• antropoLÓGICAS

Negacionismo da Pandemia

Por Macela Marta da Costa Tenório. Psicóloga.

Figura 1 Fonte: Acervo Filosófico

Desde que a pandemia do coronavírus se tornou uma realidade na vida dos brasileiros, temos nos deparado com inúmeros fenômenos que emergem e sacodem o mino de ordem que podemos tentar ter diante disso tudo. Dentre esses fenômenos um consegue colocar a vida de milhares de pessoas em risco diariamente, seja quando proferido por populares em suas redes sociais ou com o vizinho do lado, ou quando proferido por autoridades e figuras de destaque. O fenômeno em questão é a negação da realidade, que carrega consigo uma alta carga de letalidade.

Ao contrário das negações apontadas por Freud que atuam como mecanismo de defesa frente a uma realidade dolorosa que no momento não se consegue enfrentar, a negação que se apresenta frente a pandemia diminui e subjuga seu significado e produz delírios persecutórios que são direcionados desde a órgãos como a OMS à até aos meios de comunicação como é o caso da mídia.

Essas pessoas não carregam sua negação apenas consigo, elas disseminam esse pensamento que assim como o vírus se propaga de forma contagiosa. Todo esse processo leva a essas pessoas a manterem comportamentos de riscos, prejudicando pessoas que não podem desfrutar da opção de permanecerem em casa, além de colorarem a si e sua família em risco de contaminação.

Pude observar que uma das características dessas pessoas é a responsabilização de terceiros pelo aumento de infectados e de mortos, mas nunca reconhecem sua parcela de culpa diante do acontecido. Todo esse comportamento faz com que os municípios e estados além de terem que combater o vírus em si, perdem muito tempo combatendo informações falsas disseminadas pelos negacionistas.

Não acredito se tratar de ignorância ou insanidade, mas sim de uma prática que já se estende a séculos e em diversos países e que se evidencia em um país socialmente desigual como o nosso. Considero se tratar de um discurso e prática eugenista, que pode resultar em um darwinismo social se as coisas continuarem como estão.

Infelizmente o isolamento não pode ser desfrutado por todos, a maioria da população do Brasil se constitui de trabalhadores, no qual o salário do fim do mês mal dá para as necessidades básicas de sobrevivência. A ameaça de um darwinismo social é potencializado pela menos valia empregada pelo governo na demora em liberar o auxílio emergencial assim que a pandemia explodiu e da ineficiência da CAIXA na demora em liberar o auxílio e atender população, permitindo filas enormes nas portas das agências, contribuindo assim para a disseminação do vírus entre a população mais pobre.

Além de tudo isso citado acima, o país tem contado com um governo em inteiro negacionismo do atual contexto, que assim como as outras pessoas que estão nesse processo responsabiliza terceiros e contraria a ciência. Tudo isso me remeteu a um dos posicionamentos de Sócrates acerca da sociedade e da política. Dentre seus inúmeros posicionamentos a respeito do papel da política e do estadista na sociedade Sócrates apontava que ambos deveria levar em consideração a pluralidade das pessoas que constituem à sociedade, além de saber lidar e compreender as diversas opiniões e realidades, não impondo a sua visão de mundo às pessoas. Um comportamento oposto a isso levaria a política a assumir uma posição de tirania, com condução ao extermínio dos demais por levar em consideração um única perspectiva [1].

Essa articulação de Sócrates não se difere do que temos presenciado em relação a posição do presidente da república, que discorda de qualquer posicionamento que parta da ciência e dos órgãos mundiais, defendendo apenas a sua “verdade”, conduzindo assim o pais para o extermínio de uma maioria que socialmente se trata de uma minoria naturalizada historicamente.

O governo do país se posiciona como Platão ao negar às ideia Socráticas quando se opõe à verdade e a opinião, substituindo a opinião pela verdade absoluta que não permite nenhum contestamento ou recusa. No discurso de Platão a verdade ocupa um lugar de solidão atuando na sociedade através da persuasão, atropelando as opiniões partilhadas pela sociedade e impondo a sua, sendo assim um governo através da violência [1].

Não consigo visualizar uma mudança total da sociedade nem em meio e nem após a pandemia, alguns coletivos, sim, podem apresentar mudanças morais e ideológicas, outros não, principalmente os que se colocam em uma bolha aquém da sociedade e que não sofrerão grande impacto advindo da pandemia. Quanto aos negacionismos, alguns o contágio pelo vírus pode atuar como a cura ao negacionismo e aceitação da realidade. Entretanto não ouso utilizar um discurso carregado de certezas quanto a isso, pois assim como muitos de nós sabemos o ser humano é uma caixa de surpresas.

Imagem disponível em: http://www.acervofilosofico.com/as-diferentes-fontes-sobre-socrates/

[1] VICENTE, B. N. J. J. (2012). Hannah Arendt: Platão e a negação da pluralidade humana. Kínesis. 04(07), 46-60.

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