria e reconhecimento social advindo de sua experiência, da sua vivência. Nas nossas sociedades ocidentais modernas e, também, em outras sociedades se referiam aos mais velhos assim. Era uma forma respeitosa e de reconhecimento de um saber, de uma distinção. Aos poucos, nós ocidentais, trocamos o termo ancião por idoso. O idoso, a pessoa idosa, passou a ser aquela com 60 e mais anos que é portador de direitos, que contribuiu socialmente, mas que, quase sempre, ocupa um outro lugar: o da inatividade. Há, ainda, o termo velho, associado a algo pejorativo e politicamente incorreto por indicar que o que está velho pode ser descartado.

Em vários momentos, nos últimos dias, a questão girou exatamente em torno de quem pode ser descartado. No mundo inteiro, o descarte parece recair nos grupos considerados improdutivos e custosos aos estados e as sociedades: idosos e pobres.


Photo byCristian NewmanonUnsplash


Texto originalmente publicado em: https://espacoacademico.wordpress.com/2020/03/24/envelhecimento-e-a-pandemia-do-coronavirus/

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