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v6a5| O jogo do vírus e as políticas do estar juntos

Por Carlos Mendonça. Professor associado do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (DCS/UFMG), professor permanente no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFMG. É um dos líderes de pesquisa do Núcleo de Estudos em Estéticas do Performático e Experiência Comunicacional - NEEPEC.


Ilustração de Adara Sánchez Anguiano para a Revista Salvaje Issue 4. Disponível aqui


Em um momento de reclusão provocado por uma pandemia, somos afetados pelo vírus mesmo sem estarmos contaminados por ele. Não é uma manifestação subjetiva apenas, é um fluxo global que nos atravessa. Um afeto advindo da ameaça pública (MASSUMI, 2010). Afetos são potências capazes de alterar os movimentos dos corpos (SPINOZA, 2007; CLOUCH, 2010; STEWART, 2007). Diante de um vírus altamente letal, para o qual não há vacina, todas as pessoas tornam-se transmissoras da morte. Diante disso, somos obrigados a nos isolarmos. O estar junto se transformou em algo ameaçador. Confinados. Pessoas de todos os lugares socializam, nas plataformas digitais, suas experiências na clausura. Uma descarga de tensões. O que vemos e lemos nas redes sociais são manifestações de medo, de esperança, de insegurança, de buscar formas para reduzir a solidão. Vemos e lemos as emoções – sentimentos manifestos de modo cônscio pelos sujeitos (CLOUGH, 2010). Catálises intersubjetivas, expressões afetivas globais diante do reconhecimento amplo de nossas vulnerabilidades (BUTLER, 2015). A vida em jogo.

Um jogo tem por finalidade o entretenimento e é composto por regras que determinam quem ganha ou quem perde. Distintamente, no jogo da pandemia não é o divertimento que se objetiva. Porém, ao final, vencedores e perdedores já estão estabelecidos. O vírus parece ser um jogador total, que abrange igualmente a todos. Entretanto, a partida é desigual. De um lado há um sujeito parcial, que joga estimulando certo tipo de experiência, de vivência. Mas esta vivência não é um todo. Ele é a experiência de populações dotadas de recursos tecnológicos, econômicos e financeiros que as permitem ficar em casa e expandir para além das paredes a moradia. No outro lado, há os despossuídos desta condição, aquela parcela humana condenada ao sofrimento, à precariedade (BUTLER, 2015) a qual se junta às fatalidades da doença. Na pandemia as experiências permanecem recortadas por condições de classe, de raça, de gênero e sexualidade. As regras do jogo para muitos grupos já estão pré-determinadas. Neste sentido, a pandemia apenas joga o jogo da vida ordinária.

“O vírus não discrimina”, afirmou a filósofa norte-americana Judith Butler (2020, p. 60). Entretanto, avança Butler, a assimetria social e econômica promete as condições de desigualdade ao vírus. Até o momento, grande parte dos mortos pela enfermidade nos EUA são pessoas negras e pobres. No estado de São Paulo, segundo o relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública2 – publicado em abril deste ano -, aumentou em 44,9% o número de atendimentos da Polícia Militar às mulheres vítimas de violência no ambiente doméstico e em 46,2% os casos de feminicídios, durante a quarentena. Diante de tanta mudança, dentre aquelas coisas que mantêm-se iguais estão as forças do racismo, do patriarcado, do capital e suas capacidades discriminatórias.

(...) todos dão testemunho da rapidez com a que a desigualdade radical, que inclui o nacionalismo, a supremacia branca, a violência contra as mulheres, as pessoas queer e trans, e a exploração capitalista encontram formas de reproduzir e fortalecer seus poderes dentro das zonas pandêmicas. (BUTLER, 2020, p. 60)3

Em um cenário de terra devastada, grandes grupos padecerão por fome, falta de empregos, falta de acesso ao atendimento básico de saúde, falta de condições sanitárias, dentre outras muitas faltas. Outros tornar-se-ão ainda mais ricos. “Que aprendam de uma vez por todas: neoliberais não choram. Eles fazem conta, mesmo quando as pessoas estão a morrer à sua volta” (SAFATLE, 2020). A esta altura nos postamos em frente à pergunta que atravessa a obra de Butler: quais vidas importam?

No mundo da propaganda, o sujeito parcial modifica suas velocidades e intensidades tentando recuperar, ao final, aquilo que era chamado normal. A publicidade do banco anuncia como é curiosa a forma pela qual nos adaptamos ao novo, passamos a viver, consumir e trabalhar. O comercial diz que criar soluções para adaptar-se é estar preparado para viver os tempos vindouros. Depois de tanto louvar o futuro, o vídeo é encerrado com uma promessa de passado: “Quando tudo isso passar, tudo voltará ao normal”. Mas aquele “normal” já não existe mais. “Coronavírus: OMS diz que é preciso alterar o estilo de vida até o fim da pandemia”, dizem as manchetes dos jornais. A pandemia coloca em jogo a economia, a política, a cultura, a ciência, o social, as emoções. O movimento provocado pela pandemia não é local, é global, sentenciam as reportagens.

A pandemia se apresenta como uma agente autônoma (MASSUMI, 1998) a colocar em cena sua ação direta sobre os corpos e suas repercussões sobre a sociedade. No jogo da pandemia os corpos estão submetidos à sensação. “Sensação é o modo em que o potencial está presente no corpo que percebe” (MASSUMI. 1998). Este talvez seja o dado comum: é preciso pertencer. Entretanto, isto deveria ser uma condição comum a todos e não apenas aos donos da bola. No tempo do sequestro de si, sem a previsão de um resgate, é preciso buscar formas de restituir o direito à vida. Precisamos encontrar formas de abertura a outros corpos, encontrar um outro estar junto, uma outra ontologia em uma política em devir – uma emergente consciência de que “pertencer é tornar-se” (MASSUMI. 1998). Estas aberturas permitem composições heterogêneas que são moduladas localmente com repercussões globais. Em um mundo conectado, as repercussões não estão limitadas apenas aos grandes movimentos governamentais. Elas nascem também das micropolíticas, das pequenas habilidades de relacionar-se, de abrir-se ao outro, de deixar afetar-se.

Um devir coletivo atravessa o mundo. Uma mistura de eventos, de corpos, de emoções, de signos na direção de uma mudança efetiva. Não serão apenas as ciências da natureza as responsáveis por dar conta do evento vivido neste ano de 2020. Tampouco, serão os saberes sobre saúde os únicos responsáveis por equacionar os problemas da enfermidade. A grande crise sanitária demonstra nossas interligações diversas. Afecção dissímil sobre os corpos. Por tudo, os afetos trans-humanos do vírus transformam os movimentos e consequentemente as ontologias e as políticas dos corpos.


Referências: BUTLER, Judith. Quadros de guerra. São Paulo: Editora Civilização Brasileira. 2015.

BUTLER, Judith. El capitalismo tiene sus límites. In: Sopa de Wuhan. Buenos Aires: Editorial ASPO (Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio). 2020.

CLOUGH, Patricia. The Affective Turn. In: GREGG, Melissa; SEIGWORTH, Gregory (Org.). The affect theory reader. Durham: Duke University Press, 2010.

FERREIRA, Giorgio Gonçalves. Matéria e movimento em Espinosa: o que pode um corpo e algumas questões para a contemporaneidade. Revista de Filosofia do IFCH da Universidade Estadual de Campinas, v. 2, n. 4, jul/dez. 2018.

MASSUMI, Brian. The Future Birth of the Affective Fact: The Political Ontology of Threat. In: GREGG, Melissa; SEIGWORTH, Gregory (Org.). The affect theory reader. Durham: Duke University Press, 2010.

MASSUMI, Brian. L’économie politique de l’appartenance et la logique de la relation. 1998 Disponível em: https://www.brianmassumi.com/english/essays.html

SAFLATE, Vladimir. A única saída é o impeachment. Disponível em: https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-03-20/a-unica-saida-e-o-impeachment.html

SPINOZA, Baruch de. Ética. Belo Horizonte. Autêntica Editora. 2007.

STEWART, K. Ordinary affects. Durham: Duke University Press Book. 2007.


Notas:

1  https://www.ebc.com.br/forum-brasileiro-de-seguranca-publica

“(...) todos dan testimonio de la rapidez con la que la desigualdad radical, que incluye el nacionalismo, la supremacía blanca, la violencia contra las mujeres, las personas queer y trans, y la explotación capitalista encuentran formas de reproducir y fortalecer su poderes dentro de las zonas pandémicas.”



Texto originalmente publicado na série de boletins da ANPOCS sobre coronavírus e Ciências Sociais. Disponível aqui.

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