• antropoLÓGICAS

O “império” do corpo e dos sentidos:

um desafio para pensar usuários da PrEP no Brasil e praticantes do sexo bareback em tempos de Covid 19


Por Vladimir Bezerra. Psicólogo clínico. Doutorando em saúde coletiva pelo Instituto Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz (IFF-Fiocruz) – Rio de Janeiro, Brasil.


Photo by Jake Davies on Unsplash



Há dois meses tenho dedicado um esforço para pensar uma questão específica: em tempos de risco de infecção pela Covid 19 e necessidade de isolamento social de modo a evitar a proliferação de novas infecções, o que alguns usuários da PrEP e praticantes do sexo bareback têm a dizer sobre o isolamento?


A profilaxia pré-exposição (PrEP) é uma tecnologia de prevenção que consiste em um comprimido que, ingerido diariamente, tem até 96% de eficácia contra o vírus da imunodeficiência humana (HIV). Esta tecnologia foi introduzida no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2017 e tem apresentado resultados positivos[1].


De modo geral, como tenho pontuado em artigos oriundos de meu percurso em pesquisas etnográficas sobre sexualidade masculina, PrEP e o sexo bareback[2] entre homens na cidade do Rio de Janeiro, observo que seja entre praticantes do sexo sem preservativo ou a partir da utilização e do sucesso da PrEP, as narrativas destacam uma certa predominância de uma experiência corporal mais intensa; nesse sentido, o corpo e os sentidos (visão, olfato, tato e paladar) têm representado uma espécie de “império”[3] sobre o sujeito.


A preponderância do corpo e dos sentidos desafia cotidianamente profissionais da área da saúde, além de cientistas sociais dedicados às pesquisas sobre sexualidade e comportamento, a refletirem mais criticamente sobre a cultura, e mais especificamente sobre as dinâmicas sociais de determinados grupos e práticas sexuais consideradas “dissidentes”, como o sexo “pig[4] ou o próprio bareback, por exemplo. Adicionalmente, vivemos a realidade de milhares de mortes por infecção pela Covid 19, e o dilema de alguns usuários da PrEP e/ou homens praticantes do sexo bareback: respeitar ou não o isolamento social? Nessa ótica, a “escuta” do pesquisador – entendida aqui como as possíveis reflexões oriundas da equação entre o que ouve e o que vê em seus campos de trabalho – torna-se um desafio.


É incontestável que no mundo, e mais especificamente no Brasil, respostas sagazes das políticas públicas de saúde às questões mais subjetivas das políticas de cuidado de si têm sido dadas. Desde o ano de 2010, com a divulgação dos primeiros resultados do estudo iPrEX pelo The New England Journal of Medicine[5], até introdução da PrEP no SUS em dezembro de 2017, as mais recentes notícias de pesquisas sobre a PrEP injetável são provas dos avanços na área.


Como informa o infectologista Rico Vasconcelos, “a PrEP chegou a esse mundo em um momento muito oportuno, uma vez que as campanhas de prevenção de HIV baseadas no uso de preservativos já mostravam sinais de esgotamento, e ainda registrávamos em todo o mundo mais de 2 milhões de novos casos da infecção anualmente...[6]


Contudo, ao acompanhar há mais de dois anos as interações entre homens que fazem sexo com homens (HSH) em uma rede social de bate papo, sinto-me impelido a trazer algumas questões.

Nos últimos 3 anos tenho acompanhado um grupo de conversa online para sexo bareback formado por HSH, onde nos últimos 2 meses a discussão sobre o isolamento tem tomado muito do tempo dos mesmos; também tenho me debruçado desde o ano de 2016 a acompanhar diálogos em outro grupo exclusivo de usuários de PrEP, este grupo misto entre praticantes de bareback e praticantes de sexo com preservativo. Em ambos os casos, me parece urgente olhar cuidadosamente não apenas para determinadas discriminações, assimetrias, hierarquias sociais, e discursos que passam a marcar os comportamentos. Esse é um fato já discutido por mim em outras oportunidades. Muito recentemente, ambos os grupos foram inundados com vídeos caseiros de pessoas em banheiros públicos mantendo relações sexuais, utilizando-se de máscaras faciais – uma das regras para a prevenção contra a Covid 19.


Trago aqui a quebra do isolamento social como uma prática comum entre alguns destes homens. Nesse sentido, observo um filtro recorrente nas falas sobre certo “dilema” da quebra do isolamento social durante a pandemia; no caso dos usuários da PrEP, “o que determina se vou transar com a ou b é se usa PrEP ou não”. No caso dos homens praticantes de bareback, a proeminência do tesão, da “pele com a pele”; diz um dos homens: “...não adianta, sucumbi à luxúria, com todas as medidas de proteção, álcool gel, máscara, inclusive durante o sexo”.


Se o preservativo é cada vez mais colocado no papel do “vilão” do tal império do corpo e dos sentidos; se algumas reportagens já indicam que os comprimidos da PrEP podem “estar com os dias contados”[7], e pesquisadores apontam que a forma injetável de PrEP é ainda mais eficaz na prevenção ao HIV do que as doses diárias, restam aqui mais perguntas do que respostas.


No “império” do corpo e dos sentidos, onde uma certa urgência do desejo e do prazer preponderam, mesmo em tempos de Covid 19, o que representa a PrEP para seus usuários? Para os praticantes do sexo bareback, esqueçamos o vírus HIV, pois como bem pontuo em outros artigos, esta é uma equação bem resolvida para a maioria dos homens. Entretanto, pergunto: qual o limite entre a satisfação da experiência do sexo “na pele” e a prevenção contra a Covid 19?


Certamente questões que não se respondem facilmente – e nem se encerram em si mesmas –, mas fazem com que nós, profissionais da saúde mental e cientistas sociais, repensemos nossas “escutas” e reflitamos mais criticamente sobre a cultura do risco, as tecnologias de prevenção e o comportamento humano nos contextos das sexualidades.


Notas: [1] Fonte: https://portal.fiocruz.br/noticia/lancet-hiv-destaca-os-resultados-do-prep-brasil . Acessos em 15 mai 2020. [2] Sexo sem preservativo. [3] Em referência direta a Luiz Fernando Dias Duarte, e seu artigo “O império dos sentidos” (1999). [4] Na tradução livre, “sexo sujo”. [5] Ver o estudo em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1011205 [6] Fonte: https://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2020/05/22/prep-injetavel-de-longa-duracao-e-eficaz-e-segura-na-prevencao-do-hiv/ [7] Fonte: https://observatoriog.bol.uol.com.br/noticias/2020/05/estudo-aponta-que-prep-injetavel-e-mais-eficaz-do-que-comprimidos .



Referências:

DIAS, Sureña. Estudo aponta que PrEP injetável é mais eficaz do que comprimidos. https://observatoriog.bol.uol.com.br/noticias/2020/05/estudo-aponta-que-prep-injetavel-e-mais-eficaz-do-que-comprimidos . Acessos em 20 maio 2020.

DUARTE, LUIZ Fernando Dias. O império dos sentidos: sensibilidade, sensualidade e sexualidade na cultura ocidental moderna. In: Sexualidade: o olhar das ciências sociais. Rio de janeiro: Zahar, 1999.

GRANT, Robert et Al. Preexposure Chemoprophylaxis for HIV Prevention in Men Who Have Sex with Men. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1011205 . Acessos em 20 abril 2020.

PORTUGAL, Juana. Lancet HIV destaca os resultados do PrEP Brasil. https://portal.fiocruz.br/noticia/lancet-hiv-destaca-os-resultados-do-prep-brasil . Acessos em 22 mai 2020.

VASCONCELOS, Rico. PrEP injetável de longa duração é eficaz e segura na prevenção do HIV. https://ricovasconcelos.blogosfera.uol.com.br/2020/05/22/prep-injetavel-de-longa-duracao-e-eficaz-e-segura-na-prevencao-do-hiv/ . Acessos em 22 maio 2020.

© 2023 por Design para Vida.

Criado orgulhosamente com Wix.com

CONTRA A PORTARIA 34 E AS MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES