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v3a47| Gênero “atividade essencial”: a liberação dos serviços estéticos na pandemia

Atualizado: Jul 30

Por Ana Paula Garcia Boscatti. Socióloga com ênfase em estudos de gênero e sexualidades pela École des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS Paris). Doutora pelo Programa Interdisciplinar em Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).


Foto: A manutenção estética do presidente reforça o ritual de produção de gênero.

(In: página do Facebook de Bolsonaro dia 29 de julho de 2019).


A epistemologia da visualidade binária dos sexos é um mrcador discursivo que atravessa frontalmente a política de Jair Bolsonaro. Na semana passada tivemos mais um exemplo da importância da regulação das identidades de gênero na gestão do corpo nacional soberano. Foram incluídos nos serviços considerados essenciais durante a pandemia do COVID-19: as academias de ginástica, as barbearias e os salões de beleza. O que isso tem a ver com a gestão das identidades nacionais? Nesses espaços se produz gênero, se produz classe e se produz nacionalidade. Ou seja, regulam-se feminilidades e masculinidades dentro do que as ficções políticas historicamente definiram como modelos de beleza envolvendo raça, classe, corpo, gênero e nacionalidade.


O contágio parece ser menos importante do que retocar a raiz do cabelo, garantir a qualidade dos músculos e a pintura das unhas. O corpo nacional precisa de modelos binários da “diferença sexual” a fim de garantir os privilégios da cidadania política. Apesar das críticas bem fundamentadas em relação a reabertura desses espaços, essa atitude do governo Bolsonaro escancara a centralidade, o caráter essencial e essencialista com as questões de gênero. A gestão política do vírus também serve para traçar os limites e redefinir o que se aceita ou nega em relação ao corpo nacional soberano.


O Brasil ficcionou nos anos 70 e 80, um corpo nacional que havia vencido as guerras eugênicas que flagravam sua inferioridade no início do século. A “garota de Ipanema”, branca, pornográfica, neoliberal e high tech, significava um ideal de brasilidade que encarava a bioestética para definir o que se entendia como “natureza” nacional[i]. Esculpida por dietas, fármacos e ginástica, a brasileira operava a verdade biológica da evolução do corpo nacional através do corpo perfeito. Em poucos anos o Brasil se tornou uma potência transnacional no turismo médico com suas técnicas elaboradas de cirurgia plástica.


Esse modelo hegemônico de corpo nacional que figurava nas imagens de televisão, revistas e mercadorias para o consumo local e global, transformou o Brasil em uma categoria bioestética, ou seja, reconhecidamente um paraíso da beleza. Para legitimar esse caráter bioestético da sociedade brasileira, Bolsonaro define como essencial os cuidados para a manutenção desses corpos politicamente soberanos.


Na minha tese de doutorado chamei de pornonacionalismo a tecnologia de poder que manipulou a fantasia “democrática” da praia carioca (nos anos 70 e 80) num espaço popular global e comercializável, onde o solteiro (e o casado infiel) poderia usar dos seus privilégios de gênero e de representação no espaço público. O pornonacionalismo não foi senão uma tecnologia oriunda do capitalismo farmacopornográfico que reintepretou os códigos de espaço, de raça, de sexo, de masculinidade e de feminilidade para inferir sobre o corpo normativo e o desviante, a fim de produzir uma regulação das identidades nacionais por meio do turismo e da iniciativa privada.


Igualmente, o presidente e sua equipe tornam apenas mais claras e anunciadas suas táticas de instrumentalização de gênero para se apoiar em um modelo de corpo nacional soberano. Junto a elas residem fantasias e ilusões sobre um corpo com “histórico de atleta”, que eugenicamente venceu a guerra biológica da força física e da branquitude. Ao retraçar como essencial esses serviços, Bolsonaro reitera essa potência eugênica inventada sob critérios bioestéticos do corpo definido por esteróides, exercícios físicos, alisantes e chapinhas, como mecanismos de produção de gênero dentro do que se teatraliza como brasilidade.

Notas: [i] BOSCATTI, Ana Paula Garcia. A bunda e a “natureza” nacional: a fabricação sexopolítica da brasilidade nos anos 70 e 80. Tese de Doutorado. Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, Florianópolis, 2020.


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