• antropoLÓGICAS

v3a21| O choro sem lágrimas

Atualizado: Jul 30

Por Vitor Rocha de Araújo. Graduado em Relações Internacionais (UNESP). Mestre em Saúde Pública (USP). Eterno desajustado inspirado por histórias de vida. Contato: rocha.v.araujo@gmail.com


Há dias choro e não cai uma lágrima. Há dias enterro mortos na minha cabeça. Há dias penso nos frontes de batalha e nas margens abandonadas. Há dias carrego esse choro sem lágrimas. Vejo as bombas mais leves que o ar prestes a estourar nas caras limpas, vejo o desejo por mais tempo. Vejo os rostos ditos velhos e suas rugas terminarem em páginas de jornal: jornadas encerradas. Vejo as dores se confundirem, não consigo separá-las. Quero ver outra coisa, mas percebo minha visão úmida. Lacrimejo e espero a água enfim quebrar o cerco dos meus olhos. Mas nenhuma gota abre o caminho. Choro pelo desejo inalcançável de cessar a dor e choro quando esse próprio desejo ceifa o seu criador. Choro pelas linhas frias do protocolo reinante que colocará dores em números, sem ter conhecido uma história e sem ter tocado alguma pele ainda quente. Choro pelos corações afastados e pelos choros inaudíveis. Ergo a mão para tocar meu rosto, mas nenhuma lágrima corre. Então ouço, lá onde a visão faz curva, as palavras que tanto ansiava. Ouço a história do bem maior e a música precursora do novo amanhã. Ouço a canção de gentileza que pensava não existir mais e ouço as pessoas em coro contra a ignorância. Ouço o canto de quem amo e percebo que suas vozes penetram dentro de mim em níveis tão desconhecidos que meu corpo é abraçado de dentro para fora. Sinto brotar. A água está vindo, aqui e agora, para finalmente me curar. Quanta saudade tinha de limpar minhas lágrimas. Subitamente, porém, entra em meus ouvidos outro barulho, feroz, bruto. Ele vem junto de um cheiro podre, embrulha meu estômago e seca imediatamente as lágrimas que esperava angustiadamente. Seca minha pele e seca meu corpo. A sensação é cortante: são os relatos sujos, os odores fétidos, os mitos desprezíveis. Eles obstruem as vias pedindo doença e terror, agridem a afabilidade, caçoam do bom senso, desatam as mãos dadas. Eles capturam meu choro e atiçam o meu pior. O fogo em meus olhos apaga qualquer vestígio de água e agora minha visão arde e me polui. Grito. Vocifero. Tanta aversão, tanta raiva, tanto nojo. Porque impregnam em mim? Porque roubam minhas lágrimas e me deixam submerso na cólera e na repulsa? Pergunto-me que horror é este, do que é feito. Como ele consegue produzir mãos em riste, ouvidos servis e atos vulgares? Pergunto-me o porquê deste vácuo no meu coração que parece sugar a tristeza ávida em ser matéria. Há dias choro e não cai uma lágrima. Pergunto-me como viver sem chorar. Onde estão essas lágrimas que insistem em não escorrer pelo meu rosto? Para onde vão? Existe chorar pelo avesso? Pergunto-me como sentir tanto. Como beijar sem tocar os lábios? Como sair sem ser para fora? Como conversar sem companhia? Como estar junto estando longe? Como amar sem tocar? Se essa sensação crescesse até estourar, não sei se explodiria água ou sangue. Sinto-me enjoado como se estivesse em alto mar. Avisto um banco. Sento. Fecho meus olhos. Sinto. Silêncio. Meu peito ressoa. Se alguém encostasse nele com os ouvidos, seria concha, entoando o barulho do mar. Talvez, afinal, tenha encontrado essas lágrimas. Essa água não lançada quiçá me fez mar interior. Depois de ter passado a maré forte, encontrei tudo nele. As bombas, as rugas, as dores, os gritos, as histórias, as músicas, os abraços, o amor, a raiva, o nojo e o horror. Encontrei também meu choro sem lágrimas. Nesse mar, agora calmo, sorri.


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