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v5a15| Masculinidades e androcracia em tempos de COVID-19

Atualizado: Jul 30

Por Camilo Braz. Professor de Antropologia na Universidade Federal de Goiás e integrante do Ser-Tão – Núcleo de Ensino, Extensão e Pesquisa em Gênero e Sexualidade (UFG). Luiz Mello. Professor de Sociologia na Universidade Federal de Goiás e integrante do Ser-Tão – Núcleo de Ensino, Extensão e Pesquisa em Gênero e Sexualidade (UFG).


Ilustração de Dimitri Litzinger, "Toxic Masculinity". Disponível aqui


Em 11 de abril deste ano, uma comitiva composta por políticos brasileiros, entre os quais o presidente da república, o ex-ministro da saúde e o governador de Goiás, visitou as obras de um Hospital de Campanha na cidade de Águas Lindas, em Goiás, em plena pandemia provocada pelo novo coronavírus. Vários aspectos chamaram a atenção dos meios de comunicação, no Brasil e no exterior, nesse que deveria ser um evento político relativamente banal. O principal, talvez, tenha sido o fato de que o presidente caminhou nos arredores da obra, sem máscara, para cumprimentar pessoas que ali estavam, provocando aglomeração (como havia ocorrido no dia anterior, quando ele circulou por estabelecimentos comerciais de Brasília, conversando e cumprimentando quem encontrava pela frente). Esse comportamento contrariou, uma vez mais, a recomendação expressa de distanciamento social como medida para frear a disseminação do vírus e evitar a sobrecarga do sistema de saúde, promovida pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial de Saúde, e reiterada em diversos veículos de comunicação e coletivas de imprensa por autoridades políticas, sanitárias, biomédicas e epidemiológicas em escala global, incluídos o ex-ministro da saúde e o governador presentes na solenidade de inauguração.

Essa postura de questionar, criticar e, mesmo, não seguir a recomendação de isolamento social tem sido reproduzida por muitas outras pessoas no Brasil, numa escala não vista em nenhum outro país em meio à pandemia. E as motivações para tais manifestações, que incluem desde aglomerações em locais públicos, vídeos viralizados com posicionamentos que negam a existência e/ou a gravidade da pandemia e carreatas em carros luxuosos pelas grandes cidades do país, vêm sendo debatidas cotidianamente por jornalistas, intelectuais e, também, neoespecialistas em qualquer coisa, diplomados por redes sociais, muitas vezes de maneira apaixonada e/ou cínica. A partir de tais posicionamentos, discute-se o tema das disputas políticas que embasariam essa recusa; a questão dos interesses econômicos de certos setores das elites, que estariam sendo prejudicados a partir das medidas de isolamento social; ou as diferenças entre a perspectiva religiosa de explicação da vida e o entendimento científico das implicações de uma pandemia em um país marcado por profundas desigualdades sociais. Nosso interesse, aqui, é colocar em foco as dimensões de gênero envolvidas nessa recusa à ciência e ao isolamento social, bem como pensar suas implicações.

Recentemente, em artigo publicado no jornal The Guardian1, Robin Dembroff, professor de Filosofia na Universidade de Yale (EUA), relembrou que durante todo o seu primeiro mandato, o então Presidente estado-unidense Ronald Reagan negou todas as evidências científicas de que a aids compunha uma grave crise de saúde pública, ao afirmar que em breve ela “iria embora”. O que chama a atenção do filósofo não são as possíveis correlações entre a atual pandemia de COVID-19 e a da aids em meados dos anos 1980 - o que tem sido realizado a partir de textos como #SomosTodasVelhos: notas sobre grupo de risco em tempos de pandemia2 e COVID-19 e HIV/AIDS: paralelos e lições-, mas o quanto as afirmações de Reagan ecoam as dos atuais presidentes tanto dos Estados Unidos quanto do Brasil em relação ao novo coronavírus. Diz o autor:

No mês passado, dias depois que a Califórnia declarou um estado de emergência e as escolas de Seattle começaram a fechar, Donald Trump afirmou que a COVID-19 simplesmente "desapareceria". Pouco antes disso, ele disse que "desapareceria...como um milagre". Em seu desfile de negação, Trump se juntou a outros líderes populistas de extrema direita, especialmente o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Em março, ele descreveu a COVID-19 como uma “gripezinha” que não justificava a “histeria” em torno dela, e afirmou que o Brasil seria protegido do vírus pelo clima e pela população jovem (tradução nossa).

Inspirados nesse autor, indo além de centrar o debate apenas nos mencionados presidentes, pensamos ser urgente fazer uma leitura das posições de diferentes grupos sociais envolvidos nas disputas de narrativas acerca das causas, riscos, medos, danos e mortes produzidos pela COVID-19, a partir da lente dos estudos de gênero e, em especial, dos estudos sobre masculinidades.

Virtualmente, nenhum ser humano atende a todos os requisitos daquilo que, no campo dos estudos de gênero, foi conceituado como masculinidade hegemônica, pela socióloga australiana Raewyn Connell4. Esse conceito aponta para a existência de um modelo dominante de masculinidade, partindo-se do pressuposto de que em todas as sociedades humanas as relações de gênero constituem um eixo primordial de estruturação das relações sociais e de produção de repertórios simbólicos.

Para Connell, esse modelo, nas ditas sociedades ocidentais, se produz e reproduz em relação contrastiva, seja com o feminino, seja com a homossexualidade, como foi bem discutido pelo antropólogo português Miguel Vale de Almeida5. Além disso, constituiria algo impossível de ser alcançado pela maioria dos homens, mesmo os heterossexuais, o que seria uma característica aliás das masculinidades hegemônicas, concebidas quase como um tipo ideal weberiano, ou seja, um recurso teórico-metodológico para compreender a realidade, muito mais que uma tradução literal da realidade social em si. A noção foi bastante utilizada nos estudos sobre as masculinidades ao longo dos anos 1990 e 2000, além de ter sido alvo de inúmeras críticas e contestações. A despeito delas, indubitavelmente pertinentes em muitos aspectos, talvez haja momentos em que, como dizia a antropóloga Mariza Corrêa6, “não há como escapar das armadilhas do habitus dominante — tautologicamente, ele domina sempre”.

É nesse sentido que nos parece importante apontar o quanto há um idioma de gênero operando na recusa das evidências científicas em torno do isolamento social para a contenção dos efeitos letais – que afetam corpos e sujeitos de maneira desigual – da COVID-19. Nomear a reação pública a essa recusa como “histeria” não é, nesse sentido, banal. Historicamente, as chamadas “doenças de nervos” são atribuídas às mulheres, como mostra Maria Lucia da Silveira7 e, portanto, evocar a histeria, aliada a um imaginário mais amplo de feminização dos corpos adoecidos e enfraquecidos, é uma maneira de performar o pastiche masculino.

Além disso, uma das características da masculinidade que se pretende hegemônica tem a ver com a necessidade de sua afirmação e repetição constantes para que ela mantenha algum grau de inteligibilidade. No caso da pandemia, isso se dá, por exemplo, pela reiteração do que seria um presidente “macho”, enfrentando uma pandemia como se fosse uma espécie de anti-herói: afirmar a COVID-19 como uma “gripezinha” não é apenas epidemiologicamente incorreto, mas uma forma de reafirmação da masculinidade como valor, uma vez que para enfrentá-la bastaria um corpo viril, um “histórico de atleta”, o que recoloca o imaginário hiperbolizado da masculinidade hegemônica, novamente, no centro do debate. No Brasil, como em todos os demais países, hegemonia não tem apenas gênero, mas também tem raça; tem cor; tem sexualidade; tem classe social. E essa masculinidade hegemônica, astuciosa, tem tido eficácia política num cenário de crise, de fake news, de produção de pânicos morais e sexuais e de substituição do “penso, logo existo” pelo “acho, logo é verdade8”.

Parece-nos fundamental, portanto, pensar as implicações de gênero (e, sobretudo, as que dizem respeito à afirmação performativa de um estilo de masculinidade) dessa teimosa recusa à ciência – de maneira ainda mais ostensiva às ciências sociais – que tem marcado nossos corpos e nossos dias, tentando trôpega e covardemente regulamentar o direito de vida e de morte do conjunto da sociedade. Trata-se da reiteração de estereótipos de uma masculinidade bélica e bruta, ostensivamente afastada de tudo que possa ser simbolicamente associado ao feminino, justamente no momento em que o mundo começa a se dar conta da necessidade de substituição da linguagem da guerra pela ética do cuidado9 para gerir a pandemia. Não é à toa que, para muitas pessoas, são os poucos países comandados por mulheres10 que têm buscado políticas centradas nessa ética, os que estão produzindo melhores resultados diante dos desafios imposto pela pandemia em si, mas especialmente em face de suas consequências sociais, políticas e econômicas.

Tragicamente, contudo, parece que no Brasil nos últimos anos vivemos sob uma machocracia ou – numa expressão mais elegante e eufemística -, uma androcracia, comandada por homens que, inclusive em tempos de pandemia, sabem defender seus privilégios de gênero, sexualidade, cor/raça e renda/classe. O risco disso, logo ali na esquina, é que um certo estilo de masculinidade, sem potência de vida e prepotente de morte, passe a ser reiterado sobre covas improvisadas e caixões sem nome. Que essa pandemia possa ser o começo de um novo tempo. Afinal, o futuro é mulher. Ou não será.

Notas:

1 https://www.theguardian.com/commentisfree/2020/apr/13/leaders-trump-bolsonaro-coroanvirus-toxic-masculinity?CMP=share_btn_fb 2 https://memoriaslgbt.com/2020/04/07/somostodasvelhos/ 3 https://sxpolitics.org/ptbr/covid-19-e-hiv-aids-paralelos-e-licoes/10496 4 http://www.raewynconnell.net/p/masculinities_20.html 5 http://miguelvaledealmeida.net/livros/senhores-de-si/

6 http://novosestudos.uol.com.br/wp-content/uploads/2017/05/05_bourdieu_e_o_sexo.pdf.zip

7 https://portal.fiocruz.br/livro/nervo-cala-o-nervo-fala-linguagem-da-doenca-o 8 https://polarjournal.org/2020/02/16/anthropology-and-fake-news-a-conversation-on-technology-trust-and-publics-in-an-age-of-mass-disinformation/

https://mobile.francetvinfo.fr/sante/maladie/coronavirus/lutte-contre-le-coronavirus-ce-qui-fait-tenir-la-societe-c-est-d-abord-une-bande-de-femmes-affirme-christiane-taubira_3913227.html?fbclid=IwAR3-KiIQdBfQNXWMfeyR-CyrSfO3tkeapdeN3Ltzwru-kjVnbLQZNiOSOjI#xtor=CS2-765&xtref=http://m.facebook.com/&xtref=https://www.francetvinfo.fr/sante/maladie/coronavirus/lutte-contre-le-coronavirus-ce-qui-fait-tenir-la-societe-c-est-d-abord-une-bande-de-femmes-affirme-christiane-taubira_3913227.html

10 https://www.scoopwhoop.com/news/countries-with-the-best-response-to-covid-19-have-1-thing-in-common-women-leaders/?fbclid=IwAR3-NiTkUC6W_z9O2CZ5bfZ-Ejlodm0mdQ9aRAi0LwEEPphYl2BAjq11ThI


Texto originalmente publicado na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

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