• antropoLÓGICAS

Habilitando solidariedade: do cuidar ao ser cuidado

Por Leonardo Campoy. Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Paraná, Mestre em Sociologia com concentração em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Doutor em Antropologia também no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Contato: leocampoy@gmail.com



Foto: Leonardo Campoy


Assim que as primeiras medidas de distanciamento social foram tomadas no mundo ocidental, a solidariedade tornou-se uma palavra-chave do léxico da atual pandemia. Não poderia ser de outra forma. Para enfrentar uma situação tão crítica, que só projeta incertezas para nosso futuro como espécie, é fundamental que todos transformem suas próprias ações em iniciativas de cuidado com o outro. Uma vez que não temos nenhum medicamento de eficácia comprovada, nem vacinas prontas para uso, a única estratégia de prevenção ao nosso alcance são ações que emanam do entendimento de que o distanciamento físico deve vir acompanhado de solidariedade social.


Contudo, como antropólogo, fui treinado para perceber as diferenças entre regras sociais e práticas do cotidiano. Observando a ideia de solidariedade sendo divulgada, quase como um mandamento para os dias que estamos vivendo, me pergunto se, ao menos em contexto ocidental, estamos emocional, sensória e cognitivamente habilitados para sermos solidários. Será que conseguimos transformar o imperativo da solidariedade em um senso prático para nossos coletivos?


Para tanto, precisamos repensar a importância moral que os valores da autonomia e da independência individuais têm na cultura ocidental. O tipo ideal de indivíduo neste modelo social é aquele autônomo e independente. Ele é racional, capaz de julgar por si mesmo o que é certo e errado, o melhor e o pior. Ele também é homem, branco e heterossexual. Livre de qualquer constrangimento que o impeça de “ser quem realmente é”, até mesmo da própria sociedade, com seus “padrões e regulamentos castradores”. Para este indivíduo, não é ele que serve à sociedade, mas o contrário. Para ele, a renúncia de sua autonomia e de sua independência é tirania ou falta moral. E quem não se encaixa neste tipo ideal?


Fazendo etnografia com pessoas com deficiência e seus cuidadores, notei que a vergonha e o preconceito que dizem sentir se deve justamente por terem, às vezes, a impressão de que são entendidos como desajustados. Eles não enxergam, não escutam, não caminham e não pensam como os outros. Para várias pessoas com quem convivem diariamente, eles cometeram a falta moral da dependência. Tornaram-se um “peso para a sociedade”, consumindo recursos públicos, demandando privilégios jurídicos e obrigando outras pessoas a cuidarem deles.


Contudo, a vergonha e o preconceito não colonizam suas vidas completamente. Por meio de uma série de estratégias prostéticas, corporais, emocionais e relacionais, eles encontram múltiplas formas de viver plenamente à sua maneira. Suas táticas não buscam preencher ou substituir o que lhes falta. Eis aí, aliás, o que me parece ser o grande valor da etnografia com pessoas com deficiência: o de perceber que as artes de vida dessas pessoas se fazem aceitando suas condições para extrair delas potencialidades. Dentre elas, que são inúmeras, a de reconhecer e valorizar sua dependência. Para eles, ser dependente é ser um humano. De acordo com as pessoas com quem pesquisei, os indivíduos da nossa espécie não são dependentes somente na infância e na velhice, mas em toda sua existência. Para eles, dependemos do trabalho, do conhecimento, do carinho e do cuidado de outras pessoas para que possamos viver bem. A condição de deficientes permitiu que percebessem a importância da dependência, mas, na verdade, qualquer um, mesmo os que se entendem como normais, precisam do cuidado dos outros. Neste sentido, as pessoas com deficiência elaboram uma espécie de crítica cultural ao ocidente, sugerindo que os princípios da autonomia e da independência, ao menos tal como eles são socialmente concebidos atualmente, são falaciosos e até mesmo danosos.


Quero argumentar que, se queremos estar capacitados para sermos solidários, como o momento atual requer, podemos tomar as pessoas com deficiência como professores da dependência. Eles ensinam que a solidariedade não se realiza somente em cuidar do outro, mas, encontra-se também na habilidade de reconhecer que precisamos ser cuidados pelo outro. Como o clichê diz, crises são também oportunidades. Que essa seja a de possibilitar que todos se sintam mais dependentes e que o mundo seja um pouco mais deficiente.




Photo bymarianne bosonUnsplash



© 2023 por Design para Vida.

Criado orgulhosamente com Wix.com

CONTRA A PORTARIA 34 E AS MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES