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v5a11| Matar o mito. Des-apostar no futuro. Produzir o presente

Atualizado: Jul 30

Por Pedro Renan Santos de Oliveira. Psicólogo. Mestre em Saúde da Família (UFC). Doutor em Psicologia (UFC). Pesquisador Visitante do "Paralaxe" (Grupo Interdisciplinar de Estudos, Pesquisas e intervenções em Psicologia Social Crítica) vinculado ao Dpto. de Psicologia da UFC. E-mail: psipedrorsoliveira@gmail.com




O mito não existe para o futuro. O mito não existe para o hoje. Ele existe para explicar o passado. Origens. Inícios. Modos de nascimento.


Pode ser belo. Pode ser mágico. Pode ser trágico. Sempre expresso em narrativas, faz dos rituais a atualização de sua existência. Forma de conhecer mistérios do mundo e da vida.


Se o mito explica a origem, é preciso se perguntar que origem é essa que precisamos mitificar. Que processo demasiadamente complexo é esse que sem a explicação de uma suposta origem não é possível dar sentido ao mundo?


O Brasil - colonizado, racializado, escravizado, patriarcal, suicidário – parece não querer olhar para o agora. Olha para um passado de genocídio e constrói um dilema nacional em que matar ou subjugar não é o problema. Ao contrário, o que faz é eleger como problema uma “corrupção dos interesses” dos médios sobre os grandes e dos grandes sobre os médios. O passado é mitificado como um problema de suborno, adulteração.


A explicação mítica é sobre o “corrompimento” dos de “alma boa”, dos “cidadãos de bem”, diante de um establishment que nada tem a ver com suas próprias relações. São também míticos os meios pelos quais se produzem mudanças, transformações, metamorfoses. Não interessa se a origem do mito é o assalto dos saberes, sequestro das culturas, violação dos modos de viver.


Os símbolos e rituais são os da morte: armas de fogo em punho, dedos simulando a pistolas como um corpo-arma, ameaças de morte como consigna de suposta luta, rituais que simulam assassinatos enquanto afirmação da morte como sentença para aquelas que não partilham do mesmo mito. O mito da morte como totalidade da vida e a morte, ela mesma, como um deus total – necroliberal, necropolítico, necrocrático.


O que interessa é criar um mito para um passado em que não interessa se estou com mãos de sangue. Reproduzir um mito em que sequer sei que forças reproduzem a ordem das coisas como elas se apresentam. Elejo um mito para chamar de meu porque não quero sentir minha responsabilidade. Não quero saber o que faço que repito as coisas que supostamente luto para mudar. Não quero imaginar um mundo em que, (des)mitificada a realidade, eu perceba que o ritual que, repito - em vez de “explicar a origem”- faz chacotas da morte, faz carreatas da morte, maquiam dados da morte, fazem apologia a morte. Mata.


O passado é a justificativa da morte do amanhã. Porque o hoje está capturado por um ser humano eleito como representante do mito da morte.


E só é possível vencer o mito da morte com a morte do mito.


Desmitificar a morte é produzir um presente em que a morte é o lançamento do humano ao real. Mas também aquilo pelo qual nos faz querer viver, apesar da finitude. É sentir e agir para produzir um presente em que a vida seja, com mito ou des-mi(n)to, menos vendida pelo amanhã e tenha por desejo a construção de um hoje livre daqueles que mataram o nosso passado e que agora querem ser deuses numa terra que devastam para ser aqueles, eles mesmos, que tem o poder de criar a vida que matam. Quando o que muito criaram foram as condições do morrer.


Matemos o mito. Elejamos a vida. Livres do país do futuro, construamos o presente.


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