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v4a29| O cotidiano islâmico durante a pandemia do COVID-19

Atualizado: Jul 30

Por Francirosy Campos Barbosa. Antropóloga, docente Associada ao Departamento de Psicologia da FFCLRP/USP, pós-doutora pela Universidade de Oxford, coordenadora do GRACIAS – Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes.



“Em verdade, com a dificuldade está a facilidade.” (Alcorão 94:5)



Photo by Levi Clancy on Unsplash




O cotidiano islâmico durante a pandemia do COVID-19 – reiventando o cotidiano e enfrentando a islamofobia



Parte deste artigo foi escrito a convite da revista Dom Total a fim de demonstrar como os muçulmanos estavam lidando com o isolamento social durante o mês do Ramadan. Foi possível descrever as mudanças realizadas durante o período de jejum para as comunidades islâmicas no Brasil. Mas, deixei de lado outros problemas que surgiram durante o período e que ressoam ainda no novo cotidiano.


Um decreto do governo do Estado de São Paulo diz que toda pessoa que morrer durante a pandemia terá enterro como se tivesse morrido de covid-19 assustou alguns muçulmanos, pois, o modo de cuidar do corpo de um morto, de prepara-lo para o enterro requer cuidados rituais prescritos pela jurisprudência religiosa. Atrelada a esta preocupação dos muçulmanos, outro tema passou a configurar em países no qual a proibição do niqab é expressa levando a mulher que descumprir pagar multa, como é o caso da França. Mas como pensar o uso obrigatório de máscaras por conta da pandemia e não liberar as mulheres muçulmanas para o uso do niqab? Se a forma de cobertura islâmica segundo políticos franceses dificulta a identificação, o que dizer das diversas máscaras que são usadas por outros cidadãos? Podemos pensar em um caso de islamofobia? Tanto em relação a vestimenta, quanto aos desprezos aos mortos muçulmanos, conforme o relato feito no Facebook em meados de abril. Esse artigo configura um exercício de pensar que a situação limitante da pandemia também é uma situação que aflora os discursos e posicionamentos islamofobicos.



Ramadan em tempos de pandemia

Do dia 23 para 24 de abril os muçulmanos entraram no mês do Ramadan, nono mês do calendário lunar, mês no qual foi revelado o Alcorão, livro sagrado do Islam. O Jejum do mês do Ramadan é o quarto pilar da prática no Islam, portanto, é uma obrigação religiosa. O Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja com ele) dizia que este é o único ato inteiramente feito a Deus. Estar em estágio de obrigação a Deus é fundamental neste mês. No jejum os fiéis se abstêm de comida, bebida, sexo, cigarro, qualquer ato que quebre a adoração a Ele – antes da alvorada ao pôr do sol – (oração do Magrib), além do jejum dos maus pensamentos, da falta de paciência, das discórdias, etc. O período do jejum tem que ser da reconciliação entre os grupos, famílias, pessoas. Este é o período que se aproveita para fazer um balanço de quão muçulmano se é – aquele que se entrega a Deus, que Confia nEle, que tem obediência. O Jejum é um ato de obediência e adoração.


Muitos muçulmanos se referem a este mês como sendo uma escola. Escola que ensina, sobretudo, a paciência, o desapego a coisas materiais, ensina a dividir comida, a sentir o que as pessoas que sentem fome e sede sentem, ensina a retomar a conexão com Deus. Em minha tese de doutorado, “Entre Arabescos, luas e tâmaras...”, ao escrever sobre o mês do Ramadan, atentei para o fato de suspensão de papéis sociais como definiu o antropólogo Victor Turner, este momento liminar, de uma experiência extracotidiana transforma o fiel, ele sai renovado desta experiência. O abster-se de algo deixa o fiel em contato com o sagrado, transformando-o cotidianamente durante este mês, por isso, o Ramadan é o mês de suspensão de papéis, uma reavaliação do ser muçulmano, do seu iman (fé), das suas práticas (ibadah).


Se por um lado se tem a abstinência alimentar, de outro temos a fartura nas comidas das quebras de jejum chamada de iftar que acontecem em mesquitas ou nas casas com presença de outros familiares e amigos. Há famílias que se organizam para esse mês, agendando com antecedência os jantares (iftar) que vão oferecer em suas residências. Há grupos que marcam para quebrar o jejum na mesquita e ficam juntos durante a refeição e as orações. Em geral também mudam de mesquita para encontrar outros irmãos e irmãs. Há uma circulação grande nas mesquitas, e casas nesse período. É recomendável convidar outros irmãos para quebrar jejum em casa ou pagar seu jantar em algum lugar. Os que não podem jejuar por algum problema saúde alimenta durante o mês um necessitado. Oferecer um iftar é uma dádiva e alegria para os donos da casa. A caridade é praticada o mês todo (sadaqa). Outro momento de encontro é a reza em congregação, por exemplo, rezar o Tarawih (oração realizada por sunitas como mais uma forma de adoração durante o mês do Ramadan) após a última oração da noite (salat Isha). Na madrugada acordam para o sohur que consiste em uma alimentação leve, como ingestão de água, antes da primeira oração do dia - fajr. Nas últimas dez noites do mês muitos muçulmanos permanecem nas mesquitas em adoração a Deus. Nas noites ímpares as mesquitas estão lotadas, porque em uma das noites ímpares foi revelado o Alcorão e os muçulmanos acreditam que tudo que se pede na Noite do Decreto/Destino (Qadr) Deus atenderá, é uma noite que vale mais que mil noites.


Entretanto, este ano o Ramadan foi atípico. A crise sanitária provocada pelo novo coronavírus desencadeou desconforto, incertezas e indagações em alguns muçulmanos. Como será o Ramadan? Como o Profeta Muhammad (SAAS) agiria nessas condições que nos impõe o COVID-19? Há uma hadice do Profeta que diz: "Se você ouvir um surto de uma epidemia em uma terra, não entre nela; mas se a epidemia surgir em um lugar enquanto estiver nela, não deixe esse lugar". Esta fala tem sido usada pelos sheiks e divulgadores-as do Islam como uma forma de respeitar e seguir as prescrições da OMS (Organização Mundial de Saúde) que é ficar em casa. Outro hadice que complementa este: Aqueles com doenças contagiosas devem ser mentidos afastados daqueles que são saudáveis.


Mas as perguntas sobre o Iftar, o tarawih, os encontros familiares, de amigos-irmãos, tudo isso, como está sendo realizado? O iftar está sendo feito com as pessoas com que se divide a casa, seus núcleos familiares, ou sozinhos, como vivem boa parte dos muçulmanos revertidos ao Islam. Esses me contam, que sabem o que é passar um Ramadan sem iftar coletivo ou sem mesquita, porque em suas respectivas cidades não existem muçulmanos e portanto não há mesquitas. Talvez, para esses muçulmanos o confinamento não alterou sua rotina religiosa, entretanto, para quem se habituou à convivência em mesquita tem sido mais difícil aceitar a não convivência em comunidade.


Um hadice (dito do Profeta SAAS) diz que: “Se Deus quer fazer o bem a alguma pessoa, a aflige com tribulações.” O entendimento é que diante de uma adversidade se aprende muito, se reconfigura suas atitudes, práticas, formas de sentir e pensar. De formas diversas a comunidade islâmica no Brasil tem vivido este momento. A maioria compreendeu a gravidade do momento e procura seguir à risca todas as determinações. Há muitos-as médicos-as, enfermeiros-as, e pessoas da área de Saúde que são muçulmanos-as e compõem a linha de frente, que é trabalhar em hospitais, alguns deles já adquiriram COVID-19; outros como o líder comunitário César Kaab, incansável na busca de ajuda a sua comunidade, depois de se recuperar (apresentou sintomas do vírus, embora não testado, como a maioria da população da periferia) voltou ao seu trabalho de doação de cestas básicas e orientação às milhares de pessoas em torno da mesquita Sumayyah bint khayyat - Embu das Artes. O trabalho importante do Instituto 5 Pilares que tem arrecado contribuições para compra de cestas básicas e essas tem sido entregues em diversas comunidades islâmicas e pessoas carentes em São Paulo. Louvável tem sido também o trabalho da refugiada síria Razan Suliman, que sabe o que é viver sem condições básicas e neste Ramadan tem feito marmitas para moradores de rua. Ela tem colocado muito da sua renda mensal neste trabalho, e tem pedido contribuições para continuar neste trabalho. Em Curitiba Sheik Rodrigo Rodrigues e sua comunidade ajudaram com distribuição de cestas as comunidades carentes. A comunidade islâmica xiita também tem se dedicado na ajuda às comunidades carentes, é recorrente a presença do Sheik Rodrigo Jalloul ajudando o Padre Julio Lancelloti na distribuição e comida e produtos de higiene a pessoas necessitadas. Sheik Houssein Khalilo fez visita a hospitais cumprimentando pessoas que trabalham na área de saúde e levando sua palavra de conforto espiritual. O Centro Islâmico do Brasil também tem feito seu trabalho de distribuição de cestas, divulgação da religião e o papel social de orientar os muçulmanos com os cuidados higiênicos que devem ter, assim como os vídeos do Sheik Taleb Al-Khazraji falando sobre o mês do jejum.


Importante ressaltar que a limpeza é parte da fé do muçulmano, não se reza sem ter feito ablução – lavar mãos, rosto, antebraço, pés – isso nas cinco orações diárias. Na casa de muçulmanos também é usual não entrar de sapatos. Os muçulmanos procuram ter suas casas limpas, porque rezam sobre os tapetes, e este espaço deve ser o ambiente mais limpo de suas casas, assim como os tapetes que usam. Esta é uma pequena parcela de Instituições e pessoas muçulmanas que vem ajudando a mudar a realidade de pessoas neste tempo de Covid-19 somado à crise sanitária e econômica, todos estão tomando as devidas precauções, mas eles sabem que quem tem fome não espera, é preciso ajudar aqueles que pouco tem em suas casas, principalmente agora que muitas pessoas perderam seus empregos e os que têm empregos temporários também não estão podendo exercitar suas funções como antes, além de todo pressão psicológica vivenciada em momento de desamparo.


Outras estratégias têm sido usadas pelos Sheiks – falas diárias em suas redes sociais. Muitas Lives com pessoas da comunidade e de fora da comunidade, como tem feito Sheik Jihad Hassan Hammadeh, que de alguma forma transforma o cotidiano confinado de muitos muçulmanos. Sheik Rodrigo Rodrigues tem se dedicado a produzir vídeos explicando palavras repetidas pelos muçulmanos com frequência, ensinamentos sobre o mês do Ramadan, neste sentido, a presença desses Sheiks nas redes tem se intensificado e contribuído para orientar muçulmanos-as. Instituições como a WAMY (Assembleia Mundial da Juventude Islâmica) e a Fambras (Federação das Associações dos Muçulmanos do Brasil) têm proporcionado material religioso e social em suas redes. A Wamy intensificou seu trabalho de dawa no Instagram no qual é possível ouvir palestras curtas dos Sheiks Ali Abdouni e Sheik Ahmed Mazloum orientações preciosas a todos-as os-as muçulmanos-as, assim como distribuição de cestas básicas. A Fambras adotou o modelo seguido por alguns muçulmanos e não-muçulmanos que são as produção de Lives. Uma excelente iniciativa individual foi o da muçulmana Fabiola Oliveira produzindo #ALiveéDelas no qual entrevistou mulheres muçulmanas durante um mês antes da entrada do Ramadan, formando assim um público que se acostumou a este tipo de divulgação. A presença de Lives femininas também tem sido visto com mais frequência, e isso corrobora com uma maior participação feminina dentro da comunidade muçulmana – há divulgação desde maquiagem, roupa, jejum, dieta, hijab, comida, religião e cursos acadêmicos como o que tenho realizado às terças e quintas às 20h pelo Instagram comemorando os 10 anos do lançamento do livro “Olhares Femininos sobre o Islã”.

Acompanhei também o relato de mães muçulmanas, que tem neste período de quarentena tem se dedicado mais a educação dos filhos e a ensiná-los sobre o Ramadan e a religião. Há mães muçulmanas que estão trabalhando de forma remota, o que sobrecarrega a rotina da casa, nem sempre podem contar com a participação dos maridos, porque, ou são divorciadas, ou os maridos estão trabalhando fora de casa. Entretanto, embora o cansaço das rotinas misturadas, muitas me apontam que tem sentido prazer em auxiliar seus filhos nas lições de casa, porque assim conseguem identificar as dificuldades que no cotidiano de mães que trabalham fora isso não é possível, além de aproximar os filhos da religião. Nesse período que antecedeu o início do Ramadan vi algumas mães decorando suas casas com os filhos como uma forma lúdica de inseri-los neste cotidiano especial e ocupar o tempo de crianças nesses preparativos e agora ajudam na preparação do Iftar.

A salat jummah, oração de sexta-feira, obrigatória aos homens e o Tarawih tem sido transmitidos pela Mesquita Brasil tendo a frente o Sheik Muhamad Bukai que após a oração faz um encontro com outros Sheiks para refletir sobre este mês tão importante aos muçulmanos. Na última oração o Sheik usava máscara o que é recomendável a todos que frequentam espaços fora de suas residências. Seguindo as recomendações da OMS e do governo do Estado o Sheik Bukai dá exemplo a sua comunidade, mas, sobretudo, as recomendações do Profeta Muhammad (SAAS) que encorajava a busca de aprendizado religioso, mas sempre se recomendava a necessidade de adotar medidas de precaução básica para estabilidade, segurança e bem-estar de todos os fiéis. Muçulmanos devem se comprometer com a saúde e o bem estar de todas as pessoas, mesmo que essas não sejam muçulmanas. Por isso, muitos vêm seguindo as prescrições que são antes de tudo religiosas.

O Eid Fitr, festa do desjejum, foi restrito aconteceu dentro das casas sem o habitual encontro na Mesquita para um grande e prolongado café da manhã, entrega de presente às crianças e oração especial. É o dia que se feste roupa nova, se presenteia amigos, se festeja. Em 2020 as família acompanharam a oração especial via o site da Mesquita Brasil ou outras mesquitas. Os muçulmanos mantiveram seus cumprimentos via whastApp ou pela redes sociais. A sociabilidade não existiu, embora, em cidades pequenas as famílias se encontraram para o almoço ou café da manhã coletiva. Mesmo com restrições algumas famílias se vestiram para ocasião, fizeram muita comida para comemorar e presentearam suas crianças. O que observei é que as doações foram muito maiores durante o mês, isso ficou evidenciado pela quantidade de cestas e comidas distribuídas e documentadas pelas pessoas da comunidade.



O corpo, a morte, o enterro – a islamofobia

Na minha tese de doutorado, centrei-me no corpo que se entrega a Deus. Esta é a máxima islâmica. Este corpo entregue deve ser limpo, cuidado, respeitado. Há todo um cuidado na higiene para realização das orações, para o sexo, para o cuidado do corpo pós-morte (Ferreira, 2007, 2013; Chagas, 2015; Barbosa e Paiva, 2017; Molina e Barbosa, 2017;).


Como bem escreve Gisele Fonseca Chagas (2015, p.124)


“... a crença de que todos voltarão à vida em seus corpos no Dia do Juízo Final faz com que a cremação ou outras formas de destino final do corpo que não o seu enterro sejam entendidas pelas diferentes tradições islâmicas como uma prática proibida aos muçulmanos”.


E diante de uma pandemia, no qual, a restrição de se velar o morto, ou até mesmo de “fazer o morto” como escreve Chagas em seu artigo fica completamente impossibilitado. Muitos me repetiam durante o mês do Ramadan, quando indagados sobre a possibilidade de ter seu corpo cremado: “Deus me livre disso!”. No Islam o ritual de cuidado com o corpo do morto envolve um sistema de objetos, substâncias e preces e devem ser realizados por muçulmanos. Sendo mulher, no caso de não ter marido, uma muçulmana poderá cuidar do corpo, o contrário também é correto. Os corpos são banhados e perfumados principalmente as partes que envolvem a oração, como a testa, as mãos, os joelhos. O corpo do homem é enrolado em três pedaços de pano, o corpo da mulher é enrolado em cinco pedaços de pano, deixando seu cabelo solto. Nada disso tem sido realizado, por conta da possibilidade de contágio do vírus. O que ainda se consegue em determinados lugares é o enterro em cemitério islâmico, mas sim, não é para todos, porque em algumas cidades não há este espaço reservado ou um cemitério específico.


Ainda sobre enterro de muçulmanos um relato no Facebook me chamou atenção ao problema enfrentado pela comunidade muçulmana da França neste período:


Rosa Freire d'Aguiar (tradutora, viúva de Celso Furtado):


diário de uma confinada -- os muçulmanos O Islã é a segunda religião da França. São uns 5 milhões de pessoas (ou 8, dependendo da contagem), ou uns 8 por cento da população. Não há estatística sobre a religião dos que morreram de coronavírus, mas é de crer que boa parte deles fosse de confissão islâmica. A julgar pela notícia de que restam poucos lugares para enterrá-los. Incrível como pareça, até hoje na França há cidadezinhas que se recusam a enterrar muçulmanos. São poucas, mas as há. Em geral os cemitérios têm os "carrés" (uns lotes) para enterrar muçulmanos, e judeus. Os judeus têm mais "carrés". Seja como for, os dos muçulmanos estão perto da saturação. Dupla tristeza, porque, com as fronteiras fechadas, as famílias não podem repatriar os mortos (o islã encoraja a volta às "terras de origem"). Morei muitos anos ao lado da Grande Mesquita de Paris, e da minha janela acompanhava toda sexta-feira a imensa afluência de muçulmanos de todas as classes sociais que iam rezar: embaixadores de países africanos muçulmanos, que chegavam em carrões, ou imigrantes muito pobres, e as indefectíveis mulheres sentadas nos degraus da mesquita, pedindo esmola. Na sexta-feira passei pela mesquita, e foi um choque vê-la de portas fechadas. O que também será outra tristeza para o islã daqui a uns dez dias, quando começa o Ramadan, um dos cinco pilares da religião. O reitor da Grande Mesquita de Paris está fazendo um apelo urgente para que o governo providencie outros lugares de inumação, até que os muçulmanos tenham onde cair mortos. Desgraceira! (Facebook, 14 de abril, 2020, sic)




Este relato me faz retomar o livro “Vida Precária” de Judith Butler que afirma que “a perda de algumas vidas ocasionam o luto; de outros, não; a distribuição do luto decide quais tipos de sujeitos são e devem ser enlutados...”. Muçulmano não tem os mesmos direitos se comparado a outros. Acompanhei o desespero de um refugiado sírio que durante a pandemia perdeu sua mãe para covid-19, ele que se esforçou para trazer sua mãe, chegando ao Brasil há dois anos, a perdeu durante o mês do Ramadan, e não podendo cuidar devidamente do corpo da mãe, fez um apelo para que conseguisse enterrá-la em cemitério islâmico, o que conseguiu com ajuda de amigos e da comunidade muçulmana. Em São Paulo há dois cemitérios islâmicos, o de Guarulhos, e mais recentemente o de Itapecerica.


A pandemia trouxe ao cotidiano islâmico outra forma de aceitar os rituais sem perder a essência de devoção para cada um deles. Um corpo islâmico não pode ser violado por se tratar de uma criatura de Deus, por isso, sempre os cuidados com a limpeza corporal. Práticas como lavar as mãos já são do cotidiano islâmico, porque elas são no mínimo lavadas cinco vezes ao dia durante a ablução, assim como, tirar sapatos antes de entrar em casa, higienizar espaço onde se realiza as orações. “A limpeza é metade da fé”, diz um hadice do Profeta Muhammad.



Somos todos niqabis

Um objeto que virou símbolo desta pandemia são as máscaras. Em três meses se popularizou de todas as formas fora e dentro do Brasil. Em alguns países como a França os cidadãos são obrigados a sair de máscara, desde 11 de maio será multada toda pessoa que não usar máscara no metrô de Paris por 135 euros (810,00). Esta decisão levantou uma questão antiga a respeito do uso do niqab, tecido que cobre o rosto de mulheres muçulmanas, e que algumas optam em usá-lo, mas que é proibida na França desde 2010, a mulher pega usando tem que pagar 150 euros (mais ou menos 900 reais).


Importante dizer que a vestimenta religiosa das mulheres é uma recomendação alcorânica, mas que nenhuma mulher deve ser obrigada a usar se não for da sua vontade própria, pois isso, está na relação dela com Deus e não com os homens. Entretanto, alguns grupos, optam também pelo uso do niqab, pois esta era a vestimenta das mulheres do Profeta Muhammad, consideram ser a forma mais correta de praticar sua devoção. Há muito debate a respeito, entretanto, refletindo sobre a autonomia dessas mulheres, considero legítimo toda a forma de autorepresentar em público. Na França, mulheres que usam niqab são multadas. E agora com o uso das máscaras? Muito deste debate ressuscitou esta antiga questão, e muitos ataques às muçulmanas voltaram na esfera pública. Elas não podem usar o pano que cobre seu rosto, mas podem e devem usar máscaras.


Os argumentos utilizados em 2010 para proibição da cobertura facial das mulheres seriam: 1) só as faces descobertas permitem a verdadeira socialização; 2) ser capaz de identificar as pessoas é questão de segurança pública, e 3) o Estado francês é laico (o que levou o país a banir já em 2004 o uso de símbolos religiosos nas escolas públicas, dos quais o mais visível era o véu muçulmano). O uso de máscara, por exemplo, descarta os dois primeiros itens que são atribuídos às muçulmanas. A sociabilidade mesmo de máscara continua, e não se discute a questão da segurança pública, em uma sociedade que agora terá que viver completamente “mascarada”.


Agora somos todos niqabis, mas isso não é motivo de novas discussões sobre o tema, recaindo claramente o sentimento islamofóbico, o mesmo que vimos no relato sobre os enterros de muçulmanos na França. A saúde pública impacta o cotidiano, mas o sinal diacrítico de uma religião é proibido, por conta de uma laicidade que exclui o outro do cotidiano. A discussão sobre autonomia dessas mulheres nunca foi levada em consideração, mas o que elas já faziam pode hoje ser considerado como algo de “proteção” as novas doenças, assim como os cuidados com a higiene dos corpos? O debate está posto. Vamos acompanhar os desdobramentos, que por hora, deixa as mulheres vulneráveis duas vezes, por usar o niqab e por “não” usar máscara.


O que este texto deixou entrever em certa medida é que uma pandemia pode não só mudar o cotidiano de pessoas religiosas, mas também, traz à baila velhas discussões de práticas proibidas em determinados contextos, e entremeia reinvenções de cuidados e práticas devocionais. Estamos longe de ver o fim do covid-19, mas certamente, muito dessas discussões e revisitações serão importantes para nossas reflexões enquanto antropólogos. Compreender algo que ainda não sabemos viver faz parte deste novo cotidiano que nos coloca não só para reiventar práticas, mas para adquirir outras e retomar formas do vivido. Talvez, seja o momento adequado para refletirmos sobre os nossos pré-conceitos e reaprender que novas formas de olhar o outro e suas práticas podem ser também formas de superar o momento atual.


Referências

BARBOSA, Francirosy Campos  and  PAIVA, Camila Motta. Sexo/prazer no Islam é devoção. Relig. soc. [online]. 2017, vol.37, n.3, pp.198-223. BUTLER, Judith

CHAGAS, Gisele, F. Rituais fúnebres no islã. In: Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 35(1): 121-138, 2015


FERREIRA, Francirosy Campos Barbosa. (2007), Entre arabescos, luas e tâmaras: performances islâmicas em São Paulo. São Paulo: Tese de Doutorado em Antropologia Social, USP.


FERREIRA, Francirosy Campos Barbosa., “Diálogos sobre o uso do véu (hijab): empoderamento, identidade e religiosidade”. Perspectivas, v. 43:183-198. 2013.


Molina Ana Maria Ricci, Barbosa Francirosy Campos. A ética sexual no Islã e no mundo ocidental: interpretando o corpo e o sexo. In: Reflexão, v. 42. N.1. p. 95-111, 2017


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