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v3a26| Fragmentos de um sonho infectado

Atualizado: Jul 30

Por Débora Rocha Carvalho. Psicóloga graduada pela Universidade de Fortaleza, especialista em saúde da família e comunidade pela Escola de Saúde Pública do Ceará E-mail: deboradrc@gmail.com

Uma noite sonhei que estava numa casa escura e recém construída, mas não terminada. Havia fragmentos de concreto e visão de tijolo de um reboco inacabado. Havia ainda cheiro de cimento fresco na parede e pó de construção no corredor. As portas da casa estavam trancadas e eu estava sozinha, vestida toda de branco da cabeça aos pés, o meu corpo parecia de tecido, quando eu tocava alguma parte do corpo eu não conseguia sentir a minha pele. A visão era turva em tons de preto e branco. O sentimento na cena era de medo, sentia que uma ameaça se avançava em meio externo à casa. Havia pessoas que batiam na porta, batiam, mas não abriam. A casa parecia trancada por dentro e por fora. Sentia como se não tivesse saída para viver um sonho desinfectado.

Acordei e no decorrer do meu dia que fui elaborar as cenas dessa experiência onírica, a qual disponibilizo para pensarmos todos os profissionais de saúde (incluindo aqui os que acompanho individualmente e os que acompanho em grupo para suporte psicológico nesse momento de pandemia) e a todo o restante, que assim como eu, está trabalhando em meio a tudo isso.

O momento em que estamos, relacionando ao sonho que tive, é de casa escura com visão turva e sem colorido, nada parece nítido e claro em relação ao que está acontecendo e ao que está por vir sobre a pandemia que se apresenta. O sentimento de dentro da casa, no sonho, é de construção e reconstrução ao mesmo tempo, de uma obra que não se finalizou. Relacionando ao nosso momento atual, tivemos que nos refazer rapidamente, em meio a um turbilhão de acontecimentos em esfera global, em um movimento de construção-destruição-reconstrução de novos hábitos de higiene, de estar consigo mesmo e com o outro, inovação ou reorganização do processo de trabalho e inclusão de equipamentos de proteção, e no caso dos profissionais de saúde, proteção da cabeça aos pés, sentindo a pele toda coberta de tecido.

Uma jornada que é coletiva, e também individual, que ao adentrar em casa sente o medo de ter pegado ou de ter transmitido o vírus. Medo exorbitante principalmente dos profissionais de saúde que estão na linha de frente, que não estão somente cara-a-cara, mas também corpo-a-corpo com um inimigo invisível pelos arredores do trabalho. E que sempre se questionam se estão seguros mesmo a poder retornar para casa. Em casa, precisam ficar sozinhos, como no sonho, ou até mudar de casa para aliviar a culpa de possivelmente apresentar o “vírus-assintomático” para os demais que moram junto. E quando o profissional fica doente, as portas são trancadas por dentro e por fora e a vestimenta branca dos EPI’s que cobrem toda a pele, fica como se ali não houvesse um alguém, que precisa de respeito, acolhimento e cuidado. O próprio profissional se pergunta “Onde foi que eu “errei”? “Onde não me protegi? (...)” e tão logo essas mesmas perguntam são feitas pelas pessoas ao seu redor, muitas delas usando tons de culpabilidade ou de julgamento.

Dessa maneira, no sonho, as pessoas e o vírus aparecem como a ameaça externa da casa, as pessoas que julgam, culpam, e que dizem “Quem trouxe o vírus para dentro de casa?”, “Quem trouxe o vírus para a comunidade?”, “O profissional que está em contato com o vírus não se protegeu?” (...) No momento em que o “quem” não mais importa! Ou o “como”! É dessa maneira, como no sonho, que algumas pessoas batem na nossa porta, batem, mas não abrem com a possibilidade de prestar apoio ou cuidado. Enquanto que o vírus circula com facilidade e rapidez em meio preto e branco em relações que não se sustentam, deixando o pó nos corredores por falta de estrutura e revestimento.

Diante disso, não havendo reparos em nossas casas, não há saída para um sonho desinfectado. Porém, pensando ainda no sonho, estamos lidando como uma obra que não se finalizou, e assim, podemos contar com o que temos, o cimento fresco e a visão do tijolo onde o reboco parou para a re-construção, o retoque e o acabamento dessa casa, que você está dentro e ao mesmo tempo também está fora, sentindo o que está fora e o que está dentro de você para tão logo vivermos um sonho desinfectado.

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