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v3a30| "Estou aflito com as faltas que causam esta epidemia" - Entrevista com Wagner Schwartz

Atualizado: Jul 30

Entrevista por: Tatia Rangel, Frederico Machado e Vitor Grunvald. Equipe editorial AntropoLÓGICAS Epidêmicas.


Foto © Masayasu Eguchi



P. Você poderia iniciar nos contando um pouco sobre sua trajetória pessoal e profissional.


Nasci em 1972, no município de Volta Redonda, Rio de Janeiro. Fui alfabetizado por minha mãe, na escola criada por ela em nosso quintal, enquanto meu pai trabalhava como segurança da Companhia Estanífera Brasil. Quando criança, participei da Banda de Concerto e Coro Infanto-Juvenil regida pelo maestro Nicolau Martins de Oliveira e pela maestrina Sara Higino na Escola Municipal Bahia. O Cine 9 de abril, o Teatro Gacemss, os recitais de música erudita no Escritório Central fizeram parte de minha adolescência na Cidade do Aço. Fui membro da Igreja Presbiteriana. A doutrina protestante fazia parte da agenda educacional de meus pais. Em 1993, migrei para Uberlândia, Minas Gerais. Ingressei na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Uberlândia. Estudei e pratiquei as várias classificações e gêneros de dança também nesta cidade. Participei das edições anuais do Festival de Dança do Triângulo, momento em que conheci a maioria dos artistas e pensadores que acompanho até hoje. Em 1999, fui selecionado pelo programa Rumos Dança Itaú Cultural em sua primeira edição, e, a partir de minha passagem por São Paulo, fiz conexões com artistas da dança em todo o país. Em 2003, fui selecionado mais uma vez pelo mesmo edital. Com a bolsa, viajei a Paris para conhecer o circuito de dança contemporânea local e criar Transobjeto. Este trabalho me ajudou a transitar por festivais no Brasil e no exterior. Em 2004, durante o Festival Panorama, no Rio de Janeiro, o coreógrafo francês Rachid Ouramdane me convidou para participar de sua nova criação e, a partir de 2005, passei a viver em Paris, Berlim e São Paulo. Hoje, moro na França e no Brasil.



P: Após essa introdução mais geral sobre sua trajetória, gostaríamos que você falasse sobre um evento que, certamente, marcou sua trajetória tanto artística quanto pessoal. Referimo-nos à performance La Bête que você realizou no Museu de Arte Moderna de São Paulo por ocasião do 35º Panorama de Arte de Brasileira (2017). A performance causou bastante polêmica a partir da divulgação de um vídeo no qual se via uma criança acompanhada por sua mãe a tocar seu pé. Você poderia nos contar um pouco sobre como foi essa repercussão e quais as suas consequências? Que tipos de perseguição e coerção você sofreu a partir disso?


A repercussão de La Bête está registrada na mídia, no corpo e na voz de cada pessoa que viveu comigo aquele momento onde o absurdo, a notícia falsa, se tornou verdade. Dei entrevistas para jornais, programas de TV e rádio no Brasil e no exterior com o intuito de problematizar os acontecimentos que tiveram início no dia 28 de setembro de 2017. Todas as matérias que recuperaram a performance esteticamente e politicamente estão registradas na minha página oficial: www.wagnerschwartz.com/la-b-te



P: Essa polêmica influenciou sua decisão de ir à Paris?


Esta polêmica me obrigou a sair do Brasil. Eu não tive direito à proteção policial, mesmo que muitas pessoas se sentissem (e ainda se sintam) no direito de me ameaçar. Sou atacado até hoje. Nesta manhã, por exemplo, fui insultado através de uma mensagem privada via Facebook. Muitas pessoas se sentiram (e ainda se sentem) no dever de me atacar porque um conjunto de políticos de direita e extrema-direita utilizaram sua notoriedade para distorcerem publicamente o que eles não haviam visto no Museu de Arte Moderna em São Paulo. Permanecer no Brasil durante o período mais intenso dos ataques teria sido perigoso. Eu tive a chance de ter um segundo endereço.

P: Atualmente, no Brasil, a arte tem sido usada para criar um pânico moral que gira em torno de uma série de acusações que vão desde a depravação de valores ditos tradicionais até incitação à pedofilia. Sabemos que a criança em questão era filha de Elisabete Finger, sua amiga pessoal. Você poderia nos contar também sobre as consequências – jurídicas, inclusive – que sua amiga teve que enfrentar por conta da polêmica? Artistas engajados constroem argumentos contra qualquer discurso moralizador. Nosso trabalho aborda questões que os políticos impacientes pela autopromoção no círculo dos super-ricos, da família tradicional, podem capturar, manipular e atacar. Elisabete sofreu pressão pública, foi vítima de linchamento virtual, prestou depoimento na 4ª Delegacia de Repressão à Pedofilia de São Paulo e também foi convocada para uma oitiva da CPI dos Maus-tratos presidida pelo então senador e pastor neopentecostal Magno Malta.



P: Qual foi o papel das mídias sociais e digitais nesse imbróglio, com sua enorme e quase instantânea difusão de informações?


As mídias sociais ganharam a forma virtual de uma arena. Fui atacado por milhares de pessoas e de robôs ao mesmo tempo em que era defendido por pessoas e por grupos militantes. Do fim de setembro 2017 a fevereiro de 2018, não conseguia reagir. Como entendi que esta disputa não era pessoal, mas de classe, decidi me manter off-line por um tempo. As milícias midiáticas iniciaram os ataques e assim que constataram que haviam perdido a disputa, partiram à procura de outros assuntos.



P: Como você avalia o papel e a importância das artes no contexto político atual no Brasil, quando vivemos uma série de tentativas de restrição e censura tanto de cunho moral, através de acusações nas redes sociais, quanto propriamente institucionais?


A arte é uma atividade de extrema importância para a emancipação da consciência crítica humana. E, portanto, no Brasil atual, governado por líderes autoritários, a arte precisa perder seu valor persuasivo. Presidente e aliados conseguiram instaurar a estupidez e a obediência como linguagem. A arte tornou-se vulgar no território brasileiro. Pensar, hoje, é crime.



P: Trazendo mais para o contexto atual que estamos vivendo com a pandemia da COVID-19, como você tem vivenciado este momento que traz elementos tão preocupantes do ponto de vista político, econômico e cultural?


Como todas, todes e todos que percebem esta crise: cuido de mim e do outro. Se tenho casa, fico em casa. Se posso evitar o contato pessoal, evito. Ainda não consigo pensar em uma tradução estética deste mundo que se apresenta com a pandemia. Estou aprendendo a lidar com ele. Parece que o luto cívico toma mais tempo que o pessoal para encontrar a transformação. Evito a rigidez em retornar ao conhecido para significar esta crise. Há uma interferência mais atuante do mundo digital em nosso dia-a-dia. Nosso corpo online está mais ativo que o off-line. Em breve vamos entender como este corpo pode criar.



P: Como você imagina que as artes serão impactadas pela pandemia que mobilizou enormes recursos num momento em que o desmonte de políticas públicas de incentivo às artes já estava em curso no atual governo?


Não imagino como as artes serão impactadas, porque nos roubaram até a ideia de “amanhã”, e o vírus não é o ladrão. Há dinheiro no Brasil, podemos constatar. Neste momento, por exemplo, em que a crise causada pela pandemia se mostra dramática, criou-se o auxílio emergencial. Não vou discutir, por agora, a forma como este benefício financeiro está sendo distribuído ou se é muito ou pouco. O importante é registrar que um auxílio foi criado. Antes da epidemia se instalar, não se falava em auxílio. Agora, ele existe. Desse modo, outros programas poderiam ser criados, não? Há dinheiro no Brasil, mas parece que ele não pode ser destinado às artes, à educação, à saúde antes do surgimento de uma pandemia. Por que?

Antes da COVID-19, era a instituição privada que assegurava a produção das artes brasileiras. Ela apoiava os artistas que queria, enquanto a instituição pública acolhia os trabalhos que podia (e, muitas vezes, também, os que queria). Artistas se acostumaram a este sistema porque parecia não haver outro — um acordo tácito, regido pela frustração e pelo ressentimento. Mas esta não é a melhor forma de evitar um colapso no circuito da arte — esta arte que muitos apelidaram de “independente” e que, na realidade, quer dizer “no vermelho”. Editais se transformaram em política pública, assim como “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” — sim, essa máxima é do Goebbels, cito-o para não perder o fluxo de seu atual sucesso difundido pelos representantes da cultura deste governo. Um edital não garante a produção de todos os que trabalham. E o Estado precisa entender que saúde não é sinônimo de hospital ou farmácia, saúde é o que vem antes da doença. É certo, se uma pessoa tem direito à arte, à educação, ela será mais saudável, menos vulnerável ao ódio, emancipada. Contudo, será esse um interesse político?

Artistas independentes sempre foram impactados por pandemias, crises políticas, éticas, sociais. Sempre tivemos que inventar um jeito de lidar com fatos destrutivos. Não vejo outra saída a não ser, mais uma vez, recorrermos às comunidades como já fizemos em décadas anteriores — a solidariedade como um jeito de existir e de trabalhar, construído por cada um de nós, em que cada um de nós se responsabiliza por sua evolução.



P: Sendo um brasileiro que vive na França (ou na França e no Brasil), como você avalia a resposta dos governos francês e brasileiro no enfrentamento ao novo coronavírus? A diferença entre um governo e outro é notável, a mídia nacional e internacional tem nos informado. O governo francês, apesar de suas fragilidades, dirige um país. O governo brasileiro, retrato envelhecido de um chefe militar, manda em quem o apoia e chama seus seguidores de Brasil.



P: Já falamos sobre a importância das mídias sociais no momento que estamos vivemos. Como você avalia o impacto das mídias digitais amplamente e especificamente das fake news no momento político e social que vivemos?


As notícias falsas chegaram para nos avisar que a mentira virou fato. O real tornou-se questionável porque a vibração daquilo que vira verdade a partir de um rumor tornou-se inquestionável. A distorção da realidade agrupa pessoas que buscam por experiências fortes, instantâneas, como aquelas fabricadas pelos filmes de terror. Notícias falsas se espalham mais rápido que a reflexão, precisam de menos caracteres; às vezes, basta uma imagem. Pessoas falsas precisam criar e participar de grupos opressores, os mais célebres, custe o que custar. Não estão dispostas a serem questionadas. Validar a reflexão é caminhar contra a procissão, citando a Experiência nº2, de Flávio de Carvalho, em 1931, que consistia em andar em sentido contrário a uma procissão de Corpus Christi pelas ruas de São Paulo com um boné de veludo verde na cabeça. Este seu ato não se tratou apenas de um simples caminhar, mas de um enfrentamento direto com a psicologia de uma multidão religiosa e politicamente alienada. Esta performance despertou a fúria dos crentes, que terminaram por partir para seu linchamento. Flávio de Carvalho conseguiu escapar refugiando-se em uma leiteria. Foi resgatado em seguida pela polícia, que o levou preso.

P: Como esta pandemia tem impactado você, sua vida, seu trabalho? De quais modos?


É muito difícil responder esta pergunta porque, como muitas e muitos, estou aflito com as faltas que causam esta epidemia: a falta de palavra para dizer o que ela é, a falta de uma vacina, a falta de leitos em hospitais, a falta que várias pessoas farão para suas famílias, a falta de vergonha dos governantes que insistem em passar o dinheiro na frente da vida. Eu preciso de tempo, de distanciamento para responder esta pergunta. Em um dado momento, os que sobreviveram irão nos ajudar a refletir. Agora, vivo o presente sem precisar criar um significado instantâneo para ele.

P: Por fim, queríamos abrir espaço para você falar mais abertamente sobre como você pensa que as artes têm contribuído para repensar a sociedade nos últimos tempos? Sobretudo agora, depois do coronavírus, no qual o mundo passa por mudanças que parecem definitivas, com o aumento da virtualização da vida social e um acirramento dos tensionamentos políticos.

Arte e sociedade andam de mãos dadas há séculos, mas com as mãos separadas do corpo. A matéria e o espaço reflexivo da arte estão conectados com o tempo. Mesmo que um objeto tenha sido criado em um momento específico da história para refletir um momento específico da história, ele continua a ser atualizado a partir de uma nova experiência. Um quadro em um museu não se resume ao período em que foi criado. Ele age no agora, no corpo daquela e daquele que o confronta, que o retira da parede através da memória, que o leva para casa. Hoje, tenho a chance de revisitar objetos que trouxe para minha casa antes da quarentena. Em cada um deles, encontro uma reação à pandemia. E como o luto cívico ainda não me permite criar, eu me aproximo dos textos de Rainer Maria Rilke em Nota sobre a melodia das coisas,

Estamos no começo, você vê. Como antes. Com Mil e um sonhos atrás de nós e sem ação.


Ou ainda, traduzo Emily Dickinson,


“Fé” é uma ótima invenção Para quem tem competência— Mas microscópios são prudentes Em uma emergência".

ao mesmo tempo em que escuto a respiração de Henri Chopin em Le Corps (O Corpo):



Quando estou impaciente, dedico alguns minutos à Wendy Carlos,



Oops,



Quando preciso de colo, peço à Miriam Makeba,


Deixo a biografia de Anita Malfatti aberta sobre a minha mesa de trabalho, ao lado da replica do Bicho da Lygia Clark. Viajo no Instagram de Julio Villani. Releio os poemas de Leonard Cohen,


Vamos cantar outra música, queridos Esta ficou velha e amarga


visito seus álbuns no fim da tarde. E, para esta: New Skin for the Old Ceremony (Nova pele para a antiga cerimônia)


Quando anoitece, assisto os filmes de meus diretores favoritos: Opening night (Noite de estreia) de John Cassavetes; Coffee and Cigarettes (Café e cigarros) de Jim Jarmusch; Jogo de cena, de Eduardo Coutinho. Vou para cama com Finita, de Maria Gabriela Llansol e sempre pego no sono quando ela diz “Viver à sós atrai, pouco a pouco, os absolutamente sós”.


Faço tudo isso em um dia, e, no dia seguinte, troco a ação e os autores. Amanhã, quem sabe, meu diretor preferido será Tomás Gutiérrez Alea, com seu filme-sobremesa Fresa y Chocolate (Morango e Chocolate).



P. Que mensagem você gostaria de deixar para nossos leitores em relação ao momento que vivemos? Assistam a entrevista de Bruno Torturra com Eliane Brum, Córtex – Vivendo o Fim no Centro do Mundo. Neste passeio por Altamira é possível construir a diferença entre desenvolvimento e envolvimento.


Conheça mais sobre o trabalho de Wagner Schwartz em seu site e instagram.



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