• antropoLÓGICAS

v3a9| O medo de engordar em tempos de COVID-19

Atualizado: Jul 30

Por Marcelle Jacinto da Silva. Pós-Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFC. Pesquisadora do Núcleo de Pesquisas sobre Sexualidade, Gênero e Subjetividade (NUSS-UFC) e do PARALAXE - Grupo Interdisciplinar de Estudos, Pesquisas e Intervenções em Psicologia Social Crítica (UFC).


Photo bySiora PhotographyonUnsplash


Em tempos de Covid-19, a gordofobia (enquadramento hegemônico e socialmente aceito do corpo gordo) tem se manifestado diariamente na forma de memes que comparam corpos antes e depois do período de confinamento. Em geral, corpos magros que se transformam em corpos gordos em um curto período de tempo, tendo em vista que, ao menos no Brasil, estamos vivenciando essa nova modalidade de ficar em casa há menos de dois meses. E muitas pessoas tem compartilhado esses memes em suas páginas de redes sociais e em grupos de Whatsapp como se fosse muito engraçado engordar, ou ter medo de engordar; como se fosse natural tratar esse assunto como se engraçado fosse; como se não estivéssemos presenciando um evento histórico no qual milhões de pessoas estão morrendo no mundo todo, uma pandemia de um vírus que tem atravessado fronteiras geográficas, de classe, de raça, geracionais e de gênero.


É certo que mesmo antes do surgimento da internet, o corpo gordo já figurava como um estigma, um sinal corporal que despertava a curiosidade das pessoas, que suscitava o riso, que remetia ao pecado da gula e, consequentemente, certo grau de desaprovação diante do olhar do outro. Entretanto, nem sempre foi assim. Nos tempos da proclamação da República brasileira, engordar não representava um medo. A preocupação com a falta de alimentos era maior do que pensar em regimes e dietas. Ter um corpo gordo, na verdade, era sinônimo de fartura, de prestígio, era um privilégio no contexto de um país assolado pelo drama da desnutrição e da realidade da fome, considerados por muito tempo, um problema de saúde pública no Brasil. Foi somente com o passar dos anos que a representação dessa realidade mudou radicalmente, sobretudo com a disseminação das balanças, do acesso facilitado à prática de pesar o corpo e saber o próprio peso. E a imprensa, com suas formas de espetacularização da vida cotidiana, foi um fator importante nessa mudança.

Os corpos representados nos jornais e revistas, na televisão e no cinema, representavam aquilo que era rejeitado e o que era idealizado na sociedade, e o que era rejeitado, muitas vezes, aparecia acompanhado de mensagens e simbologias que faziam dessa rejeição uma piada. Nesse sentido, quanto mais gordo um corpo era, mais motivos havia para fazer desse corpo alvo de chacotas.

As concepções a respeito do corpo gordo foram mudando na medida em que as concepções da ciência sobre o corpo, de modo geral, foram se transformando. Houve um tempo em que o corpo foi pensado como um armazém, então, era preciso armazenar comida nele, mantê-lo cheio. Depois, especialmente com o desenvolvimento industrial, a ideia que associava o corpo com uma máquina foi introduzida na sociedade, onde a comida começou a ser entendida como um combustível necessário para o funcionamento da máquina. A ideia de fracasso e de responsabilização individual foi, então, uma consequência desse processo.

Mas a pressão estética sobre os corpos não se espalhou de forma homogênea e democrática para todos os corpos, já que ainda no século XX, era possível perceber que as mulheres eram as personagens mais mencionadas na imprensa. Se antes, ter um corpo com formas arredondadas era mais desejável por representar um ambiente ideal para uma boa gestação, com o tempo, ter um corpo magro passou a ser uma expectativa e, consequentemente, um padrão de beleza. Ter um corpo gordo passou de motivo de orgulho para algo vergonhoso, virou uma doença, a obesidade, condição associada a um rol de outras doenças, solidificando o imaginário sociocultural que passa a enxergar e tratar a pessoa gorda como uma pessoa fatalmente doente. Por ser uma doença, há necessidade de um tratamento, de uma cura, isto é: é preciso emagrecer. Então, se a pessoa gorda, sabendo que seu corpo representa uma anormalidade, resolve continuar gorda consequentemente, essa pessoa é julgada, culpabilizada e responsabilizada por permanecer anormal.

Acontece que essas concepções, que constituem uma visão hegemônica e socialmente aceita, não só tem como desdobramento uma série de questões emocionais e psicológicas na pessoa gorda, tais como depressão e ansiedade, que por sua vez desencadeiam outro conjunto de problemas de saúde, como transtornos alimentares e comportamentos suicidas, encorajam as pessoas não gordas a se sentirem no direito de opinar sobre os corpos gordos e/ou expressarem suas opiniões de formas preconceituosas que podem fomentar a violência em suas variadas facetas.

Nas sociedades mediadas pelas tecnologias de informação e comunicação, com a facilidade proporcionada pelos computadores pessoais e smartphones cada vez mais recheados de aplicativos com as mais variadas funções, as pessoas não gordas sentem que tem uma liberdade ainda maior de expressar suas opiniões e preconceitos sobre os corpos gordos. Protegidas pelo anonimato dos perfis fakes de redes sociais ou pela distância geográfica, se transformam em haters, indo até os perfis de redes sociais de pessoas gordas para propagarem discursos de ódio que posicionam o corpo gordo em um lugar de inferioridade, como se esses corpos não fossem dignos de nada além de repulsa. Esse é um fenômeno que não é recente, não é uma novidade, mas que hoje se tornou ainda mais visível porque as pessoas gordas, antes desencorajadas a se mostrarem, estão cada vez mais ocupando espaços antes ocupados apenas por corpos magros, estão cada vez mais fazendo suas vozes serem ouvidas, seja através de seus ativismos online e off-line como de suas pesquisas acadêmicas.

Não por acaso, no atual cenário de pandemia do coronavírus entre as estratégias que as pessoas estão colocando em prática para exercer a vigilância do outro, como ocorrem as práticas de higiene, como e quando o outro dá passos para fora da porta da sua própria casa, somam-se ao como e quanto o outro está investindo na manutenção de um corpo magro. Não se trata de constatar como e se o outro está de fato higienizando suas mãos com água, sabão e álcool em gel, se está utilizando máscaras ou luvas, mas como e quanto esse corpo confinado está se movimentando dentro das paredes de sua própria residência. Trata-se também de vigiar quais alimentos estão sendo postos nos pratos das pessoas, em uma observância obcecada com a forma como as pessoas se relacionam com os alimentos. Como se o medo de engordar fosse maior do que o de morrer, e como se engordar fosse mais contagioso do que o coronavírus. Cada vez fica mais evidente que gordofobia é uma questão estrutural, uma parte da nossa cultura que passa despercebida pelas pessoas não gordas, pelos movimentos sociais, pelos feminismos e pelas políticas públicas. A gordofobia, conforme muitas ativistas e pesquisadoras gordas vem reforçando em suas falas, postagens em redes sociais e pesquisas, muito antes de termos nossas vidas confinadas em decorrência do coronavírus, é estrutural e é alimentada pelas mídias.

Na primeira semana de abril de 2020 a obesidade entrou para o grupo de risco de pessoas mais suscetíveis a serem contaminadas pela Covid-19, e essa nova informação foi veiculada na mídia como um “encontro de pandemias”, tendo em vista que existe uma parcela significativa da população mundial que é, nos termos do IMC (o índice de massa corpórea), obesa, acima do peso. A inclusão do corpo gordo no grupo de risco significa muito mais do que dizer que pessoas obesas devem redobrar os cuidados, devem se proteger ainda mais. Significa também que a sociedade não está pronta para lidar com esse corpo, pois do ponto de vista da saúde pública, os hospitais não estão preparados estruturalmente para acomodar essas pessoas por serem “pesadas demais” para as macas, para as máquinas que realizam tomografias, dentre outros tipos de exames. Significa dizer que todo corpo gordo é doente, como se fosse impossível pensar que uma pessoa gorda possa ser saudável, se alimentar bem, se exercitar, ser uma pessoa ativa, e essa é apenas mais uma forma de gordofobia institucionalizada através do discurso biomédico.

Dizer que a gordofobia médica existe significa, de acordo com o imaginário social hegemônico, romantizar a gordura, o excesso e o exagero. E pensar assim é também uma forma de gordofobia, porque esse pensamento reforça a amnésia cultural a respeito do corpo magro, como se este, ao contrário do corpo gordo, fosse sempre saudável, tanto é que quando uma pessoa magra morre em decorrência de alguma doença associada à obesidade, como doenças cardiovasculares, é comum que se comente sobre os hábitos alimentares e/ou se essa pessoa praticava algum tipo de esporte ou exercício físico, já que para algumas pessoas é inimaginável uma pessoa gorda esportista, ou que tenha uma alimentação saudável. É muito mais confortável julgar e deslegitimar a experiência e o corpo do outro do que pensar de forma crítica, problematizar os discursos e as práticas que se propõem como universais.

É preciso lembrar que a percepção do corpo não é a mesma para todos, assim como ficar em casa e poder fazer todas as refeições não é uma realidade compartilhada por todos. Escolher o que comer, planejar um cardápio diário e/ou semanal dentre outras práticas alimentares com as quais tantas pessoas estão ocupando seu tempo é um privilégio dos grandes em um país assolado pela fome. O medo de engordar deveria se converter em uma preocupação com a quantidade de famílias famintas Brasil afora, tendo em vista que a realidade da fome está agravada em tempos de Covid-19. Faces opostas de uma mesma moeda, retrato de um país que ainda precisa caminhar muito em matéria de empatia. Assim como antes da pandemia, é tempo de reforçar o óbvio, a diferença é que agora parece que temos uma audiência mais numerosa do que antes, ainda que a escuta ainda seja extremamente seletiva.





639 visualizações

© 2023 por Design para Vida.

Criado orgulhosamente com Wix.com

CONTRA A PORTARIA 34 E AS MUDANÇAS NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES