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v5a11| Eu vivo uma ficção científica

Atualizado: Jul 30

Por Angícia Mourão. Mestre em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Estadual do Ceará (PPGS – UECE), aluna de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGAS – UFRGS), integrante da rede de pesquisadores Observatório das Nacionalidades (UECE), integrante do Grupo de Antropologia da Economia e da Política (GAEP – UFRGS) e experimentadora da política de cortes no financiamento público à pesquisa científica empreendida no Brasil, em particular por meio da CAPES.


Foto: acervo pessoal da autora


Lockdown City, Pandemônio

Dia 4.424 óbitos

“... para sua proteção, mantenha uma distância mínima de 2 metros entre as pessoas. Permaneça o tempo mínimo possível dentro do estabelecimento e não esqueça de higienizar as mãos. Encruzilhada. Porque todos merecem o melhor”. Depois de semanas de infecções indiscriminadas, atividades suspensas, perguntas sem respostas e constantes recomendações de isolamento social, chego quase ao fim de um período de bloqueio total da circulação de pessoas pela cidade. Além de só ter permissão para sair de casa em situações justificáveis, ando com máscara de tecido no rosto e portando um vidrinho de álcool em gel a 70% de concentração. Levo comigo um comprovante de residência e minha identidade para certificar quem sou e que moro perto do supermercado-destino-passeio que frequento. Nas poucas quadras entre a minha casa e ele, ninguém e nada enchem o espaço. Não há pessoas nas calçadas ou nas janelas das casas e apartamentos; ninguém entra e ninguém sai de nenhuma portaria ou garagem; nenhum carro circula na avenida e o sinal de trânsito é um bobo da corte que trabalha para nenhum rei. Não há sons.


Ou melhor, não havia som nenhum. À medida que chego perto do supermercado-destino-passeio, uma voz masculina anuncia: “...para sua proteção, mantenha ... 2 metros entre as pessoas. Permaneça ... do estabelecimento e não esqueça de higienizar as mãos. Encruzilhada. Porque ... Atenção, senhores clientes!...”. Ato contínuo, tiro o frasco de álcool em gel do bolso e higienizo as mãos.


Na entrada do grande armazém que ocupa toda a quadra, há duas lojas de venda de alimentos e uma cafeteria, com todas as mesas e cadeiras disponíveis. Do lado, há uma lotérica e a entrada de uma academia de ginástica, daquelas badaladas, que fazem correr em cima de uma esteira, sem chegar a lugar nenhum, parecer a coisa mais obstinada e garantidora de sucesso do seu dia. Nem as lojas, nem a cafeteria, nem a lotérica nem a academia parecem ter estado em funcionamento, em algum dia. Somente na sequência, quando vejo a entrada do supermercado-destino-passeio repleta de pessoas, tenho a certeza de que estou em dia e horário útil. Será que as horas ainda se dividem entre úteis e inúteis?


“Atenção, senhores clientes! Em comprimento ao decreto municipal de número 33.574, do dia 1329 óbitos, comunicamos que não é permitida a entrada em supermercados sem o uso de máscara de proteção. Somente será permitida a...”. Enquanto me dirijo à entrada do supermercado-destino-passeio, percebo que tenho que reaprender a entrar nele. As duas portas de vidro que deslizam automaticamente não são mais idênticas e desimportantes. Em uma, um grande cartaz indicando a entrada do supermercado é a fronteira que separa seu interior de uma fila de pessoas que aguarda a sua vez do lado de fora, cada uma a 2 metros de distância da outra, de acordo com a marcação dos adesivos no chão; na outra, um grande cartaz indicando a saída, de onde ocasionalmente pessoas saem empurrando seus carinhos cheios de compras. Entre ambas, do lado de dentro, dois homens usando máscaras pretas e coletes em que eu posso ler “vigilância” observam o fluxo de pessoas. Não vejo mais as cestas de plástico azul ou os carrinhos de metal para carregar as compras do lado de fora, mas sei que eles estão ali, porque acabei de vê-los em uso e escuto uma destoante rolagem metálica que só pode ser dos carrinhos.


Caminho para o fim da fila, que vai até o estacionamento no subsolo. Rampa abaixo, observo até onde vão os adesivos que marcam a distância entre as pessoas e a sua obediência, cada vez menos rigorosa, depois que eles se esgotam. “Atenção, senhores clientes! Em comprimento ao decreto municipal de número 33.574, do dia 1329 óbitos, comunicamos...”. Passo por pessoas apreensivas, que se espantam com a minha passagem, com a aproximação (indevida?) daquele que está atrás de si ou talvez com o silêncio atípico, que caracteriza a ausência daquele assunto oportunamente tratado na fila de espera. Tomo meu lugar, confiro se há mais ou menos 2 metros de distância à minha frente e espero que quem venha a seguir tome o mesmo cuidado que eu. Homens, mulheres e jovens solitários à espera da sua vez. Há apenas um casal bem mais à frente, mas que, tão logo se aproxima da porta de vidro da entrada, se separa. A mulher fica do lado de fora, ainda esperando.


Finalmente atendo ao pedido da voz do alto-falante e escuto: “Atenção, senhores clientes! Em comprimento ao decreto municipal de número 33.574, do dia 1329 óbitos, comunicamos que não é permitida a entrada em supermercados sem o uso da máscara de proteção. Somente será permitida a entrada de uma pessoa por família, para a execução das compras. Pedimos que, para sua proteção, mantenha uma distância mínima de 2 metros entre as pessoas. Permaneça o tempo mínimo possível dentro do estabelecimento e não esqueça de higienizar as mãos. Encruzilhada. Porque todos merecem o melhor.” Só então, começo a compreender as novas regras de convivência.


Mais próxima da entrada, vejo que ali há dois funcionários do supermercado-hospital-prisão a postos. Uma tem em mãos um termômetro digital infravermelho, que mede a temperatura corporal apenas com a aproximação de sua tela da testa do paciente-cliente. Sem toques, apenas números e o aliviante “pode passar”. É ela também quem fica de olho na porta de saída, ao lado, para conferir o número exato de pessoas que acabam de sair. Sai uma, entra uma. Saem duas, entram duas. Sem toques, apenas números. O outro funcionário se encarrega de borrifar álcool líquido (supostamente em uma concentração de 70% em solução aquosa) nas mãos dos clientes-pacientes, nas cestinhas de plástico azul (Arrá! Achei!) e nos guidões dos carrinhos de metal que são encarrilhados e conduzidos para o subsolo por outro funcionário. Todos de máscara, luvas de plástico, toucas descartáveis com elástico e um cortês “bom dia!”.


Preciso permanecer o mínimo de tempo possível dentro do supermercado-hospital-prisão, então. Além do alto-falante, uma fila de pessoas espera ansiosamente a sua vez do lado de fora. Pego minha cestinha de plástico azul higienizada e faço uma lista mental do que preciso. Caminho acertadamente rumo às seções que me são familiares, apenas para me surpreender com a pouca quantidade de pessoas, com algumas prateleiras que têm folhas de ofício penduradas com os dizeres “limite de compra de 05 unidades por pessoa” e com o preço levemente mais elevado de alguns produtos. Ainda bem que, em casa, não precisamos de muito. Ao terminar de coletar os itens de que necessito, me dirijo aos caixas.


Mesmo em meio a um pandemônio, é reconfortante saber que uma coisa é certa no Encruzilhada: nem todos os caixas estão em funcionamento e há filas extensas para pagar as compras. Fico à espera em uma delas e penso que, ao menos neste momento, o supermercado-hospital-prisão pode argumentar com razão que a redução no número de atendentes de caixa visa o bem estar de seus pacientes clientes. Lembro de sacar meu frasco de álcool em gel a 70% e, enquanto esfrego as mãos, os dedos e os pulsos, olho para os lados e confiro atentamente que estou a 2 metros de distância das pessoas mais próximas de mim. Adiante, vejo a tensão dos corpos munidos de máscaras e frascos de álcool, que não querem pegar nos produtos para não correrem o risco de adoecer, mas o fazem. Têm que fazê-lo. Não há bom dia ali, apenas resignação e cartões de crédito.


Sou a próxima na fila do caixa e controlo minha ansiedade de sair dali. De repente, uma sirene estridente assalta a todos de surpresa. Berra repetidamente, descontroladamente, para nos avisar de que algo está errado. Alguém está agindo errado! Quem?! Não sou eu, sou?! Não. Ainda estou na fila, a 2 metros de distância do cliente-paciente à frente e não ultrapassei nenhum limite. Olho para os lados e vejo mais pessoas olhando para os lados, à procura do problema. Quando chego à conclusão de que o erro não parece ser em nenhum dos caixas, meu olhar percebe os dois vigilantes da entrada do supermercado-hospital-prisão em frente à porta de saída, barrando a entrada de alguém. É uma mulher com um carrinho de metal vazio que tenta entrar pela porta de saída. Distraída e estupefata, para diante dos dois coletes de vigilância. Em direção a eles, corre o homem que estava sendo atendido no caixa à minha frente. Ela explica que só queria entrar com o carrinho para ele ter onde colocar as compras. Ele confirma aos coletes, pega o carrinho e pede que ela continue esperando do lado de fora. De novo, aquele casal da fila.


Aquela cena me toma por completo. Pensando o tempo todo nela, disponho meus itens de compra na esteira do caixa, pago com cartão de crédito e guardo tudo na minha sacola reutilizável – porque o pandemônio ainda precisa ser conservado. Saio adequadamente pela porta de saída, ao lado dos coletes que me olham de soslaio. Novamente do lado de fora, vejo a funcionária com seu termômetro, uma pessoa entrando no supermercado-hospital-prisão e uma fila de pessoas dando, cada uma, um passo à frente. “Atenção, senhores clientes! Em comprimento ao decreto municipal de número 33.574...”.




* Esse texto foi elaborado em junho de 2020, a pedido do professor Dr. Ruben Oliven, como proposta alternativa à sua querida caminhada etnográfica da disciplina de Seminário de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGAS – UFRGS). Além dele, projetei meus colegas de turma como meus potenciais leitores. Agradeço a todes da disciplina pela primeira e positiva recepção.



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