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v3a3| O coronavírus, "a vingança das pequenas desigualdades": entrevista de François Dubet

Atualizado: Jul 30

Tradução livre e apresentação por: Juliane Bazzo, Professora Substituta, Departamento de Antropologia, UFPR Camila Balsa, Doutoranda, Programa de Pós-graduação em Antropologia, UFPR


O sociólogo francês François Dubet, professor e pesquisador vinculado à Universidade de Bordeaux II e também à Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais (EHESS)1, reflete na entrevista traduzida a seguir sobre a crise do Covid-19, que ele vê como um potenciador do que chama de “pequenas desigualdades” até então invisibilizadas socialmente. Essa perspectiva de análise decorre de uma sólida trajetória intelectual que o autor começou a lapidar nos anos 60, sob mentoria do renomado sociólogo Alain Touraine.


Com ele, Dubet teve seu interesse despertado para o estudo dos novos movimentos sociais. A partir disso, ampliou seus horizontes temáticos, mantendo, porém, um mesmo foco analítico: as experiências vividas dos atores sociais pesquisados. Sob essa luz, investigou condutas marginais juvenis, dilemas da educação sob o olhar estudantil e, mais recentemente, a questão da justiça social perante desigualdades e discriminações2. Entre seus livros trazidos ao português estão “Sociologia da experiência” (1994), “As desigualdades multiplicadas” (2003) e “O que é uma escola justa? A escola das oportunidades” (2008).

Para Dubet, o momento da pandemia exige atenção porque pode se tornar um espaço propício à emergência de injustiças potencialmente perigosas no período pós-crise. É o que alerta na entrevista concedida a Jonathan Dupriez e publicada pelo portal do canal de TV Public Sénat, em 01 de abril de 2020.

***

Dupriez, Public Sénat - O Covid-19 pode infectar todos, no entanto, estamos todos igualmente expostos ao vírus?

Dubet - No momento, ainda não se sabe se o fato de ser rico ou pobre determina se você será ou não infectado – ainda não temos estudos que nos permitam afirmar isso com certeza. Neste ponto, o vírus me parece bastante democrático: afeta quase todos, mesmo que seja mais fatal aos idosos que para os jovens. Na história, no entanto, houve doenças que devastaram os pobres e não os ricos, mas aqui não estamos nesse caso. Contudo, são as condições de vida para enfrentar a epidemia que vêm se mostrando muito contrastantes...


Na sua opinião, a crise do coronavírus está exacerbando especialmente as “pequenas desigualdades”. O que isso significa?

O que me impressiona é que, até esse momento, essas desigualdades eram relativamente triviais e não colocavam grandes problemas. Mas, com o confinamento e com a recessão econômica, essas desigualdades se tornam insuportáveis. Na imprensa, lemos artigos sobre “ficar confinado em sua casa de campo” ou “ficar confinado com seus filhos em um apartamento”; sobre o fato de ser obrigado a trabalhar ou não; de estar conectado ou não estar conectado; de ser capaz de ajudar as crianças com a lição de casa ou não ser capaz... Todas essas desigualdades que, de certa forma, faziam parte do nosso dia a dia antes do confinamento, se revestem de uma importância considerável com a pandemia. É a vingança das pequenas desigualdades. Nossa sociedade tendia a considerar que apenas pessoas muito ativas, qualificadas e bem-sucedidas eram muito úteis à coletividade. Agora – e isso é uma coisa boa – percebemos que caminhões, operadores de caixa e coletores de lixo são essenciais. Basicamente, é um lembrete que nos diz que em uma sociedade todos precisam de todos.


Você acha que a França está dividida em duas, entre o pessoal mobilizado na linha de frente para conter a epidemia e os outros que estão em teletrabalho?

Dizer que há uma porção de ricos que podem ficar em casa e fazer seu teletrabalho indefinido e que, do outro lado, estão todos os demais, não me parece algo tão claro. Eu não acho que haja duas classes opostas ou mesmo uma divisão, entre aqueles que seriam diretamente afetados pela epidemia e os que não seriam. Todos são afetados. Mas o coronavírus revela outras clivagens. Percebemos que todos que trabalham e a quem não víamos se tornam visíveis. Descobrimos que todas essas pessoas, esses trabalhadores, esses trabalhos informais, que já foram considerados como complementação de renda, são essenciais para a nossa sociedade. E é isso o completamente novo.


A crise do coronavírus carrega as sementes de uma próxima crise social comparável à dos coletes amarelos3?

O que caracterizou a crise dos coletes amarelos foi a constatação de desigualdades que a sociedade não percebia tanto. Por exemplo, aqueles que precisavam de um carro a diesel para ir trabalhar e aqueles que não possuíam, por exemplo. Nem os sindicatos, nem os partidos políticos, falavam a esse respeito. E isso explodiu com os coletes amarelos, mas não havia expressão política anterior nisso. O que se pode temer hoje é que o confinamento revele tais desigualdades e que não haja expressão política depois que terminar. O essencial, a meu ver, é que conflitos e tensões sociais tenham expressões democráticas coletivas e negociáveis. Se a raiva e o ressentimento permanecerem restritos à esfera privada, é algo muito perigoso. Sem jogar com ficção política, poderíamos ver um ódio de todos contra todos surgir.


Como evitar isso? Devemos recorrer mais aos políticos, aos sindicatos, para sair da crise?

Há um sentimento de injustiça na crise que não é evitável. Mas, quando sairmos do confinamento, surgirá a questão acerca de como encontrar expressões políticas para essas injustiças. Será necessário rediscutir o status da equipe de enfermagem; daqueles que trabalharam e que foram menosprezados anteriormente; da renda exorbitante de alguns e da precariedade de outros; tudo isso será problemático, ao passo que o governo não terá necessariamente colocado esses assuntos sobre a mesa sozinho. Precisaremos de capacidades políticas para negociação, compromisso e discussão. Caso contrário, haverá boas razões para estarmos muito preocupados. Espero que a equipe política assuma a responsabilidade e pare com o jogo detestável de designar os culpados. Não defendo o governo, mas aqueles que lamentam a ausência de máscaras hoje são os que estavam no poder sob Hollande4 e sob Sarkozy5 e que destruíram as máscaras... Então, em algum momento, teremos que fazer a pergunta da responsabilidade coletiva e não de uma responsabilidade acusatória. Depois da saída do confinamento, saberemos quem realmente vale a pena na nossa classe política.

Como você imagina o pós-crise?

Vamos sair em uma situação na qual estaremos muito diferentes psicologicamente, o confinamento deixará vestígios. Socialmente também, estaremos muito diferentes e, economicamente, precisaremos compartilhar as perdas e não os lucros. Vamos ter dívidas, desemprego e nós vamos ter uma demanda por solidariedade. As pessoas mais afetadas dirão: “fomos maltratadas, mas éramos essenciais”. A situação será análoga ao clima que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, quando todos se sentaram à mesa para renegociar uma forma de contrato social e o Estado de bem-estar ou será todos jogando contra todos. Vai depender da política. Porque, até agora, a política acompanhou as mudanças econômicas ora de um modo mais pautado no liberalismo, ora mais no Estado de bem-estar social. Enquanto nos dirigimos ao pós-crise, estamos entrando em uma conjuntura completamente nova. Não será suficiente apoiar a globalização, será preciso redefinir outro modelo.

Notas

1 École des Hautes Études en Sciences Sociales.

2 SILVEIRA, Éder da S. Entrevista com François Dubet. Estigmas e discriminações – a experiência individual como objeto. Educação, Porto Alegre, v. 38, n. 1, p. 157-161, jan./abr. 2015.

3 Principiado nas ruas em novembro de 2018, na França governada por Emannuel Macron, o Movimento dos Coletes Amarelos (Mouvement des Gilets Jaunes) foi inicialmente motivado pelo aumento da taxação sobre produtos fósseis geradores de energia (Taxe Intérieure de Consommation sur les Produits Énergétiques). Posteriormente, o protesto abrangeu pautas relacionadas a reformas fiscais e sociais impopulares atualmente em curso no país. Os manifestantes, em grande parte habitantes de áreas rurais e limítrofes às regiões urbanas, vestiam coletes amarelos, um equipamento de proteção individual obrigatório para motoristas. O movimento se manteve, exercendo influência nas eleições do Parlamento Europeu, em 2019.

4 Antecessor do atual presidente francês, François Hollande, do Partido Socialista, exerceu seu mandato de 2012 a 2017, após vencer a eleição contra Nicolas Sarkozy (2007-2012), então filiado ao Partido Reagrupamento para a República. Em uma época lembrada pelo ataque terrorista ao jornal Charlie Hebdo, pela legalização do casamento homossexual e pela crise econômica, o mandato de Hollande foi encerrado sob forte impopularidade de diferentes setores, inclusive de seu próprio eleitorado, sobretudo pela adoção de medidas contrárias aos compromissos da campanha.

5 O mandato presidencial de Nicolas Sarkozy (atualmente do Partido Os Republicanos), entre 2007 e 2012, antecedido pelo de Jacques Chirac (União por um Movimento Popular), ficou marcado pela reforma da aposentadoria, que incluiu o aumento da idade mínima, como também por uma série de acusações de tráfico de influência e corrupção em licitações.


Texto originalmente publicado em: www.publicsenat.fr/article/debat/le-coronavirus-c-est-la-revanche-des-petites-inegalites-181692

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