• antropoLÓGICAS

"No desaceleramento é que me surgiu o conceito da simplexidade", entrevista exclusiva com May East.

Atualizado: há 3 dias

Por Frederico Viana Machado; Emerson Giumbelli; e Tátia Rangel, para o AntropoLÓGICAS Epidêmicas.




May East hoje é internacionalmente reconhecida por seu trabalho como ambientalista e ativista pelos direitos humanos, tornando-se umas das lideranças da ONG Gaia Education. Na década de 1980, integrou a conhecida banda Gang 90 e Absurdettes, que emplacou alguns sucessos nas FMs brasileiras, e lançou três discos solos cultuados por audiófilos mais antenados. Em seguida mudou-se para a Europa, tendo vivido muitos anos na conhecida Ecovila de Findhorn.


Cursou um mestrado em planificação territorial estudando como regenerar cidades fantasmas no sul da Itália. Atualmente está cursando seu doutorado em planejamento espacial, urbanismo e arquitetura. Além disso, está relançando seus álbuns nas plataformas virtuais. Tabapora, seu segundo disco, acabou de ser disponibilizado nas plataformas (Deezer, Apple Music, Spotify etc.). Remota Batucada e Charities entram em breve.

May East (www.mayeast.co.uk) é uma personalidade multifacetada, revolucionária e inspirada, que nos brindou com esta entrevista exclusiva para o AntropoLÓGICAS Epidêmicas. A entrevista foi feita por skype no dia 06 de junho de 2020, em uma tarde que começava cinzenta em Porto Alegre e terminava ensolarada em Edimburgo.


Frederico: Criamos o AntropoLÓGICAS Epidêmicas para discutir atualidades, motivados pela questão da pandemia, que foi uma coisa que pegou todo mundo intensamente. A gente começa esse debate dentro das ciências sociais, mas está sendo muito interessante porque a gente expandiu esse debate para várias áreas, escritores, músicos, artistas, DJ’s... Fizemos coisas muito variadas, recebemos contribuições muito interessantes e temos gostado do resultado. Isso tem criado um acervo bastante rico e com muita densidade. Quando surgiu a possibilidade ficamos muito empolgados em te entrevistar, por várias razões. Na mesma hora eu pensei no nome do Emerson, porque, além de estudioso da antropologia das religiões, ele tem trabalhos desenvolvidos sobre música. Escrevemos juntos um livro sobre o DeFalla, que deve sair agora nos próximos meses. Gostamos muito de rock brasileiro, e eu particularmente sou muito fã do teu trabalho, dos seus discos solos, sobretudo. Pensamos “poxa, a gente podia fazer uma conversa que se inicia pela questão ecológica e de como isso pode nos ajudar a compreender essa crise da saúde, ecológica, econômica, isso que se entranha na vida da gente com tamanha profundidade, mas também trazer essa conversa para sua vida artística, musical, as suas raízes no Brasil”. Podemos começar com a seguinte pergunta: como a sua trajetória como ativista de direitos humanos e pelas questões ambientais te ajuda a compreender isso que estamos vivendo, o coronavírus e tudo que está provocando na sociedade?


May East: Então, primeiro eu vou questionar esse termo ativista antes de lidar com a questão, porque na verdade eu sempre me considerei uma reflective activist, que seria uma ativista reflexiva. Uma das grandes inspirações no início do meu caminho nas ciências sociais, que cursei na PUC de São Paulo, foi o Paulo Freire, que dizia que a palavra contém duas dimensões: um aspecto de reflexão e um de ação. Quando você utiliza a palavra enfatizando a reflexão aquela palavra vira retórica: “eu poderia, eu deveria, poderíamos”. Aquele tempo de verbo que só existe no português, que é o futuro do pretérito, é lá pra frente mas atrás... Então fica essa retórica que você utiliza só pela reflexão. E quando você utiliza a palavra para ação sem reflexão, enfatizando a ação, que é o ativismo, aquela palavra não toca as raízes da disfuncionalidade da sociedade, ela pode até burilar, pode até chegar num nível de superfície de ativação. E, também no meu trabalho, ao longo das décadas, sempre me reconheci vis-à-vis aos movimentos sociais. Eu sempre fui a May East conversando, dialogando com algum movimento social. Era o antiditadura militar, o antinuclear, durante muito tempo era sempre um “anti”. Eu acordava de manhã e falava assim “como é que eu vou usar a minha energia vital, minha criatividade, para desconstruir os padrões disfuncionais da sociedade?” Era feminista política, era anti-hierarquias patriarcais, era sempre anti. Mais para a frente no meu caminho, e vínculo com o norte global, comecei a estudar Buckminster Fuller que dizia “quando você quer criar o novo, pense no novo, dialogue com o novo, fale com o novo, reflita no novo, até que o velho fique obsoleto”. Então mudei e comecei ativar cidades em transição, ecovilas, o que eu queria com o novo, e deixei para trás aquilo que estava disfuncional. Então quando você fala “como é que você se vê como uma ativista e o que está acontecendo agora?”, respondo que vejo com esse olhar de quem usou sempre a palavra com reflexão e ação e também com olhar de alguém que durante algum tempo trabalhou para desconstruir, depois de um tempo trabalhou para construir um paradigma novo. Em um determinado momento, decidi ser edge worker, trabalhadora de borda, nem trabalhar desconstruindo nem só fomentando o porvir, eu comecei a trabalhar nas bordas. Então hoje, para responder a essa sua pergunta, vou responder a partir das bordas. Agora vamos para a pergunta... você pode perguntar de novo?



Frederico: Posso. Por meio desse pensamento das bordas, você que tem uma trajetória reconhecida na defesa do meio ambiente, esse olhar amplo sobre a natureza e sobre a relação do ser humano com a natureza, imagino que esse contexto da pandemia deve te suscitar um conjunto de pensamentos. Eu queria saber o que é que isso te suscita em termos de reflexão sobre a humanidade, sobre a saúde, sobre a sociedade.


May East: Eu vou trazer três pontos – há muitos, uma multitude, mas vou trazer três. Primeiro, há tempos que eu desenho, nessa minha ação de bordas, no contexto de uma convergência de crises múltiplas, o que é muito diferente de você trabalhar com uma crise. Lembra daquele raciocínio que diz que o mindset, a mentalidade que criou a crise não pode solucioná-la. Agora, acima dessa convergência, chega uma crise global de saúde, que se torna superposta à convergência, ou seja, a convergência se torna mais acirrada, traz outras cores. Este é o primeiro ponto: como é trabalhar essa crise global de saúde superposta a uma convergência de crises que a comunidade internacional reconhece? Tanto que em 2015 as Nações Unidas geraram os ODS, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável: são 17 objetivos, que na verdade é um framework, uma moldura para trabalhar convergências de crises que a nossa geração está enfrentando. É um framework, não tem palavra em português que traduza framework perfeitamente, então eu vou usar moldura, para trabalhar convergência de múltiplas crises. Então esse é o primeiro pensamento. O segundo pensamento é que nunca tão poucos decidiram tanto por tantos. É um questionamento da democracia, da tomada de decisão. Repito: nunca tão poucos decidiram tanto por tantas pessoas. Essa é uma outra linha de pensamento que nós precisamos aprofundar, entender o papel desses “tão poucos” e temos essa capacidade, já que estamos inseridos na convergência das crises com a crise de saúde global superposta, nós temos a inteligência sistêmica para questionar os direitos de democracia, das decisões de tão poucos para o destino de tantos, em todos os níveis. Isso vai de Osaka a Kakariguma, Edimburgo a Nova Iorque. Uma terceira linha pra gente pensar esse tema (estou colocando as linhas mas a gente não trabalhou nenhuma delas ainda, só estou colocando as 3), que seria assim... acho que o grande desafio do design dentro desses contextos é gastar mais tempo buscando as questões certas, do que buscar respostas rápidas. No processo de definir as perguntas pode ser que até os insights da solução comecem a surgir. Então, pra fechar essa linha de pensamento e seguirmos adiante, eu diria que despender mais tempo com perguntas eu acho mais enriquecedor do que dar rápidas respostas. Nesse sentido eu não sei se eu vou ter muitas respostas para vocês, mas eu vou ter algumas reflexões...




Frederico: Ótimo!


Emerson: Então, nessa linha de pensar nas perguntas, qual você acha que seria uma boa pergunta neste momento da pandemia?


May East: Eu acho que a gente tem que construir isso juntos, nós três. Eu vou iniciar uma reflexão e vocês vão poder me ajudar. Um dos conceitos que estou explorando agora é o conceito da simplexidade. Por quê? Porque a pandemia nos trouxe uma oportunidade da simplificação em muitas partes da nossa vida, dentro de um fenômeno muito complexo e onde tem forças visíveis e invisíveis. Porque todo mundo diz: “há, temos que pensar holisticamente, The Whole System Thinking (o pensamento sistêmico)”... Sim, temos que pensar, temos que pensar na saúde do todo, é uma oportunidade de olhar para o sistema por inteiro. Mas os antigos, as antigas, diziam que “as grandes lições estão no threshold”. Threshold é o limiar, eles diziam que “no limiar, na soleira moram as lagartixas”. Na verdade as lagartixas são simbólicas de dragões, quando você está passando por essa soleira e, se não presta atenção nas lagartixas, nas lições... pois temos esse afã humano “e aí, qual é a próxima fase? Estou fechando essa, vamos para a próxima”... e se você não vai muito devagarinho prestando atenção nas lições do limiar, vai viver um ciclo e as lições vão voltar até você aprender. Isso acontece com os relacionamentos, o trabalho... Então nós, enquanto humanidade, seres, instituições, estamos passando por um limiar, que está tocando todo mundo, do norte ao sul, do leste ao oeste, numa crise de saúde global. Então como é que nós vamos passar devagarinho, prestando atenção nas lições do portal e elaborando as questões que vão nos guiar para sairmos do túnel para a nova fase... e qual é... Eu ainda estou no limiar, certo? Eu posso sair aqui, mas só a 5 km da minha casa, por isso agora estou tomando sol - quando o sol sai, venho para a varanda, enfim, eu posso sair mais que uma vez. Até a semana passada só podia sair uma vez por dia, agora posso sair mais, então as coisas aqui estão mais restritas que no Brasil. Portanto, um dos meus inícios de reflexão sobre a pergunta seria: como é então sair desse limiar com uma atitude de simplexidade? Essa é uma pergunta.


Emerson: Em relação ao trabalho da Gaia Education, o que é essa organização de que você faz parte? Você poderia falar um pouco sobre o trabalho da organização e de como ela transforma em ato, em prática, essas ideias, essas reflexões?


May East: Posso sim, eu vou dar alguns exemplos e, a princípio, introduzindo a entidade. Ela um é uma niche organization, uma organização de nicho, nunca quis ser grande, levar a perspectiva gaiana para o mundo inteiro. Ela sempre foi também uma organização de bordas. É uma organização que nasce das raízes, dos designers dos assentamentos humanos sustentáveis que são... eram 23 educadores que viviam nos laboratórios, nas ecovilas, e eu era uma das 23, eu estava lá, na ecovila Findhorn, onde morei 18 anos, onde ainda trabalho e tenho um escritório. Éramos 23, e ativávamos a partir da plataforma do assentamento humano e sabendo que o mundo não pode se transformar numa ecovila, e todos esses laboratórios testando vários parâmetros através da perspectiva ...do triple bottom-line: o social, o ecológico e o econômico, aceitos como os três pilares, ou as três dimensões da sustentabilidade. Há várias perspectivas, mas desde o começo nós introduzimos a quarta dimensão, que é um diferencial da Gaia Education nos debates da educação para o desenvolvimento sustentável: a “visão do mundo” é a quarta dimensão. A forma como você percebe o mundo é que cria as instituições, os sistemas educacionais, o seu estilo de vida, que depois vem e vai apoiar a sua visão de mundo. Não existe transição no mundo de fora se não houver uma transição ou um questionamento da sua visão de mundo. Visão de mundo é como se fosse estudar a cor azul com óculos azuis, tudo o que eu vejo é a cor azul. Eu só sei que existem outras formas de ver quando eu tiro meus óculos azuis e penso: “uau, olha só como é que o Frederico vê isso, e o Emerson...” certo? O movimento do Gaia Education é fornecer as habilidades críticas, cognitivas, práticas e de competências. Estamos falando das mãos, de skills, das competências do coração e também das intelectuais, para fazer um redesenho da presença humana na Terra. As ecovilas estão engajadas nesse redesenho da relação fundamental entre humanidade e o mundo natural, trazendo novas economias, novas formas de pensar, de decidir, de administrar. Então o Gaia Education nasce dessas experiência das ecovilas, mas se coloca na borda para dialogar com os sistemas maiores. Ao mesmo tempo que me tornei CEO [Chief Executive Officer] do Gaia Education, eu já era CEO, durante 10 anos, de uma organização chamada CIFAL, uma organização de treinamento de autoridades locais, de municipalidades, para desenvolver políticas de cidades, e que era associado à UNITAR [United Nations Institute for Training and Research], o braço de treinamento das Nações Unidas. Essa conversa com os mega sistemas vindo das bases sempre foi o que o Gaia Education fez. Por isso os dois diferenciais para a vertente de Educação para o Desenvolvimento Sustentável foram: trazer a dimensão “visão de mundo”e se posicionar nas bordas, entre os “grassroots” – movimentos de base - e a ONU. Gaia Education, nesse momento que coincide com a COVID, está mudando de direção. Eu há 15 anos lidero a organização e já estou há muito tempo, assim, com comichão. Nesse ínterim, nesses anos, pedi para ser reposicionada, me reposicionei, voltei, reposicionei, voltei, e agora me reposiciono mesmo. Virá então uma nova força que vai levar Gaia Education, novas gerações, e eu vou estar mais livre. Estou começando um PhD também e fazendo outras coisas criativas.



Frederico: Muito bom.


May East: Esse tipo de resposta são meio longas né?


Emerson: Você fala o quanto você quiser! May, vou pedir para você dar um exemplo. São projetos que estão em muitos países, dezenas de países... Um projeto, um exemplo que você tem acompanhado, e que consiga ilustrar qual o tipo de intervenção que vocês fazem. E até pra falar um pouquinho mais dessa questão das bordas, a partir de um exemplo, acho que seria legal.


May East: Certo. Quando você perguntou, pensei em duas, vou dar um, se precisar dou um segundo. Um trabalho em que estou envolvida já há cerca de seis anos, desde as grandes ondas migratórias que vieram da África do Norte para a Europa. 2014, 2015, foi quando começaram essas grandes ondas... Eu me associei então à Universidade de Catania na Sicília. Sicília é uma ilha no centro do Mediterrâneo, ela é equidistante da Europa e da África e, ao longo das eras civilizatórias, teve influências de várias culturas, tem muitas camadas históricas, uma grande biodiversidade, a maior biodiversidade da Itália, que é a maior da Europa em termos de ervas aromáticas, enfim, é um lugar muito interessante. Mas também, no momento em que as ondas migratórias começaram a chegar, ela era um dos mais ativos portos de desembarque. Quando cheguei lá, começamos fazendo Design Charrette, Charretes de Design, envolvendo acadêmicos, outras organizações que estavam recebendo imigrantes, migrantes e jovens. Demoramos um tempo para definir quais eram as perguntas... fizemos as perguntas, várias ideias apareceram e aí começamos, depois desse momento de reflexão, um trabalho que teve vários, vários, capítulos, o mais recente talvez possa ser um bom exemplo. Dentro dessas linhas de migração tinha uma linha que persistia, de meninas nigerianas sendo traficadas por traficantes de seres humanos, human traffickers. Era uma linha direta entre a máfia nigeriana e a máfia siciliana. Com pesquisas dizendo que historicamente 80% das sex workers da Itália, negras, eram nigerianas. Essa intercepção de tráfico humano era cuidada por uma ONG de muita integridade, que trabalhava com os casos mais difíceis da chegada dessas comunidades de jovens. A maior parte eram jovens, meninos e meninas. Ao longo desse trabalho, ficou muito claro que a economia siciliana estava muito enfraquecida desde a grande crise de 2008. A Sicília nunca conseguiu se refazer depois da crise financeira. Então você tinha, juntando os territórios do trabalho de bordas, um lugar com uma alta, uma altíssima riqueza de ervas, de cultura, de comida, de local food systems, de sistemas locais de comida, você tinha esses jovens chegando, você tinha aspiração dos produtores locais de colocarem seus produtos dentro de sistemas europeus criando novos mercados, você tinha mão de obra ou trabalho potencial para muitos jovens chegando e querendo uma integração socioeconômica. Na verdade os migrantes que estavam vindo da África não eram migrantes políticos, como os que estavam vindo da Síria, do Afeganistão. Eles eram realmente migrantes econômicos. A aspiração desses jovens era de se colocarem, se integrarem socioeconomicamente, num território de grande biodiversidade junto com os agricultores locais precisando se reformular: tudo isso gerou um projeto chamado Sicília Íntegra. O Sicília Íntegra começou a criar essas oportunidades de mercados de trabalho e de capacitação. Além disso, 61% dos jovens sicilianos naquela época terminavam a universidade e não tinham emprego nem pra eles estocarem prateleiras de supermercado! Como é que você vai gerar emprego para 160 mil novos jovens chegando no seu território, onde seus próprios jovens não têm emprego? Foi trabalhando isso que começamos o Sicília Íntegra e geramos vários produtos, com indústrias tipo LUSH, que é uma indústria de cosméticos éticos da Grã Bretanha, indo lá e comprando os materiais. Lançamos uma linha nova de chocolate, que as meninas lançaram, chamada Courage Chocolate, chocolate da coragem. Isso é um trabalho de bordas, então já teve pasta[massa], já teve chocolate, e estamos trabalhando esses sistemas ecológicos, econômicos, os migrantes, os jovens locais, esse é um trabalho de borda... Às vezes nós captamos recursos, às vezes nós geramos recursos, e na verdade não é um projeto com começo e fim, é aquilo que eu chamo de PBL, Project Based Learning, um projeto baseado em aprendizado. Esse é um PBL que estamos fazendo, já tem vários anos, e ele vai se desdobrando na medida também que as circunstâncias, as megatrends, as trends maiores vão mudando... Há dois anos, a comunidade europeia começou a dar dinheiro para a Líbia, para todos os países da África do Norte, para segurarem os migrantes lá em situações desumanas. Eles não estão cruzando tanto o mar. Hoje eu estou trabalhando com o conceito da circular migration, migração circular. Aqueles que vieram e se capacitaram, estamos trabalhando a possibilidade deles voltarem e começarem a trabalhar os mesmos temas, o empreendedorismo social, os chocolates, as pastas, as ervas, em seus territórios. Então é assim: evolui na medida que avança. É um exemplo. Deu para entender ou ter um vislumbre?


Frederico: Eu entendi. Muito bom, gostei da simplexidade do exemplo.


May East: (risos).


Frederico: Eu estou encantado com essa ideia da simplexidade. Eu acho que a crise climática, assim como a situação que a COVID nos coloca, de fato nos remetem (não sei se a palavra borda se aplicaria a isso também) a uma ideia de limiar, de um retorno à uma radicalidade dos princípios que regem a nossa vida, os nossos desejos, de coisas muito básicas e muito simples. Mas ao mesmo tempo, para poder encarar essas coisas é um conjunto tão grande de variáveis que de fato é uma simplexidade! Eu estou encantado com esse conceito, simplexidade, e eu fico pensando nessa May East que nos traz essa contribuição de uma trajetória com um trabalho ambientalista que não é de hoje, é de muitos anos; E eu cruzo essa May East com a May East artista, cantora, produtora, compositora, e fico pensando: desde o começo da década de 80, desde os seus primeiros discos solos, o Tabapora sobretudo, você já traz temas que hoje estão na ordem do dia, são temas absolutamente atuais, como a questão do meio ambiente ou a proteção da Amazônia. Até mesmo a questão indígena que hoje é urgente já estava posta em seus primeiros discos. O próprio título, Tabapora, coloca todas essas questões. Fico me perguntando “será que essa simplexidade já não estava presente no teu pensamento nos idos de 1984, 85, e te fez vislumbrar a articulação entre coisas que são absolutamente globais, como as suas influências musicais naquele momento (com o new wave, a música eletrônica, e coisas que já eram muito à frente do seu tempo naquela época) com coisas absolutamente locais como a questão indígena, a Amazônia. Enfim, me ocorrem essas interpelações de passado, presente, futuro, e, local, global são dimensões que atravessam esse cenário para mim.





May East: Aprecio muito a sua reflexão e me vêm dois pensamentos. O meu primeiro disco chamava-se Remota Batucada, e, embora nem todo mundo entendesse, ele tinha duas camadas. Remota porque era remoto, eletrônico, como um controle remoto... Eu trabalhava com minimoogs, instrumentos eletrônicos. E remoto do passado também, minha assinatura naquela época era um ouroboros, era uma serpente que comia sua própria cauda, onde o passado e o futuro se encontravam, e essa era minha intenção naquele momento. Então eu acho que aquele disco, o Remota Batucada, na verdade contém muitas coisas. Agora estou trabalhando com a Universal e as outras gravadoras para negociar a oferta das músicas em plataformas virtuais, então estou mexendo um pouco nas músicas. E o Tabapora, morador da taba, então onde era a minha taba. Tudo isso está muito vivo porque estou trabalhando com esses materiais agora. No encarte, já aparecia eu em cima de uma montanha na Chapada dos Veadeiros com uma bandeira da Terra, e eu falava “por uma consciência gaiana”, eu nem sabia que ia trabalhar no Gaia Education, em Londres! Então eram coisas que eu já estava meio que pensando… Essa é uma das razões pelas quais agora eu estou saindo dessa parte administradora da organização. Quando você é um CEO, tem que administrar pessoas, patrocinadores, e muito da minha parte visionária se encaixotou no management do dia a dia. Então, conversar com vocês neste momento, uma nova geração de cientistas sociais, é um deleite para o meu sábado à tarde, porque são essas conversas que estou querendo abrir espaço na minha vida para ter.





Emerson: Acho que há um gancho aí para um tema de que você fala numa das entrevistas mais recentes, que é a antropofagia, algo que você já situa na época da Gang 90. Acho que é uma coisa que as pessoas não associam muito à new wave, pois tinha muito essa ideia do rock dos anos 80 no Brasil como uma espécie de invasão estrangeira, de que tudo aqui era meio copiado, inspirado, decalcado de coisas estrangeiras, sobretudo britânicas e estadunidenses. Mas você fala dessa coisa da antropofagia, o que envolve uma reflexão sobre o que são essas inspirações, não é? Acho que isso só se radicalizou na sua carreira solo por conta dos caminhos que você tomou. Então acho interessante a gente falar desse tema da antropofagia, de como você se insere nisso.


May East: Com certeza, eu não teria nenhum apetite de antropofagizar as tendências estadunidense se fosse uma jovem não ativista no Brasil agora. É que eu trabalhei de outra forma. Primeiro, nunca me considerei uma cantora, eu me achava uma criadora de ideias musicais. Eu chamei minha música de iê-iê tribal. O próprio nome já diz tudo. O segundo tagline da minha música era “música eletrônica brasileira de vontade e procura”, porque pra mim fazer música era um ato de vontade e coragem, porque eu não cantava. Tem pessoas que nascem com talento, sabem tocar música. Eu não tinha esse talento, a vida é que me levou para a música e eu criei uma identidade lá dentro. O amigo que temos em comum, o Johann Heyss, sempre fala assim “olha, May, você me deu tanta inspiração”, exatamente por isso: eu não era uma pessoa musical, e sim uma criadora de ideias musicais. Então iê-iê tribal já era a forma como eu estava trabalhando esse processo antropofágico, na parte conceitual. Mas na parte de realidade... Meu grande insight de sair da Gang 90 foi na Paraíba, eu estava num tour com a Gang 90, que era sex drugs and rock’n’roll, era mesmo assim! Mas era uma coisa que não satisfazia minha alma num certo sentido, eu estava lá mas tinha uma certa insatisfação. Então, nesse tour, estávamos hospedados em um lugar onde o rio se encontrava com o oceano. E, certa manhã, acordei e fui tomar banho nesse rio que encontrava o mar. Eu tive uma epifania, como se as forças da natureza brasileira me tomassem, foi o Brasil me tomando. No dia seguinte voltei para o Rio de Janeiro, rompi com a gravadora EMI, comecei a buscar o tal do iê-iê tribal. E isso continuou, juntando viagens de ônibus na Paraíba com viagens para a Grécia. Quando ia lançar meu disco Charites, um amigo meu me perguntou “me conta o que você fez” e após me ouvir disse: “May East de Creta ao Crato”. As pessoas perguntavam “May, você está compondo melodias modais, da onde você tira essas melodias?” Eu respondia “não sei”. Mas tinha a ver com os lugares para onde eu ia. A minha música, a minha antropofagia não era uma coisa da minha cabeça, eu ia para os lugares, eu pegava o ônibus, 33 curvas da Serra da Borborema, ia para locais como Ingá, Bacamarte, e minha música nascia daí.



Frederico: Acho que a gente podia fazer um encerramento assim: o que a May East deixaria de recado para os leitores do AntropoLÓGICAS Epidêmicas para esse período de isolamento, de quarentena, como enfrentar isso, como construir essa visão de borda, esses limiares, como a gente pode se repensar?


May East: Isso meio que traz alguns pontos do começo, não? Não existe receita porque é uma experiência tão viva para mim como para todos. Na minha experiência, eu na verdade desfrutei bastante do desaceleramento. Dentro do desaceleramento é que me surgiu o conceito da simplexidade e é o que estou trabalhando no momento. Eu estou passando pelo limiar, não estou correndo para o mundo, apesar de que sinto muitas saudades de amigos, familiares e coisas assim. Mas estou dentro do portal e estou trabalhando como é que quero sair, de uma forma que tenha significado mas que também adicione para a saída de todo mundo. Eu vejo assim, pelo menos aqui na Grã Bretanha: as pessoas contando os dias para saírem pro business as usual, e é claro que esse business as usual já entrou em colapso, breakdown. Então, a grande pergunta é: se pelo caminho do business as usual chegamos a mais essa crise que levou ao breakdown, como é que trazemos isso pro breakthrough? Eu não sei como traduzir isso, mas a ideia é do breakdown para o breakthrough, e mudar do business as usual pro change as usual. É a mudança mesmo, eu acho que só vai acelerar a mudança. Porque se voltarmos para os padrões que nos levaram à crise vamos ter que sofrer de novo, vai haver a segunda onda, a terceira onda, e os sistemas vão quebrar mais e mais. Eu acredito na engenhosidade da humanidade. Enfim, eu sou uma gota no oceano e na minha passagem agora estou refletindo como é que vou sair. Já perguntei para as minhas filhas - “o que que vai mudar na vida de vocês na hora que vocês puderem?” Porque uma está na França, outra na Austrália. E elas “não sei, não pensei ainda”. Eu falei “então, vamos pensar”. Este é o momento do “vamos pensar”, o que é que vai mudar. Seria uma grande irresponsabilidade individual e coletiva se nós não estivermos refletindo o que é que vai mudar nas nossas vidas, uma vez que passarmos por esse portal. É um convite a essa reflexão, nem que seja uma coisa mínima. Como estamos trabalhando na coletividade, todos nós temos que contribuir para esse change as usual no lugar do business as usual. É isso, meus amigos.


Frederico: Muito bom. Obrigadíssimo May East, foi um prazer essa conversa.


May East: O prazer é meu, que bom conversar com vocês nesse dia de sol, até me senti em Floripa aqui [May nos contou que tem uma relação muito afetiva com Florianópolis].


Frederico: Muito bom.


Emerson: Bom, eu queria agradecer também, realmente trouxe um pouco de sol aqui pra Porto Alegre, que hoje tá cinzenta. Foi realmente um prazer ter essa conversa, a primeira vez que a gente se encontra. Quem sabe haverá uma próxima vez, em Florianópolis talvez um dia...


May East: Quem sabe!



06 de junho de 2020



Acompanhe o trabalho de May East em seu site: https://www.mayeast.co.uk/



Você pode ler dois artigos recentemente publicados por May East:


Maximising the Edges of Natural and Human Systems: The Case for Sociotones Sustainability 201911(24), 7203

Mapping the ‘Presency’ of Women in Cities Ecocycles, Vol. 5, No. 2, pp. 1-5 (2019) 

© 2023 por Design para Vida.

Criado orgulhosamente com Wix.com

CONTRA A PORTARIA 34 E AS MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES