• antropoLÓGICAS

Notas sobre “grupos de risco” em tempos de coronavírus

Por Rafael Cerqueira Pinheiro. Doutorando em Sociologia do Programa de Pós Graduação em Sociologia da UFMG.


Photo byBenedikt GeyeronUnsplash



A pandemia de COVID-19 trouxe o retorno atualizado de um antigo léxico, utilizado durante a pandemia de HIV/Aids, para se referir a um novo problema. Vemos, sobretudo na cobertura incansável da mídia, o ressurgimento do uso de categorias, como a de grupos de risco, como explicação para uma divisão social entre aqueles que estariam em maior probabilidade de serem acometidos pelo coronavírus daqueles que estariam, supostamente, protegidos. O isolamento social, defendido por autoridades sanitárias para conter o adoecimento generalizado e evitar o colapso do sistema de saúde, parte da prerrogativa de que todos, indissociavelmente, estão suscetíveis de adoecimento. A oposição a essa medida, defendida por aqueles que defendem o chamado “isolamento vertical” (que não encontra respaldo científico sério), considera que apenas alguns grupos, em detrimento do restante da população, precisariam ser protegidos em nome da manutenção das atividades econômicas – acrescento as atividades desenvolvidas na esfera pública e não as restringidas ao âmbito doméstico. Entretanto, essa prerrogativa, inclusive defendida por muitos governantes, além de criar uma falsa dicotomia, gera uma, também equivocada, sensação de segurança, pois delimita uma oposição entre exposição e proteção e revela a incapacidade do Estado de proteger a população, sobretudo os mais vulneráveis. Eu quero chamar a atenção a respeito deste ponto através de um paralelo sobre o uso da noção de grupo de risco durante a pandemia de HIV/Aids, que venho estudando há algum tempo, e o COVID-19, sobretudo para o modo como respondemos socialmente a novas crises sanitárias.

Há cerca de quarenta anos, a aids adquiria caráter pandêmico e se desenvolvia de maneira acelerada. Pouco se sabia sobre a doença, não havia tratamento eficaz e a ciência, na época, associou e relacionou o vetor de disseminação da aids a um grupo cujo comportamento era socialmente recriminado. O modo de classificação utilizado na pandemia de aids, que rotulava homossexuais e usuários de drogas intravenosa como únicos e possíveis doentes e culpados, criou uma falsa sensação de segurança para aqueles que não se enquadravam na dita categoria de risco, uma vez que, segundo essa lógica, esses seriam imunes à aids. A diferença que os grupos de risco marcava foi alimentada por um modelo de classificação social que produzia e reproduzia preconceitos antigos aos quais esses grupos já eram submetidos. Mesmo com a descoberta do agente etiológico viral em meados da década de 80, que rendeu a franceses e americanos a divisão de um prêmio nobel, o estrago já estava feito: o câncer gay, como a aids foi batizada pelo jornalista Lawrence Altman, em reportagem publicada pelo jornal New York Times de 3 de julho de 1981, já denotava qual seria o critério de classificação dos pertencentes ao chamado “grupos de risco”. A superação do uso de categorias estigmatizantes se deu apenas na atuação incisiva de movimentos sociais na denúncia do preconceito e da discriminação a que os acometidos pela aids estavam submetidos. A resposta estava, como nos mostra a história, na democracia.

A reutilização daquela categoria ontológica, que passou a compor o vocabulário do COVID-19, reafirma e reatualiza preconceitos que nos ajudam a estabelecer similitudes entre as duas pandemias. Atualmente, idosos e pessoas que não possuem “proezas atléticas” carregam essa alcunha no cenário repaginado da eclosão da pandemia de aids. A dicotomia reafirmada entre os grupos de risco e o restante da sociedade também alimenta uma divisão entre aqueles que podem ser acometidos pelo coronavírus (“Mas, e daí?” Disse, certa vez, o presidente brasileiro quando o país registrava centenas de mortes diárias) do restante da sociedade. Os chamados grupos de risco nunca se referiam a probabilidades biomédicas de acometimento de um agravo, mas eram sempre designados aqueles que, em meio a um caos sanitário, estavam fadados à invisibilidade. Tem-se, então, um paradoxo: a classificação é um meio de tornar invisível.

A dinâmica de rotular e classificar, atualizada pelo uso da categoria grupo de risco, obedece uma lógica que torna mais invisíveis aqueles que estão menos protegidos da doença. O caos econômico e social que se segue à pandemia revela fraturas do Estado brasileiro em oferecer proteção social aos mais necessitados, sobretudo quando se está em curso o desmantelamento das políticas sociais, mesmo diante de uma grave crise sanitária. A invisibilidade a qual me refiro, que encontra respaldo e legitimação no uso da categoria grupos de risco, se revela eficiente na máquina de gerir a crise, como na sub-notificação alarmante e a testagem insuficiente, sem contar nos milhões de pessoas que se aglomeram em filas de banco para receber uma parca, porém necessária, ajuda financeira para enfrentar materialmente o período de isolamento. Para esses, o uso dos grupos de risco perde a sutileza: não bastassem serem invisíveis para o poder público, ainda são noticiados nas reportagens de jornais em tom condenatório porque o cuidado possibilitado pelo isolamento não lhes é acessível sem que a própria existência esteja em jogo.

O uso da categoria grupos de risco escancara a invisibilidade de grupos deixados à mercê da própria sorte em um momento tão crítico. Se no auge da epidemia de aids a morte civil, termo utilizado pelo ativista Herbert Daniel para se referir à morte em vida, ou seja, a morte dos direitos humanos dos doentes de aids, era potencializada por se tratar de um “grupo de risco” invisível pela sociedade e pelo poder público, na epidemia que vivemos atualmente, ela revela um desprezo por aqueles que não são mais úteis para uma sociedade que prima pela produção e pelo consumo. O uso dessa categoria é equivocado não apenas por legitimar relações de exclusão social, que se aplica tanto na pandemia de HIV/Aids quanto na de COVID-19, como reafirma a incapacidade da sociedade, principalmente do poder público, de oferecer proteção e cuidado, sobretudo aos mais socialmente vulneráveis. Categorias que classificam e excluem perante um risco generalizado apenas servem para reproduzir lógicas de discriminação e exclusão social.

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